Artigo

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Amigo é pra essas coisas

Há pouco, conversava com Guadalupe – guardiã do nosso amigo Nelson Rebouças – sobre sua partida inesperada. E volto à música, sim, porque talvez seja ela uma das formas que encontrei de lutar. Ouço música quando estou feliz, nervoso ou triste. Ela chega, me abraça e, de algum jeito, vai me salvando.

Milton Nascimento soltava a voz…

E assim, entre uma música e outra, já se vão mais de 30 anos de amizade.

Canção da América.

Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi

Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa pra se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam: Não
Mesmo esquecendo a canção

O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier (seja o que vier)
Venha o que vier (venha o que vier)
Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar

Seja o que vier (seja o que vier)
Venha o que vier (venha o que vier)
Qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar

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Inveja

Outro dia, na fila do Carrefour, alguém falava sobre inveja. Pelo sorriso dos presentes, foi apenas uma pilhéria. Como fiquei na missa sem ver o padre, passei a pensar na tal.

A inveja, entre os sete pecados capitais, talvez seja a mais ardilosa. A Bíblia diz que “o coração em paz dá vida ao corpo”, mas que a inveja é “podridão dos ossos”. Os antigos, convenhamos, não usavam de muita sutileza.

Quando o invejoso tem o ardil como natureza, raramente aparece de cara limpa. Vem disfarçado de elogio, carinho, preocupação ou até de uma piada – dessas que fazem rir por fora e cutucam a ferida por dentro. Para os estudiosos do borogodó, é uma das formas mais cruéis do pecado: camufla a intenção e quase não deixa à vítima espaço para defesa.

No dia a dia, percebo a sutileza e a tristeza de algumas pessoas, cuidadosamente seladas por uma felicidade cuja espessura não passa de um fio d’água em um pires. De tão transparente, um observador atento percebe a inveja cristalizada.

Talvez gente assim carregue frustrações, desamores e traumas – alguns reais, outros fabricados por neurônios que trabalham contra o próprio dono. E acaba destilando veneno em pequenas doses.

O diabo é que o veneno costuma fazer mais mal a quem o distribui do que a quem é destinado. Afinal, carregar a felicidade alheia como ofensa deve ser uma tarefa cansativa. Nem Sísifo aguentaria.

Mas o ser humano é difícil de entender. Freud tentou. Outros continuam tentando. E, pelo visto, ainda vão devastar muita floresta para fazer divãs.

Brito e Silva — Cartunista

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Coragem grande é poder dizer sim!

Nos anos 80, mais precisamente em 1986, o Acre resolveu importar jornalistas a granel. O destino era o jornal Rio Branco e a recém-inaugurada TV Rio Branco, dos irmãos Narciso Mendes, então deputado federal, e Naildo Mendes, dois potiguares nascidos no Oeste do Estado – talvez daí venha a predileção pelos comedores de camarão.

De Natal, foi a diretora de TV Nadja Faria. Da terra da Santa do Olhos – Mossoró -, Kléber Barros, Renato Severiano, da Gazeta do Oeste, e Washington Aquino, d’O Mossoroense e da Rádio Rural.

Renato e Kléber, nas conversas por Telex – sim, aquele aparelho jurássico que merece um Google – insistiam que lá precisavam de gente como eu e Maria, criativa e talentosa, essas coisas que amigos generosos costumam dizer da gente. O problema era outro: bastava olhar o mapa. Acre? O mapa, sinceramente, não ajudava.

Mas, em junho de 1986, depois de muita insistência, aconteceu o inevitável. Como diria Caetano, “coragem grande é poder dizer sim”. E nós dissemos.

Naquela noite, em casa, comecei a desconfiar da minha própria coragem. Será que eu não tinha sido precipitado? Afinal, eu não entendia bulhufas de televisão. Meu contato com o meio se resumia aos VTs que a Modus Propaganda – na qual era sócio – produzia na Provídeo, em Natal. Televisão, mesmo, conhecia o prédio. Mas o sim estava dado. E sim, depois de dito, não costuma aceitar arrependimento.

No dia seguinte, chegou um Telex com as autorizações para retirarmos nossas passagens na VASP.

