Outro dia, escrevi que depois desta pandemia e tudo que a voluma, as relações humanas serão diferentes: na empresa, com os amigos, parentes, filhos, pais, mães, netos, noras , genros todos terão uma nova visão. Em um vídeo Cortella diz algo parecido, credenciando o que penso. Eu, isolado, já estou experimentando. Algumas pessoas me bloquearam, o que de fato, devo reconhecer que tiveram dignidade, não deixaram o trabalho para mim, outros eu mesmo fiz e, ainda outros simplesmente me ignoram, o que não é de todo mau, entretanto, são estes que me metem medo.
Há tempos, sendo mais preciso. Desde as eleições de 2018, houve uma divisão “ideológica” mais acirrada. Alguns sem entender escolhiam lados apenas por questões, religiosas, cor, raça, sexo classe social, poucos tinham ciência de suas opções, provocando o efeito manada tão propalado.
Apontando dedo criava-se tribos e culpando tudo e a todos, como em numa “santa” inquisição, caçam bruxas vermelhas, comunistas. “Esquerdistas” e “direitistas” disputando o monopólio da verdade. O coronavírus veio trazer suprimentos à já esvaziada e puída pendenga, colocando “inocentes” e “culpados” em lados opostos, como se fora, de fato, verdade e, assim pudesse ser. Ora, culpados somos todos. Portanto, não têm inocentes, assim sendo, há de haver mais compaixão, caso contrário, não sobrará ninguém para fechar a porta.
É verdade que todos temos lado, escolhas diferentes, sexo, cor, religião, mas isto, não nos faz inimigos, o contrário deveria ser. Sempre aprendo com aqueles que discordam de mim, quando têm razão e, quando não, me confere a convicção de minha opinião. Aqueles que escolhem a curta e sombria vereda da inimizade, boa sorte, irão precisar, certamente, se consumiram em si, pois, não haverá luz a alimentá-los.
Desde cedo aprendi que não existem inocentes, todos somos culpados, de uma maneira ou de outra. E talvez, consciente disto, não culpo quase ninguém por meus erros, acertos, perdas, ganhos, saúde, doenças, alegrias e tristezas, como também não tenho fardos – podem até me titularem como proprietário de containers, mas, não me reconheço como tal – de mágoas, culpas e qualquer sentimento de rancor. Erros? Os meus são incontáveis, porém, são meus e somente a eles sou preso.
Sou ou tento ser, ciente, que aqui, sobre este torrão erroneamente navegante no universo sem fim, o que de fato, vale são seus atos e atitudes. Não adianta dizer que tem fé, que ama fulano, beltrano e cicrano se suas ações e obras não correspondem ao que diz. A fé rasa, o amor vazio, sem humanidade, sem razão, sem ação, alimenta apenas os tolos.
Este isolamento, a cada dia, me põe grudado na frase do filósofo São Thomas de Aquino: “fé sem ação, é morta”.
Diante do féretro exposto uma romaria chora suas mágoas, culpas, rancores, antecipadamente, outros gastam as lágrimas da partilha e ainda outros, em seus mundos escuros repetem “Eu devia ter…”.
Ontem, (segunda-feira), na fila (sem fila) do pão um vizinho, sorridente me indagou:
– E aí, seu Brito? Parece que não gosta de carnaval!? – Gosto sim. Quanto mais longe tiver de mim, mas gosto… – Eu também! Isso é coisa do diabo.
Com um boa tarde, me esguiei, segui ao barraco na velocidade das tartarugas do Arquipélago de Colón, comer pão com geleia de acerola, feita por Maria. Ele ficou importunando a coitada do caixa, que certamente, preferiria está em algum mela-mela ou no bloco dos Cão, louvando a folia, santificando com alegria a festa mais profana e abençoada pelos deuses, que a tirania daquela verborragia preconceituosa arrogante advinda do bloco dos infelizes.
“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval.” Dom Élder Câmara.
Gosto sim, de carnaval. Longe ou perto, dentro ou fora, só ele nos permite alegrias e êxtases em profusão juntas e misturadas, pois bem: Dei-me ao desplante de ler algumas dezenas de páginas do Livro da Filosofa, ouvi Banda Reflexu’s, Pink Floyd, The Beatles, Luiz Gonzaga, Agepê – som alto sem vizinhos por perto e com ausência total de música de sertaneja nas redondezas, ô glória -, assisti As Sufragistas, La La Land e mais dois chatos que esqueci os nomes e ainda vi Portela na avenida, nesta segunda. Ora quem pode proporcionar uma miscelânea destas? Certamente, só o “manda-chuva” da vez. Ah, também fiz uma boa arrumação em nossa loja (virtual), que estará de portas abertas, em breve.
Gosto sim, de carnaval. Você pode até tentar sair dele, mas ele não sai de você e quando não vai até ele, ele vem até você. Para tirar a prova dos nove, o Rei lhe induz ao revivamento, a mente lhe é povoada com belos carnavais já vividos que agora, se torna tão deglutíveis e palpáveis como um bom sonho.
Assim, foi feito: Me senti tão inteiro, como se presente estivesse na festa momesca, através das minhas belas e amadas netas Valentina (filha de Pollyanne/Felipe) e Lívia (Jade/Roberto), em seu primeiro ensaio de foliã. Gosto sim, de carnaval. Somos do bloco da vida, da alegria!
