Não cancelo bolsonarista

No conto dos irmãos Grimm, “O Flautista de Hamelin”, um homem toca sua flauta e conduz os ratos para longe da cidade, livrando-a da infestação. Por estas bandas abaixo do Equador, basta soar um berrante e a manada sai em disparada, atropelando qualquer vestígio de civilidade, empestando e infectando o ar.

Alguns progressistas – poucos ainda se dizem comunistas ou socialistas, talvez pelo desgaste deliberado dessas palavras – perguntam por que não bloqueio – cancelo, nome da moda – os bolsonaristas que aparecem nas minhas redes sociais, mugindo e destilando comentários temperados de ódio. A resposta é simples: bloqueá-los não os torna menos bolsonaristas, menos agressivos e, certamente, também não os faria menos geradores ou divulgadores de fake news, nem lhes imporia qualquer dose de civilidade. Além disso, é preciso sair de frente do espelho, parar de se encantar com o próprio reflexo e, sobretudo, prezo pela liberdade de expressão dentro dos limites da lei. Logo, não usarei a mesma metodologia usual dos “durmininus”.

Se você diz democracia, eles respondem com Ustra. Se fala em Jesus, berram “Messias”. Se menciona o Brasil, aparecem de verde e amarelo, mas também enrolados na bandeira ianque. Não dialogam; apenas repetem o chamado do berrante. Há ainda os que, em tom professoral, falsificam a história com tanta convicção que, que beira a criminalidade. Entretanto, eles têm o direito de sê-lo, de fazê-lo e de dizê-lo e serem responsabilizados, como qualquer cidadão.

Por isso, não os cancelo. Talvez este seja um dos poucos lugares onde possam se exibir de corpo inteiro e completa ausência de qualquer realidade. Já conheci muitos que mugiam apenas na escuridão; agora, berram à luz do dia, sem o menor constrangimento. Uma coisa boa do bolsonarismo: desnudou aqueles que viviam sob o véu da hipocrisia.

Brito e Silva – Cartunista

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