Na semana anterior, havíamos comprado cama, sofá, mesa, guarda-roupa, fogão e geladeira nas Lojas Rodrigues, cliente da nossa agência. Na hora do almoço, fui falar com Artêmio para devolver tudo. Depois de muita conversa e alguns cafezinhos – acho que a fome ajudou na negociação – ele apareceu no dia seguinte, olhou os móveis e comprou tudo de volta.

Mobília resolvida. Faltavam o Fiat 147 e o telefone fixo. Chaguinha, da serigrafia, arrematou. Pronto. Tudo resolvido. Êpa, quase.

Socorro amarrou o burro e decretou que não iria de avião. Resultado: fomos para Fortaleza pegar um ônibus. Saímos num sábado e chegamos à rodoviária de Rio Branco no sábado seguinte, recebidos por Renato Severiano, diretor de jornalismo da TV Rio Branco.

Na segunda-feira, fomos à TV. Na sala de Naildo, veio a primeira surpresa: o emprego de Socorro, como diagramadora do jornal, estava garantido. O meu, como diretor de arte e cenografia da TV e do jornal, já tinha evaporado.

Durante uma semana, ninguém conseguira se comunicar. A informação que chegara a Naildo, pela Gazeta do Oeste, era de que eu e Maria estávamos de férias. Como havia urgência, ele contratara Garção, da TV Ponta Negra, de Natal. Antes que eu pudesse lamentar a viagem, Naildo resolveu a questão: eu receberia 60% do salário previsto e seria auxiliar de Garção.

O que parecia um castigo acabou sendo um presente. Tive tempo para aprender televisão e, principalmente, para meu novo ofício. Foram pouco mais de 40 dias de aprendizado intensivo, até aos domingos estávamos na TV.”

Até que Garção recebeu um convite para trabalhar em Macapá.

Aí, meus amigos, a coisa mudou de figura.

Mas isso já é outra história.

Brito e Silva – Cartunista

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Solução salomônica

Numa postagem do meu amigo da vida toda, Givanildo Silva, fiz uma ironia sugerindo que a crise no STF não ia dar em nada. Afinal, Fachin, em nome da imagem da instituição, daria uma solução salomônica: para preservar a “paz”.

É certo que, às vezes, até eu mesmo não entendo minhas próprias ironias. Mas uma coisa eu sei: não escrevi uma vírgula sobre Lula. Até porque, até onde sei, não há notícia de que ele tenha recebido dinheiro de Vorcaro. Mesmo assim, conseguiram enxergar Lula no meio da história e ainda o elegeram como meu “deus” supremo. Que coisa, Giva!

Mas voltemos ao comentário – que, registre-se, era ironia, não profecia.

Pois não é que terminou se confirmando?

Fachin disse que pode assumir as relatorias dos casos do Banco Master e do INSS, atualmente com André Mendonça. Tudo, naturalmente, em nome da credibilidade do Supremo, se é que lhe resta alguma.

Vejam só: eu faço uma ironia e o Fachin vai lá e me rouba a cena.

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Tariflavio

Ontem, o assunto era a entrevista do Tariflavio. Um alvoroço dos diabos nas redes sociais, um barulho de incomodar os deuses do Olimpo, no horário nobre, a montanha pariu um rato (quase literal). No tête-à-tête com Renata e Tralli, o mentiroso fez aquilo que sua competência lhe confere: mentir. Nada além do que já está na sua gênese.

Tirante a excepcional ideia de um projeto de saneamento básico para combater o aquecimento global – fiquei cabreiro, imaginando que um ideia tão genial, talvez, pudesse ter sido sugerido ou copiado do galego descascado ianque – o restante foi mais do mesmo: mentiras, mentiras e mais mentiras.

Devo confessar que fiquei um pouco frustrado: esperava mentiras novinhas, virgens, cabaços, mas…

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Nada de novo há…

“Aqui na terra tão jogando futebol,
tem muito samba, muito choro e rock’n’roll…”

Mentira! Por aqui, o que está em alta mesmo são as bets, tem muito falso sertanejo, pouco rock’n’roll e muito funk proibidão de sobra.