No final de outubro de 2019 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou os resultados definitivos do Censo Agropecuário 2017. Embora tenha tido pouca repercussão na imprensa norte-rio-grandense, o referido Censo é a pesquisa mais importante referente à realidade do campo brasileiro, especialmente sobre a agricultura familiar.
Por agricultura familiar, conforme a Lei 11.326, entende-se os produtores que: i) possuem áreas de terra de até 4 (quatro) módulos fiscais; ii) utilizem, no mínimo, metade da força de trabalho familiar no processo produtivo e de geração de renda; iii) obtenham, pelo menos, metade da renda familiar de atividades econômicas do seu sítio; e iv) dirijam o estabelecimento ou empreendimento estritamente com sua família.
Em nível de Brasil, através da aplicação desses quatro critérios classificatórios, foram identificados 3.897.408 agricultores familiares. Juntos, eles representavam 77% dos estabelecimentos agrícolas do País e ocupavam 67% das pessoas.
Mas e no Rio Grande do Norte (RN), quantos são e onde estão os agricultores familiares?
Segundo a citada pesquisa do IBGE, o nosso estado possuía 63.452 estabelecimentos agropecuários em 2017. Desse total, 50.680 (80%) eram agricultores familiares. Ou seja, de cada 100 estabelecimentos recenseados no meio rural potiguar ao menos 80 eram pequenos e tocados predominantemente pelo produtor junto com sua família.
A distribuição geográfica dos agricultores familiares no mapa do RN é bastante diversa. Do ponto de vista individual, os 10 municípios com mais agricultores familiares são: Apodi (1.785), Lagoa Nova (1.706), São Miguel (1.626), Mossoró (1.327), Caraúbas (1.148), Touros (1.146), Ceará-Mirim (1.085), Cerro Corá (930), Upanema (909) e João Câmara (790).
Já os menores contingentes de agricultores familiares estão situados nas seguintes localidades: Fernando Pedroza (52), Taboleiro Grande (50), Messias Targino (44), Galinhos (32), Tibau do Sul (24), Vila Flor (11), Viçosa (10), Senador Georgino Avelino (5), Baía Formosa (5) e Parnamirim (3).
Note-se que em praticamente todos os 167 municípios norte-rio-grandenses, desde aqueles que abrigam mais produtores até os que registram menores quantidades, os agricultores familiares representam a maioria absoluta dos estabelecimentos existentes.
Os números do Censo Agropecuário 2017, apresentados ligeiramente aqui, podem ter grande utilidade para os formuladores de políticas públicas. Isso porque, entre outros aspectos, eles revelam as áreas com maior concentração de agricultores familiares que devem ser o foco prioritário da ação governamental.
Além disso, tais estatísticas do IBGE podem ajudar a sociedade a monitorar o desempenho das políticas públicas implementadas em favor do segmento familiar.
Por meio delas, por exemplo, percebe-se que o programa inovador de distribuição de sementes crioulas do governo do RN, cujo objetivo é contemplar 3 mil produtores em sua primeira etapa iniciada no mês de janeiro de 2020, atenderá somente 6% dos mais de 50 mil agricultores familiares potiguares e necessita ser substancialmente ampliado.
A aparência de fragilidade é certamente a característica mais interessante da democracia. Parecer frágil, contudo, faz da democracia uma possibilidade vigorosa de realização dos desígnios da humanidade na perspectiva aristotélica do ser humano como “animal político” cuja existência se dá unicamente em ambiência social.
Em suma, viver na pólis é existir em sociedade e participar dos processos de gestão, construção e controle do mecanismo maior de organização social que é o Estado. Todavia, esta é apenas uma das concepções dos sistemas políticos estatais. Alguns destes excluem a participação, em níveis diversos dos segmentos da sociedade, deferindo a uma pessoa ou um restrito grupo social as decisões sobre a condução do Estado. Neste caso, tem-se sistemas políticos autocráticos de gestão e controle do Estado, sobretudo, a tirania e a oligarquia. A perversão da democracia que é o populismo, que na classificação de Aristóteles.
A conversão da democracia em populismo tem sido um fenômeno recorrente nestes tempos modernos, caracterizado na manipulação dos diversos segmentos sociais. O fascismo e seu irmão siamês, o nazismo, são exemplos do populismo de direita. No campo oposto, à esquerda, ele também se manifesta: o stalinismo e suas derivações assentidas em muitos países são igualmente expressões da condução autocrática de Estados e sociedades.
Em ambos os casos, contudo, os resultados, nos mais diversos níveis, foram drásticos em desfavor da humanidade, embora seja bem certo que uma democracia nem sempre garante que a vida do cidadão seja um paraíso terrestre: numa visão bem singela, ela é sempre, segundo a banalíssima Wilkipédia, “um regime político em que todos os cidadãos elegíveis participam igualmente — diretamente ou através de representantes eleitos — na proposta, no desenvolvimento e na criação de leis, exercendo o poder da governação através do sufrágio universal”. Melhor definição não pode haver para a proposta desta reflexão.
