Papa Leão XIV x Trump


Outro dia publiquei uma charge com o Capitão Cagão na Papuda. Não deu cinco minutos e surgiu um bolsominion de quatro costados, relinchando, chamando-me de ignorante e “mal informado”, jurando de pés juntinhos que ex-presidente não iria para Papuda.
Discutir com bolsonarista não é coragem, é insalubridade mental. Ou tentam lhe puxar para o chiqueiro ideológico deles, ou partem direto para a agressão, verbal ou física. Fiz o mais sensato: concordei, encerrei e joguei uma pá de cal na conversa.
Hoje, ironias da História, as manchetes do país inteiro anunciam Bolsonaro – perdoem o palavrão – com novo endereço no complexo da Papuda. Um puxadinho exclusivo, apelidado carinhosamente de “papudinha”.
A charge, ao que parece, apenas se adiantou aos fatos.

Que sou um chorão de quatro costados, todo mundo – e os filhos de seu Raimundo – já sabem. Já escrevi bastante sobre isso. Ora, cá estou eu me achando: quem, em sã consciência, perde tempo com meus escritos? Mas é fato: choro até com beijo de novela. Outro dia, exercitando meu polegar no controle remoto e navegando pelo YouTube, encontrei um podcast em que um baixista comentava um vídeo de Dominguinhos lavando com lágrimas sua sentida sanfona tocando A Triste Partida, de Patativa do Assaré e Luiz Gonzaga, gravada em 1964.
Sim, eu choro mesmo. E não tenho o menor constrangimento. Alguns podem dizer que é coisa de quem já cruzou o Cabo da Boa Esperança. Ledo engano. Lá em casa já diziam que eu era emotivo, e por muito tempo acreditei que isso fosse fraqueza. Confesso: tentei segurar as lágrimas muitas vezes. Até entender que não, que era apenas humanidade.
O filósofo renascentista Michel de Montaigne valorizava a fragilidade como parte essencial da experiência humana. Para ele, o choro não era vergonha, mas expressão da nossa vulnerabilidade. Jean-Jacques Rousseau, no século XVIII, via a emoção como sinal de autenticidade: quem chora não foi endurecido pela sociedade — é uma alma ainda ligada à sua essência. Nietzsche, por sua vez, enxergava na intensidade das emoções a própria afirmação da vida. O choro, nesse sentido, poderia ser vitalidade, não só lamento, mas também força criadora.
Mas, deixando a profundidade de lado e voltando às vacas magras: tracei o roteiro até achar o filme — baixei, mas deixei para depois, já com os olhos marejados. O vento, no entanto, me levou a um concerto de Dominguinhos com Yamandu Costa. Aí não resisti: me debulhei em lágrimas.
Alguém já me disse – ou talvez tenha sido um devaneio meu, desses que cultivo com muita frequência – que “não há maneira mais fácil de falar com os deuses do que ouvindo música”.
E Schopenhauer, o filósofo alemão, diria que chorar é simplesmente reconhecer o sofrimento inevitável da vida. E então, por que choras?
Brito e Silva – Cartunista

Nossa homenagem ao grande Luiz Fernando Veríssimo que nos deixou nesta sexta-feira,29, aos 88 anos de idade. Certamente está em “Algum lugar do paraíso”.