O que não mudou, e parece não ter a menor intenção de mudar, são as mesmas velhas raposas. Todas devidamente harmonizadas, turbinadas e com plantios de madeixas regadas com verbas públicas, verbalizando as mesmas velhas mentiras, agora com ajuda da IA, como se dissessem uma mentira nova, e convencendo, como sempre, os mesmos convencidos de outrora.

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Não cancelo bolsonarista

No conto dos irmãos Grimm, “O Flautista de Hamelin”, um homem toca sua flauta e conduz os ratos para longe da cidade, livrando-a da infestação. Por estas bandas abaixo do Equador, basta soar um berrante e a manada sai em disparada, atropelando qualquer vestígio de civilidade, empestando e infectando o ar.

Alguns progressistas – poucos ainda se dizem comunistas ou socialistas, talvez pelo desgaste deliberado dessas palavras – perguntam por que não bloqueio – cancelo, nome da moda – os bolsonaristas que aparecem nas minhas redes sociais, mugindo e destilando comentários temperados de ódio. A resposta é simples: bloqueá-los não os torna menos bolsonaristas, menos agressivos e, certamente, também não os faria menos geradores ou divulgadores de fake news, nem lhes imporia qualquer dose de civilidade. Além disso, é preciso sair de frente do espelho, parar de se encantar com o próprio reflexo e, sobretudo, prezo pela liberdade de expressão dentro dos limites da lei. Logo, não usarei a mesma metodologia usual dos “durmininus”.

Se você diz democracia, eles respondem com Ustra. Se fala em Jesus, berram “Messias”. Se menciona o Brasil, aparecem de verde e amarelo, mas também enrolados na bandeira ianque. Não dialogam; apenas repetem o chamado do berrante. Há ainda os que, em tom professoral, falsificam a história com tanta convicção que, que beira a criminalidade. Entretanto, eles têm o direito de sê-lo, de fazê-lo e de dizê-lo e serem responsabilizados, como qualquer cidadão.

Por isso, não os cancelo. Talvez este seja um dos poucos lugares onde possam se exibir de corpo inteiro e completa ausência de qualquer realidade. Já conheci muitos que mugiam apenas na escuridão; agora, berram à luz do dia, sem o menor constrangimento. Uma coisa boa do bolsonarismo: desnudou aqueles que viviam sob o véu da hipocrisia.

Brito e Silva – Cartunista

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Apenas um Brito

Neste Dia dos Pais, aqui com meus botões, lembrei daquela moça que apareceu no Fantástico, lutando na Justiça para retirar o nome da mãe. Veio-me então aquela velha ideia: “Quem faz o nome é o dono.” Você pode ser um Chico qualquer ou um Buarque; um Zé Ninguém, um Ramalho ou um Tom. A moça, ela poderá escrever a própria história, cunhar seu nome e fazer com que seus futuros descendentes tenham orgulho dele.

É verdade: assisto a certos filmes não apenas uma vez, mas dezenas, às vezes centenas. Quando já sei cada diálogo de cor, faço duas horas de meditação esquecer para assistir novamente como se fosse a primeira vez. Elizabeth – A Rainha Virgem é um desses filmes. Se está passando, eu assisto. Entre todos questionamentos feitos por seu conselheiro, Sir William Cecil, Elizabeth responde com absoluta firmeza: “Sou filha do meu pai.” Poucas palavras, mas de enorme significado. Era como se dissesse: conhecendo meu pai, Henrique VIII, vocês conhecem minha raiz. Sou parte dessa história e carrego comigo sua herança.

Mas a História também está cheia de homens e mulheres que fizeram exatamente o contrário: abandonaram o nome de família para construir outra identidade. Stalin, Hitler, Napoleão, Malcolm X, Muhammad Ali, Ho Chi Minh, Trotsky, Voltaire e George Orwell são alguns exemplos. Até o Buda renunciou ao nome, ao título e à própria linhagem real.

Há também quem acrescente um novo nome àquele recebido da família. Foi o caso de Lula, que incorporou oficialmente o apelido ao seu nome. Eu, cá do meu lado, não faria o mesmo. Não me soaria bem um José “Dedé” de Brito e Silva. Muito menos retiraria o Brito.