Assim, não parece ingênuo, nos dias atuais, indagar se é possível viver num Estado em que não haja democracia. Claro que sim, até porque a História mostra que a experiência humana da democracia é ínfima. Melhor entendendo: a regra é que a humanidade tem vivido mais em autocracias do que em democracias, merecendo sempre considerar que os sistemas políticos, autocráticos ou democráticos, em cada momento histórico e latitudes diversas, têm peculiaridades que os tornam únicos e irrepetíveis: nos anos sessenta do século XX, a ditadura argentina era diferente da boliviana, que diferia da brasileira que não foi tão abertamente sanguinária quanto à chilena e nenhuma delas foi tão aberrante quanto algumas ditaduras de países africanos, do mesmo período, como a do caricato Idi Amin Dada ou a do ‘imperador’ Bokassa: além de extermínio em massa de etnias rivais, foi constatado que Jean-Bédel Bokassa, posteriormente autointitulado Imperador Bokassa I (adotou o nome de Salah Eddine Ahmed Bokassa), foi o segundo presidente da República Centro-Africana (01/01/1966 a 04/12/1976, quando se fez coroar imperador Centro-Africano, permanecendo até 20 de setembro de 1979. Após sua deposição, fato estarrecedor chegou ao conhecimento da comunidade internacional: para seu consumo pessoal, Bokassa mantinha câmaras frigoríficas apinhadas de ‘cortes’ de carne humana, picanhas, maminhas e outras “coisitas” mais. Enfim, um escroto canibal que resgatou uma ‘cultura’ de seus ancestrais.
Hoje, cada Estado independente considerado democrático – a partir de indicadores cientificamente identificados – pode ser classificado e passar a compor um ranking determinado. Cada modelo de aferição obtém resultados que não se coadunam, necessariamente, com outros, por questões metodológicas.
Um das mais sérias instituições que medem e classificam a democracia em muitos países do mundo é a V-dem, de origem sueca, sendo um dos mais importantes “observatórios” da democracia no mundo. Em relatório recentemente publicado, que teve divulgação no prestigioso jornal espanhol El País, constatou que o Brasil vive “uma guinada à autocracia das mais rápidas e intensas do mundo nos últimos anos”, após a chegada de Jair Bolsonaro à presidência da República.
Noutras palavras, as novas diretrizes políticas que constam da agenda do presidente Bolsonaro, com “os esforços do presidente e seu Governo para calar os críticos, a exemplo do que “fez (Recep Tayyip) Erdogan quando levou a Turquia da democracia à ditadura, o que faz (Viktor) Orban na Hungria, que está prestes a deixar de ser uma democracia, e exatamente o que (Narendra) Modi faz na Índia”, conforme assertiva do diretor do V-dem, o professor Staffan I. Lindberg. Inequívoco que Bolsonaro se enquadra no modelo dos democraticidas que, atualmente, têm ascendido ao poder pelas urnas.
A propósito, lembre-se que o Partido Nacional Socialista alemão, participou de sete eleições, a partir dos anos 1920, até entronizar seu líder máximo Adolf Hitler como chanceler, em 1933, que, depois de uma série de manobras escusas e vais assassinatos, fechou o Parlamento, tornou proscritos todos os partidos políticos e empalmou o poder supremo na condição de “Fürher” da Alemanha. O horrores que se seguiram, é por demais conhecido.
A potente ‘metralhadora giratória” do capitão-presidente Bolsonaro, manejada por ele mesmo ou por seus filhos e acólitos políticos, atingem a imprensa, personalidades, artistas e instituições republicanas como o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e a Ordem dos Advogados do Brasil, além de Estados estrangeiros amigos do Brasil. Em todas as intervenções de Bolsonaro e seus seguidores afigura-se perceptível um profundo desapreço às instituições democráticas com as quais a sociedade brasileira tem vivido. Claro, têm imperfeições e insuficiências o modelo de democracia erigido na Constituição de 1988, mas, inequívoco que vêm garantido enorme e profícua estabilidade ao Estado brasileiro.
Ajustes são – e sempre serão necessários -, mas, desde que não possam desfigurar às conquistas democráticas, sociais e políticas plasmadas na Carta Política de 1988. Aliás, ao lado de certos eventos históricos, ela será sempre o ponto de partida para a consolidação dos interesses fundamentais da sociedade brasileira. Batam ou não as miseráveis panelas da classe média ensandecida e ignorante ou o ridículo pato amarelo que grasna no edifício da Fiesp, na Avenida Paulista. A democracia e os valores que ela imantam sempre serão algo por que lutar e manter. Acima de tudo e todas as coisas, pois, certamente aí estarão, verdadeiramente, qualquer ideia que se tenha de Deus e de amor a esta pátria que chamamos pelo singelo de Brasil.
“O Brasil não é um país sério” cunhou o francês Charles de Gaulle. E é preciso fazermos uma “mea culpa” admitindo que o general tinha e, para nos envergonha mais ainda, continua com nítida razão, isto, se um dia quisermos almejar a soleira da civilização.
Somos obtusamente cínicos. Um país onde em toda sua história republicana dos 38 presidentes, apenas 5 terminaram seus mandatos, portanto, nossa relação com a democracia sempre foi aos trancos e barrancos, entre tapas, beijos, golpes e torturas, nos revelando a nossa mascarada e dissimulada simpatia aos regimes antidemocráticos.
Mesmo que muitos insistam em se esconder ou disfarçar que o atual governo central não vetorizou, amplificou e quase que deu uma garantia, para estas forças nefastas saíssem das sombras e de cara limpa fossem aos bares exibir suas tendências nazistas, usando a suástica (símbolo do nazismo), é apenas mais cinismo dos que o apoiam, pois, a simpatia do Bolsonaro aos regimes ditatórias de direita e ao nazismo é tão nítido quanto o findo da vida.
O próprio presidente Tapir, apesar de sua gigantesca burrice esférica, é notório atos contra imprensa, negros, mulheres, professores, culturas, artistas, trabalhadores que estes atos dão sustentabilidade a tese de seu flerte ao nazis-fascismo e, por isto, já foi repreendido por diversas versas por líderes mundiais, por negar o holocausto. Em entrevista já disse que seria um soldado de Hitler, mesmo sabendo de toda atrocidade cometida.
