KEOMA

Na fila do pão do Carrefour, dois senhores muito bem vestidos, de bermudas e camisetas de grife – certamente da 25 de Março, a etiqueta de uma delas estava pendura, talvez, buscando o rio Nilo – discutiam sobre a festa de Barretos. Um dizia que nossa vaquejada era melhor. Como não dou bola para nenhuma das duas – na verdade, acho-as criminosas -, me fiz de mouco, tratei de sumir dali. Fui “acordado” pela moça:

– Senhor… senhor…

– Ah, ponha dez pães franceses.

Na volta para casa, retomei a “viagem”. Minhas leitoras, as netas Aurora e Mile, respectivamente de três meses e dois anos – sabem que assisto a alguns filmes centenas de vezes. Por pura caduquice, cada vez mais acentuada.

O da vez, foi Keoma, clássico bangue-bangue espaguete, que vi pela primeira vez lá pelos anos 80. O filme tem todos os ingredientes do gênero: tiros, vingança, cavalos, vilões, mocinho que, milagrosamente, quase nunca é atingido pelos milhares de tiros em sua direção. A trama é previsível, inerente ao gênero, mas há algo que me prende, e não são apenas os olhos negros da grega Olga Karlatos.

Mas, quando Sybil & Guy começam a cantar aquela melodia, é certo, não entendo uma única palavra em inglês, exceto “hello” – que, aliás, associo à infância, quando caía e minha mãe perguntava: “Relou?” -, mas isso nunca impediu que aquela música me dissesse alguma coisa que não consigo descrever, até hoje.

A voz de Sybil & Guy abre uma picada direto para algum veio d’água escondido na minh’alma e faz meus olhos minarem. E isso acontece todas as vezes. Não importa quantas vezes eu ouça. Choro!

Certa vez li, em algum lugar, que a música é o caminho mais curto para chegar a Deus, não duvido. Se Ele existe, talvez essa seja a grande verdade da vida. Uma buzina e uma voz estridente me trazem de volta “Você morre, velho gagá”, lembrei da música “Envelhecer”.

Pensei na cena final, quando Keoma, fala a bruxa “Ele não pode morrer, porque é livre. Um homem livre não morre nunca.”

Quiçá, seja por isso que aquela música ainda me faça chorar. Creio que não há nada mais libertador, livre que música e arte. São elas que nos fazem resistir à morte.

Viva a arte. Viva a música.

Brito e Silva – Cartunista.

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