Não é por tradição, dinheiro ou vaidade. É por gratidão. Por honra. Foi esse nome que, tantas vezes, fez os olhos do meu velho pai, seu Luiz – em memória -, brilharem de orgulho. Ainda guardo comigo a imagem dele, sentado à sombra daquela mangueira, ouvindo, atento, enquanto eu lhe contava alguma conquista minha. E isso, para mim, já é motivo suficiente.

Feliz Dia dos Pais.

Brito e Silva – Cartunista

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Oxente!!!

Sempre tive uma enorme dificuldade de fazer parte de “galera”, de “turma”. Não que, na adolescência, eu não tenha participado de algumas. Participei, sim, sempre com certas restrições, mas cheguei a usar tamancos, calça cumprida sem cós e cabelos encaracolados.  Diziam que eu era metido a besta, convencido. Em bom português da época: um “bosteiro”.

O curioso é que, com o passar dos anos, em vez de melhorar, piorei. Fui ficando cada vez mais “bosteiro”. Pelos mesmos motivos. Até que um dia alguém resolveu dar um nome mais elegante ao meu defeito: seletividade. Descobri que só consigo me relacionar bem quando existe troca. Quando posso ensinar alguma coisa ou, principalmente, aprender.

Acho que envelheci cedo. Ainda menino, lia mais do que o recomendável para a minha idade. Não queria apenas ouvir música; queria entender a letra, o contexto, a história. Nunca fui muito dado a gírias nem a seguir modismos. Sempre tive um olhar mais voltado para as nossas raízes.

Talvez por isso hoje eu leve alguns sustos. Vejo essa invasão de palavras e expressões em inglês – muitas vezes mal pronunciadas, mal compreendidas e, pior, completamente desnecessárias – como se falar “meeting”, “feedback”, “call” e “deadline” concedesse direito a um diploma de modernidade. E o inevitável “brigadão”, usado com tanto entusiasmo que já deve valer ponto no campeonato nacional da cafonice e besteirada.

Eu sei que logo aparecerá alguém para dizer que a língua é viva, dinâmica e mutável. Concordo. O problema é quando ela muda por puro exibicionismo. Tem gente que acha que chamar café de coffee aumenta o QI. Nesse ritmo, qualquer dia vão chamar “meus zóvus” de my balls. Enquanto isso, deixem meu “oxente” em paz. Ele nunca precisou de legenda.

Brito e Silva – Cartunista

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65 anos

Neste 20 de julho, convidei todos os meus eus para comemorar os nossos 67 anos. Certamente, alguns não virão: morreram pelo caminho. Mas a esmagadora maioria continua comigo, o que me permite fazer uma avaliação bastante positiva da jornada.

Sei que alguém poderá dizer: “Você está se medindo pela própria régua”. Ora bolas, como poderia ser diferente? Só é possível emitir uma opinião fundamentada sobre aquilo que se conhece. E quem me conhece melhor do que eu mesmo? Afinal, convivo comigo há 67 anos, 24 horas por dia. Por isso, considero que tenho autoridade suficiente para me atribuir uma honesta nota 8,5.

Também não vou incomodar agradecendo aos deuses ou às entidades do além. Pelo que dizem, eles parecem apreciar mais os sacrifícios, as oferendas e os suplícios do que os simples agradecimentos. Como só tenho gratidão para oferecer, vou direcioná-la a quem realmente ajudou a forjar quem sou: meus pais, minha mulher, meus filhos e filhas, meus netos e netas, genros e noras, meus irmãos, minhas irmãs, meus amigos e minhas amigas. A todos vocês, muito obrigado.

Agora, sigo olhando para o horizonte. Ouvi dizer que lá adiante existe um museu cheio de grandes novidades. E se aquela velha e ardilosa senhora permitir, pretendo visitá-lo.

Brito e Silva – Cartunista

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Creio em São Luís Scrosoppi

Gosto de futebol, sim senhor! Vou torcer pela Seleção Brasileira e, aviso logo, não vou vestir verde e amarelo porque ninguém me deu uma camisa. Patriotismo tem limite; o preço de uma camisa amarelinha, nos camelôs do Alecrim já está a pouco Reais dos cobrados pela CBF.