“O Brasil não é para principiantes”, frase creditada ao Tom Jobim. Mais que certeira. No Brasil negro é racista; judeu é nazista; cristão tem simpatia pela tortura; mulher é machista; democratas pedem intervenção militar; trabalhador é apoia sindicato patronal; pobre come ovo “gourmet” e pensa que é rico…
Acabo ler um post no Feice que em Natal surgiu o Movimento de Arte Neonazifascista. Definitivamente, não somos sérios.
Assistido o Grande Empresas & Grande Negócios, do qual sou telespectador assíduo (embora, nunca tenha colocando em prática nada do seu conteúdo, talvez, goste mesmo da trilha sonora) uma matéria falava do avanço tecnológica na área dos cosméticos, onde uma empresa brasileira estaria usando a nanotecnologia em produtos para pele. Na demais em um país que é campeão em Cirurgia Plástica e Estética. O Brasil ultrapassou os Estados Unidos neste procedimento.
Isto posto, diz que somos muitos vaidosos, é crime? Não! É pecado? Há controversa! Creio que tudo em boa medida, certamente, faz bem e, portanto, pode ser salutar para o corpo e a mente uma recauchutada naquele nariz de batata. Agora, se o mesmo lhe é cumpridor de sua finalidade mecânica, estética e mental, também está tudo certo.
Dizem que o egípcio Santo Antão gastou 80 anos a fio sendo azucrinado pelo Diabo e não cedeu. Antão comemorava 105 primaveras, o Inimigo Fedorento, já com suas esperanças chamuscadas jogou a toalha, pediu “penico” – como se diz lá no sertão de Angicos/RN -, disse que isto nunca antes na história do mundo, alguém havia resistido a seus encantos, deu as costas em direção à saída, neste momento prostrado de joelhos em reza, Antão diz: “Senhor, muito obrigado, porque enfim, consegui ser santo”. O diabo sorriu, fez meia volta nos calcanhares tendo a certeza de sua vitória, pois, o santo rendeu-se à vaidade.
A vaidade é inerente ao ser humano, isto é tão certo quanto a necessidade de respirar. Cada um pode e deve lidar com a sua da melhor maneira possível, essa seria a tese nos melhores dos mundos, mas, não é bem assim que banda toca.
Muitos extrapolam – ou não, como diz o nascido em Santo Amaro -. A atriz hollyoodiana Gwyneth Paltrow anunciou que a Goop, está comercializando velas aromáticas que tem o “cheiro da sua vagina”. Não se animem, o site diz que o estoque esgotou. A vela aromatizada com o cheiro do xibiu da atriz está sendo comercializada por US$ 75, aproximadamente R$ 300,00. Se você ganha o salário mínimo, contente-se: não vai sentir nem o cheiro.
A vaidade altera regras, costumes e prazeres. Em nome de uma forma ideal estética imposta pelo “mercado”, se faz de tudo: estica-se a pele, em muitos casos deformam, transformando pessoas em figuras estranhas, como no caso de Michael Jackson, implantam-se silicone nos glúteos e seios para aumentar ou reduzir o volume, implantes de pênis, cirurgias estéticas vaginais entre outras, todas navegando no sétimo pecado capital.
Há mulheres expondo suas madeixas brancas afirmando não ser vaidade (talvez estética). Conheço pessoas que não pronunciam a idade nem por uma cocada preta, porém, na cara, mesmo o pós-reboco, se ver as pregas, sulcos, as gretas impostas pelo tempo. Não negaria minha vaidade, entretanto, também não me ponho diante do espelho acreditando na semelhança física notória com Brad Pitt e Allan Delon e menos ainda me furto a dizer minha idade e provar com certidão de nascimento, até porque respeito muito minhas sexagenárias pregas e as que o tempo decide carimbar em minha nordestina pele.
Outro dia assisti no Café Filosófico, uma pedagoga, falando dentre outras coisas que afetam o desenvolvimento da criança, a precocidade do contato com as telas como forma de brinquedo, pelo menos nos três primeiros anos, onde a formação e amplitude dos sentidos estão em pleno desenvolvendo.
Entretanto, fica impossível afastar as crianças das tecnologias e seria um erro ou uma vã ideia que elas não tendo contato com as tecnologias a partir de nós, estariam imunes, bobagem sem tamanho, uma besteira besta. A tecnologia faz parte da evolução humana e como tal é factível que todos possam dela desfrutar, mas as coisas não são tão fáceis, simples e românticas assim. Por trás de todo essa oferta, de que ela é necessária para você poder viver, ser feliz, há macabras ações dirigidas para nos tornar consumidores compulsivamente ativos, sem nenhum senso crítico e, quando somos capazes de resistir, eles dão vida limitada aos nossos aparelhos, nos obrigando compulsoriamente a nos livrarmos do antigo e correr à loja mais próxima.
Nos Estados Unidos existe uma lâmpada que está acesa há exatos 118 anos, em uma unidade dos bombeiros na cidade de Livermore, na Califórnia (EUA). Sem assim procedesse todas as lâmpadas, certamente, a Osram e Phillips já teriam quebrado. Projetar aparelhos com defeitos e peças pouco duráveis para que o consumidor tenha de comprar novamente é uma prática quase secular.