O melhor jogador brasileiro dos últimos tempos, depois que virou o “menino Ney”, pedala entre craque, celebridade e personagem de reality show. Mas, se entrar em campo, parar de comer grama por alguns minutos e fizer gol, não vou berrar nem mugir em êxtase bovino. Vou apenas gritar “gol”, como qualquer torcedor que ainda acredita nos milagres de São Luís Scrosoppi.

Talvez, se Nova York ficasse ali pelas cercanias de Mossoró, entre Jucuri, Umari e Passagem de Pedra, eu até fosse ao MetLife Stadium assistir a algumas partidas. Mas a geografia, a cotação do dólar e minha conta corrente referendam a conspiração em sentido contrário. Além disso, minha simpatia pelos ianques é parecida com a que dedico às caminhadas.
Prefiro o Velho Mundo, embora a elegância das avenidas largas de Paris também, foram alicerçadas sobre ossos, suor e sangue daquele que sentaram do lado esquerdo do rei. A diferença é que, por lá, a história costuma vir embalada em belas paisagens.

E, convenhamos, se eu resolvesse guardar minha ignorância num bisaco e me aventurar pelo aeroporto JFK, com esta minha cara de fome de anteontem, certamente o ICE me ofereceria um hot dog, ou quem sabe, aplicava um Taser me despachando de volta para as terras dos potiguaras.

Na verdade, torço mesmo é por Ancelotti. Um sujeito que recebe cerca de R$ 60 milhões por ano da CBF merece conquistar esse hexa para pendurá-lo no rosário de títulos que já carrega. Né não, seu João?

Brito e Silva – Cartunista

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“Meu Pet Preferido”

Para o 8º Salão de Humor de Pindamonhangaba-SP, fiz dois desenhos: uma caricatura de Maurício de Sousa e uma charge inspirada no tema “Meu Pet Preferido”. A caricatura, claro, seria do pai da Mônica. Já a charge me levou a pensar nesse novo o culto aos bichinhos gourmetizados.

Esse assunto costuma me render alguns imbróglios, porque tenho uma opinião fora da cartilha. Prefiro os animais em seus habitats naturais e fujo um pouco desse modismo afetivo que transforma cachorro em filho, gato em terapeuta e capivara em influencer digital. Mas cada um faz o que quer da vida: há quem converse com samambaia e há até quem beije cachorro na boca com mais paixão do que beijou o primeiro namorado. Democracia é isso.

O animal da vez agora é a capivara. Virou uma espécie de Buda roedor da internet: tranquila, zen, sociável e fotogênica. Mas o homem sempre teve seus fetiches zoológicos. Os egípcios veneravam os gatos como entidades divinas; os gregos inventaram o Minotauro; e os romanos juravam que Rômulo e Remo, fundadores de Roma, foram amamentados por uma loba. Convenhamos: perto disso, carregar um pinscher no carrinho de bebê nem parece tão exótico.

Os chineses chegaram ao ponto de batizar anos inteiros com nomes de animais. Nos anos 60, Salvador Dalí passeava pelas ruas de Paris com um tamanduá-bandeira na coleira, como quem leva um poodle para tomar sorvete. Michael Jackson tinha o chimpanzé Bubbles, praticamente um assessor de confiança do rei do pop. Pelo visto, a humanidade sempre precisou de um bicho excêntrico para compensar suas próprias esquisitices.

Lembro dos anos 70, na famosa “Embaixada do Principado da Baixa do Chico” – minha casa – onde a turma se reunia na calçada para planejar arapucas e caçadas de passarinho na beira do rio Mossoró. Quando meu irmão De Assis soltou:

– Hoje quero pegar um filhote de urubu pra criar.

Todos caíram na gargalhada. Quem não achou a menor graça foi dona Geralda, nossa mãe, que imediatamente prometeu ao futuro criador de urubus uma sessão psicológica suas Havaianas. E, sinceramente, talvez, ali começou minha ranzinzice com pets.