A indústria têxtil, no final do século XIX, começou a utilizar mais amido e menos algodão nos tecidos para reduzir sua durabilidade, incitando a consolidação da prática, como ferramenta de aumentar dividendos aos fabricantes. Em 1924, a General Electric, Osram e Phillips se reuniram na Suíça e decidiram limitar a vida útil das lâmpadas a 1.000 horas, sepultando sua possível útil longa vida.
Um grupo de consumidores franceses em 2017 acusou a Epson, HP, Canon e Brother de práticas destinadas a reduzir deliberadamente a vida útil de impressoras e cartuchos. Na França há legislação mais rígida, que tenta coibir tal prática.
Meu engando celular, começar a me enviar sinais que está ficando velho ou obsoleto, com menos de um ano de uso. Creio que anda vendo as ofertas do Magazine Luiza, para desespero dele, vou usá-lo até seu último suspiro. Ora, ele J8 Prime Dual, Android…Eu J60, estou novinho em folha.
Organizando meus arquivos encontrei esta relíquia: Vt da campanha de Narciso Mendes para o Senado, pelo estado do Acre. Em 1990 dirigia o departamento de arte e cenografia do Jornal e Tv Rio Branco, fui convocado para fazer a criação da campanha de Narciso Mendes. Foi um trabalho desafiador, pois seria minha chance de fazer algo fora da curva, do que havia posto. E algumas peças foram inovadores, pois, simulavam “efeitos”, de um equipamento que chamávamos pela sigla A.D.O. até então só usado pela Globo e grandes produtoras da região sudeste.
Um dos Vts tinha logo na primeira cena um livro abrindo suas páginas e delas surgiam imagens em movimentos que preenchia a tela, um outro tinha a imagem de uma pessoa em silhueta, em um birô, fechando gavetas e saindo, indo embora, simulando a cadeira que estaria vazia no Senado – Lembra Renato Severiano? -, outro de Célia, que o nome girava em seu eixo 360 graus.
Mas, o que chamou atenção foi o que trazia – ver VT – a fotografia de Narciso girando. Muitas polêmicas foram criadas pelos adversários acusando Narciso de gastar milhões de reais com publicitários e produtores de renomes, que fazia a campanha mais cara já vista no Acre.
Entretanto, forçaram tanto a barra que passei quase toda campanha explicando, em entrevistas, como a gente tinha feito a nosso “A.D.O de Cozinha” – lembra Nadja Faria?
Pois muito bem, aqui vai: No Acre, em horário de verão, o fuso é de três horas, isto é, Jô Onze e Meia, terminava as 9h e, eu, Maria e Machiel Jackson e Wesley ficávamos com o estúdio só para nós, para gravarmos comercias, fazermos testes…
Neste Vt, trabalhamos das 21h, até umas 5h da manhã gravando, na esperança de obtermos 5” de vídeo, o que, de fato, conseguimos.
Calma, explico: Com duas fotos de Narciso, duas linhas de nylon de 10 metros cada, cruzei diagonalmente e o meio colei nas costas de uma das fotos, colando as duas fotos de costa uma para outra fazendo um sanduíche das linhas. Depois amarrei as duas pontas de cima na parte superior do estúdio e as outras duas eu torcia, soltava, fazendo a foto girar e o Michael Jackson filmava e Wesley na ilha gravava, Estes cinco segundos nos custaram a noite inteira.
Os outros depois eu conto. Ufa! Fazer publicidade nos anos 80/90 não era fácil.
Sou uma criança de sonhos que o tempo ruiu, uma adolescente sem esperança que há muito, já partiu.
Sou mulher e mãe de tantos quantos a vida me fez parir, sentimentos de dois e ter quatro para chamar de meus.
Sou avó de quatro, cinco, seis…e de tantos outros que ainda virão! A velhice, ali no espelho, retrata sem pesar, as rugas marcam o rosto que, às vezes já não conheço os cabelos em desalinho, desobedientemente se branqueiam.
Sou órfã, adotei sentimentos por vez, na memória, ainda sã, que precisa registrar, contar o que passou, com o que sonhei passar e não deixar a idade me calar.
Fico pensando no tempo que se perde quando não se pensa, não recicla, não abraçamos quem amamos, não confortamos a tristeza, não alimentamos quem tem fome, não falamos a verdade, quando só ela traz certeza e alívio.
Perdemos tempo em tristeza sem prazo, em olhar sem ver, em chorar pelo que se foi, em deixar de viver.
Perdemos tempo se não aprendemos, se não evoluímos, se não ouvimos sem absorver.
Perdemos tempo quando alimentamos o lobo, quando não perdoamos e libertamos as dores. perdemos muito tempo sofrendo pelo que não tem perdão e essa dor só doe em nós.
Ontem(22), o Feice do jornalista Lindomarcos (que faz um trabalho muito interessante mostrando ex-alunos do Colégio Estadual, o Jerônimo Rosado de Mossoró/RN. Até lhe sugeri transformar em livro), publicou uma foto, daquela que foi a Mais Bela Estudante, por diversas vezes do Colégio Estadual e, nos desfiles cívicos de 7 e 30 de setembro, saía puxando um pelotão, com um zelo de uma porta-bandeira da Portela, era ela, minha Maria (que até então não sabia que seria minha eu, menos ainda).
Fui arremessado para os anos 70, na esquina das ruas Augusto da Escóssia e Afonso Pena, em frente a casa de Cizinho, onde nós improvisávamos um campo de futebol e ali, passávamos boa parte da tarde, e só parávamos para algumas autoridades passar: Major Bezerra, que morava na Augusto da Escócia, caso a gente não suspendesse a partida de futebol ele tomava a bola. Aliás, se visse a bola tomava e, para ela, quando ia para o Colégio Estadual, momento raro e único de vê-la.
Já adolescentes e morando na mesma rua, Augusto da Escóssia, já trocávamos alguns olhares irremediavelmente inocentes e despretensiosos, sem saber o que nos reservava o tempo – sempre ele, o tempo -. Amadurecemos, viramos adultos e seguimos viagem, cada um para seu lado.
Nos anos 80, trabalhamos no Edifício Cidade do Natal, no mesmo andar. Eu no jornal Estilo, do jornalista Toinho Silveira, que tratava de moda e do mundo social da Capital do Sol, Natal/RN e ela numa agência de modelos, Por minhas mãos passavam centenas de fotos de modelos para publicação, no entanto, nunca nos encontramos nem eu vi uma foto sua.
Quisera o destino nos juntar, em Mossoró/RN, no jornal Gazeta do Oeste, no ano de 86 e, lá se vão 33 anos dividindo sonhos, angustias, tristezas, alegrias muitas, enfim, a vida e um monte de filhos e netos.
Hoje, quando olho para trás, só me resta agradecer pelo que fomos, somos e estamos dispostos a continuar seguindo num Trem Azul.
Eu e meu velho pai, seu Luiz, o qual me dá um orgulho danado de ser seu filho.
No Poema Enjoadinho, o poetinha Vinicius de Moraes, expressa, uma secular questão:
Filhos… Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos Como sabê-los?
Sabiamente, a pergunta trás embutida a resposta, nos direcionando ao “melhor tê-los para sabê-los”, nos fazendo fugir do martírio pela eternidade da síndrome do epitáfio: “Eu devia…”. Assim sendo, ouvindo Vinicius, Chico, Caetano, Raimundo Fagner, Belchior, João Bosco fui fazendo filhos, todos sob a luz do sejam bem-vindos que serão amados quanto.
Com saber do meu primogênito, Polary que veio do Chile, para me ver? Como saber de Aléssia, sua filha, minha neta, que ora começa os primeiros passos no desenho? Como saber de Enzo, também seu filho, ligando de Santiago, com seu “Bom dia vovô Brito”? E, realmente transforma meu dia.
Como saber de Valentina (3), filha de Pollyanne me acordando em uma segunda-feira, nos intimando a ir com ela e a avó, ao cinema?
Como saber de Kaylanne, quando pequeninha, em suas visitas de sábados, deitava-se entre mim e avó, me mandava ficar de costas, se recostava nelas e dormia?
Como saber de Lívia, em pô-la sobre meu peito, sentir o pulsar de seu pequeno coraçãozinho em um sono dos anjos?
Eu sei! Sei de Polary, que me enche os olhos com sua disposição e coragem de enfrentar a vida destemidamente, sem as lamúrias dos covardes; sei de Pollyanne e seus passos firmes, milimetricamente regidos pela ética e apego a solidariedade ao bem-comum dos povos e à família; Sei de Jade, que costuma repetir que a “ignorância é uma benção” e, sentindo as dores do mundo, tendo uma visão apaixonada pelas causas perdidas, mas que merecem ser lutadas; Sei de Larissa, minha caçula e bióloga, que lá de Mossoró, passamos hora a fio, em longas conversas de diversos assuntos, dos quais aprendo muito.
Eu sei. Não faria nem mais nem menos do que tenho. Eles me bastam, não caibo em mim de tanta alegria de tê-los, sabê-los e sê-los.
Ao meu velho e querido pai toda minha gratidão e amor, pois, todos somos frutos do seu “tê-los”.
Em alentado estudo sócio-antropológico (inAntropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970), o pensador francês Claude Lévi-Strauss alerta para as diferenças entre o que chama de mito e o que entende por ritual, quando afirma que enquanto este é “o modo pelo qual as coisas são ditas”, os mitos seriam apenas, mas, não menos importantes, “o que dizem as palavras”.
O mais significativo é que, para Lévi-Strauss (p.603), os mitos se servem dos rituais para terem existência real, no mundo da práxis. Invocando a permissão desse grande teórico que deu efetiva contribuição para a sedimentação de estudos antropológicos e sociológicos de matriz brasiliana, é de mister introduzir outra categoria para tratar de temas políticos-institucionais: a liturgia. Sim, liturgia em sentido diferenciado daquele que lhe é tradicional e que se refere aos rituais de cunho religioso (liturgia católica, liturgia anglicana etc.).
Sim, definitivamente as boas práticas políticas seguem, no chão republicano e democrático, típicas ‘liturgias’ que se sedimentam a partir de usos e costumes políticos de cada povo e em diversas latitudes. Veja-se, por exemplo, o costume que a Revolução Parlamentarista inglesa (século XVII), impôs à família real britânica: não se envolver na administração do Estado, nem sequer tratar em público de temas políticos.
Por isto que, a despeito de todo o transe político vivido atualmente pelos britânicos com essa lenga-lenga do Brexit, a família real britânica não se pronuncia sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia. Essa questão vai ser decidida pelo Parlamento e até já custou a cabeça da primeira-ministra Theresa May.