Brito e Silva – Cartunista

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Dia Nacional do Cartunista

Em 1979, ingressei no jornal Gazeta do Oeste, em Mossoró/RN, atuando no departamento de arte e diagramação. Três meses depois, com a saída repentina de Eugênio Ramos, fui alçado à direção do setor. Como já ilustrava o segundo caderno, dedicado à arte e à literatura, passei também a assinar uma charge. À época, o jornal ainda era semanal.

Ou seja, faço isso há quase meio século. É, de fato, uma longa caminhada: por vezes serena, como quem navega em águas calmas; em outras, turbulenta; e, não raro, divertida. Lembro de um ex-prefeito de Baraúna/RN que, ao não ler corretamente meu nome na assinatura de uma charge em que era retratado, soltava: “…ainda bota biiito!” – repetindo um bordão dos Trapalhões. Nunca foi enfadonho; sempre há uma boa história para contar.

Os cartunistas, mundo afora, ajudaram e continuam ajudando – apesar do fechamento contínuo dos jornais impressos – a construir o jornalismo do seu tempo: do hoje, do agora. Essa tradição remonta a 16 de dezembro de 1831, quando Honoré Daumier publicou a célebre Gargantua, satirizando o rei Luís Filipe I como um devorador da riqueza do povo francês, obra que lhe custou seis meses de prisão e o fechamento da revista La Caricature.

Mais tarde, em 5 de maio de 1895, o jornal New York World publicou uma versão colorida de The Yellow Kid, personagem de Richard F. Outcault. Esse marco impulsionou o espaço dos cartuns e quadrinhos na imprensa, abrindo caminho para inúmeros personagens que até hoje habitam o imaginário popular.

Embora o dia 15 de abril celebre o Desenhista — em homenagem ao nascimento de Leonardo da Vinci —, é em 5 de maio que comemoramos o Dia Nacional do Cartunista. Uma data que reconhece os artistas que, com traço, humor e crítica, transformam o cotidiano em reflexão.

Portanto, hoje é o nosso dia. E seguimos — com lápis afiado e olhar atento — desenhando o mundo como ele é… ou como deveria ser. ✏️

Brito – Cartunista

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Dia do Desenhista

Neste 15 de abril, Dia do Desenhista, poderia citar vários nomes que me influenciaram. Sem dúvida, a turma de O Pasquim, como Henfil, Jaguar e Ziraldo teve grande impacto no meu caminho como cartunista.

Mas, como caricaturista, minha maior referência foi o cearense Mendez.

Foi ao ver, no livro que ele segura no desenho, uma caricatura de Milton Nascimento feita por ele que pensei: “vou aprender a desenhar caricatura” – e sigo aprendendo até hoje.

Em 2022, tive ainda a honra de ser convidado pelo jornalista Levi Jucá para participar do livro MENDEZ – Mestre da Caricatura, com uma caricatura de Mendez, em homenagem ao centenário de seu nascimento. Vivas aos desenhistas, que escrevem a história na ponta do lápis.

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Luiz Alves morreu

O tempo, de fato, é senhor de todos nós. Mais cedo ou mais tarde ele nos diz que já cumprimos nossa tarefa e que nosso quinhão foi aceito. Há pouco, em outro post dizia que não passamos por este torrão incólume, sem quitar a temporada, todos pagam uma prenda e, o tempo que já usei me diz e reafirmar isto: chegamos zerados e voltamos zerados.

Entretanto, toda regra há exceção e alguns iluminados recebem a dádiva de caminhar por este chão e ter saldo para outras muitas vidas: o “Velho” foi uma dessas almas. Há pouco meu amigo Caio Muniz me comunicou que o Luiz Alves terminou de escrever sua última linha e pôs um ponto final: Luiz Alves morreu.

No jornal Gazeta do Oeste e nas rodas dos bares da vida, com o Velho aprendi a ser mais solidário, a olhar ao meu redor com uma visão mais generosa, aprendi a dividir, lutar por um mundo melhor para todos.

Eu tenho um orgulho danado de ter vivido no seu tempo. Obrigado.

Vá em paz, amigo!