Então, Qual a posição da vetusta e amada Rainha Elizabeth II (66 anos como chefe de Estado!), ou de seu consorte, o príncipe Phillip (um boquirroto reconhecido), ou do príncipe William, a aposta mais concreta de se tornar o novo monarca britânico? Nada, mesmo os mais tenazes tablóides sensacionalistas ingleses conseguiram publicar algo que valha como posicionamento sobre o Brexit. A velha liturgia é seguida à risca, para preservar o sistema político, aquilo que os próprios ingleses chamam de “establishment”. Ao que parece, não disseram a Bolsonaro que, a despeito de HRM Elizabeth II não dar entrevistas, não participar de debates na TV e não emitir opiniões nas redes sociais nem fora delas, continua a ser uma quase unanimidade em meio a seus tantos súditos.
Diante da tentativa do Congresso Nacional lhe tirar a prerrogativa de nomear os dirigentes das agências reguladoras, o presidente Bolsonaro esbravejou: “Querem me deixar como Rainha da Inglaterra”. Dito isso, ele foi, no mínimo, grosseiro com a chefe de um (poderoso) Estado estrangeiro com o qual o Brasil mantém fortes laços políticos e econômicos. Uma inegável quebra de liturgia: os costumes políticos dos ingleses deveriam ser respeitados.
Noutro episódio recente, um atabalhoado presidente Bolsonaro, em viagem oficial à vizinha Argentina, se imiscuiu na política interna dos “hermanos” e deu apoio à reeleição do desastrado Mauricio Macri, cujo governo tem sido um monumental fiasco econômico e político. Imagine-se uma derrota – nada improvável – de Macri nas eleições que se avizinham? Como o Brasil vai atuar diante da Argentina, nosso vizinho, parceiro importante e um dos pilares do Mercosul? Certamente, nesse cenário de possível vitória peronista, o Brasil terá muitas dificuldades. Sem dúvida, mais uma quebra ridícula da liturgia que imanta as relações internacionais brasileiras com as nações amigas.
Outra babaquice caipiresca do atual inquilino do Palácio do Alvorada: empolgado com a participação no encontro do G-20, em Osaka, Japão, Bolsonaro disse que Donald Trump é “muito querido pelo povo brasileiro”, o que é uma enorme inverdade. E fechou por expressar o seu irrestrito apoio à reeleição do “Tangerine Man” à presidência dos EUA. Isso seria algo até para ser dito em “pétit comitê”, jamais para divulgação na mídia mundial. E se Trump der um “escorrego” e não se reeleger para a presidência dos EUA? As pesquisas de opinião, nos Estados Unidos da América, são vacilantes: à reeleição de Trump é, ainda, uma incógnita. Por isto, para seguir a boa liturgia das relações internacionais, o chefe de Estado brasileiro não deveria tomar partido, mesmo porque o seu apoio, neste caso, vale nada ou coisa nenhuma. E se o próximo presidente norte-americano for um democrata?
A maneira grotesca de como demitiu o economista Joaquim Levy da presidência do BNDS, o general Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência do Brasil, ou prometeu o cargo de ministro do STF ao ex-juiz Sérgio Moro quando sequer a vaga existe, mostram o desconhecimento de Bolsonaro da liturgia do poder. E o mais grave é que, diariamente, ele tem sido superado, nas bobagens e bizarrices, por seus filhos e auxiliares mais próximos.
Outra quebra de liturgia: para aparecer como líder popular, Bolsonro se abalou de sua curul presidencial para visitar o jogador Neymar num hospital de Brasília. Até aí tudo bem, se ele não desse uma entrevista a defender as trampolinagens sadomasoquistas do moleque num hotel de Paris. Grotesco episódio em todos os aspectos que possam ser examinados. O supremo mandatário da nação brasileira não poderia se rebaixar a tanto; deveria preservar a enorme dignidade do cargo que ocupa por decisão majoritária do povo brasileiro. E o velho Bozo desceu ao pântano. Lamentável.
Um nível mais abaixo, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, por exemplo, tem excedido em gafes e cenas ridículas que protagoniza, como foi o caso da piada que fez a propósito da descoberta vexaminosa, no dia 26 de junho de 2019, de que um dos aviões que servem à presidência da República, na viagem que Bolsonaro fez ao Japão, transportava 39 quilos de cocaína, após prisão de militar brasileiro, sargento da Aeronáutica, Manoel da Silva Rodrigues, por autoridades espanholas, em Sevilha. Na sua conta do Twitter, Weintraub, pensando fazer piada inteligente, disse que “no passado o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?” Nada engraçado. Apenas algo, rude, desrespeitoso e vil, de quem não tem a mínima noção do que representa o cargo que exerce. Nem o seu guru, Olavo de Carvalho, chegaria tão longe.
Bem a propósito, o general Santos Cruz, que foi comandante das forças da ONU no Haiti e no Congo, Secretário Nacional de Segurança Pública e ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência do Brasil, defenestrada do ministério de Bolsonaro após pugilato verbal com o astrólogo Olavo de Carvalho, em recente entrevista à revista Época, dá a exata dimensão do febeapá que é o atual governo da República: “Tem de aproveitar essa oportunidade para tirar a fumaça da frente para o público enxergar as coisas boas, e não uma fofocagem desgraçada. Se você fizer uma análise das bobagens que se têm vivido, é um negócio impressionante. É um show de besteiras. Isso tira o foco daquilo que é importante. Tem muita besteira. Tem muita coisa importante que acaba não aparecendo porque todo dia tem uma bobagem ou outra para distrair a população, tirando a atenção das coisas importantes”.
Enquanto os franceses se jactam de poder comer um queijo diferente a cada dia do ano – un fromage pour chaque jour! – nós, nestes brasis selvagens, a tirar pelo que diz o general Santos Cruz, espantados vemos uma besteira a cada dia no governo Bolsonaro. E as liturgias do poder despedaçadas impunemente. Até quando? Tristes trópicos (Lévy-Strauss, encore)!
Uma coisa é certa: o presidente Bolsonaro e seus principais auxiliares não se preocupam com a liturgia do poder, preferindo os arroubos ideológicos que atropelam, internamente, as difíceis relações com os outros poderes, principalmente com o Congresso Nacional. Tudo por ignorar as liturgias que imantam essas relações, o que constitui um motor de constantes crises, vexames e gafes.
Se trabalharmos com números, os 57,7 milhões de votos que o elegeram são bem inferiores aos 140 milhões de votos que receberam deputados federais e senadores em 2018, embora Bolsonaro e seus milicianos não faças estas contas. Por isto é que tudo deve levar em consideração a velha fórmula dos “balanços e contrapesos”, no difícil e não menos íngreme chão da democracia e dos costumes republicanos. As velhas e boas liturgias ajudariam a tornar mais seguros e curtos esses caminhos.
A despeito do corte ultra-liberal da visão econômica do ministro Paulo Guedes, fortemente radicado nos postulados conservadores da Escola de Chicago e no pensamento do seu principal guru, o economista Milton Friedman 1912-2006), prêmio Nobel de Economia de 1976, a sua presença na cabeça da equipe econômica do governo Bolsonaro ensejou um clima de confiança no mercado.
Claro, inegável que a passagem de Guedes pelo mundo das finanças, neste país, tem sido pontilhada por histórias de sucesso, sendo um dos fundadores do Banco Pactual e de vários fundos de investimentos e empresas, o que reforça em muitos as expectativas que cercaram a sua ascensão como mentor do candidato Jair Bolsonaro que, na campanha presidencial, se recusava responder sobre questões de economia e sempre fez vexatórias remissões ao seu “Posto Ipiranga”, como ‘carinhosamente’ tratava o seu futuro Ministro da Economia.
Entronizado no Ministério da Economia, Guedes passou a ter poder e influência jamais imaginados por seu antecessores nos últimos cinquenta anos, inclusive, na montagem da equipe. No entanto, para desencanto de muitos, nada de novo apresentou para dar um novo ânimo à economia brasileira, passados seis meses de governo, apenas ‘requentando’ ações dos governos anteriores. E o país seguiu afundando no pântano no marasmo econômico, com projeção de uma cenário de profundas incertezas.
O mais estranho é que o ministro Paulo Guedes, certamente para satisfazer subalternos aspectos ideológicos, se fixou na realização de (mais) uma reforma da Previdência Social como o “abre-te sésamo” econômico do governo Bolsonaro: sem ela, advertiu Guedes ao Congresso Nacional, nada poderá acontecer na economia. Enorme falácia. Bobagem mesmo.
Ora, neste contexto uma reforma da previdência social resolve apenas aspectos secundários da economia, mormente, a busca do equilíbrio das contas públicas, porém, mantém intocados vários outros aspectos mais sensíveis e relevantes da gestão econômica: política cambial, retomada do crescimento, investimentos, redução do desemprego, aumento das exportações etc. Em si, a reforma da previdência preconizada por Paulo Guedes, se aprovada integralmente pelo Congresso Nacional sem uma vírgula a mais ou a menos, ainda assim deixaria irresolvidas as grandes questões que atravancam, hoje, a economia brasileira.
O mais grave é que deputados federais e senadores jamais darão o que Guedes quer, até mesmo porque o governo Bolsonaro é órfão de bons negociadores com o Congresso Nacional. Isto o torna refém do bloco parlamentar conservador autodenominado como “Centrão”, que lhe tem imposto seguidas derrotas. Isto sem falar que o habilíssimo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que está cada vez mais desenvolto nas críticas a Bolsonaro, a tirar pelo comentário que fez no episódio da demissão do presidente do BNDES: um ato de enorme “covardia”. Pano rápido. Deu no osso do “Capitão”.
Assim, a reforma previdenciária sairá diferente daquela que Guedes planejou, restando-lhe acudir a outros espectros mais relevantes da gestão da Economia. E terá que dizer a que veio, o que não fez até agora. Se não der uma repostas positiva, aprofundará perigosamente a crise econômica.
Óbvio que o mercado tentará ganhar com isto, todavia, aos cidadãos comuns não restará alternativa, senão da resignação pura e simples, bem nos moldes da lição pessimista do mesmo Milton Friedman, na introdução do sua obra “Capitalismo e Liberdade”: “Se o governo deve exercer poder, é melhor que seja no condado do que no estado; e melhor que seja no estado do que em Washington. Se eu não gostar do que minha comunidade faz em termos de organização escolar ou habitacional, posso mudar para outra e, embora muito poucos possam tomar esta iniciativa, a possibilidade como tal já constitui um controle. Se não gostar do que faz o meu estado, posso mudar-me para outro. Se não gostar do que Washington impõe, tenho muito poucas alternativas neste mundo de nações ciumentas.”
Se trocarmos “condado” por “município” e “Washington” por “Brasília” teremos a dimensão do pouco espaço de manobra que resta aos cidadãos comuníssimos (nada a ver com comunista!) que somos nós, a não ser fugir para alguma dessas “nações ciumentas”. Onde, aliás, por pura precaução, não haja nenhum “Posto Ipiranga”…