Oxente!!!

Sempre tive uma enorme dificuldade de fazer parte de “galera”, de “turma”. Não que, na adolescência, eu não tenha participado de algumas. Participei, sim, sempre com certas restrições, mas cheguei a usar tamancos, calça cumprida sem cós e cabelos encaracolados.  Diziam que eu era metido a besta, convencido. Em bom português da época: um “bosteiro”.

O curioso é que, com o passar dos anos, em vez de melhorar, piorei. Fui ficando cada vez mais “bosteiro”. Pelos mesmos motivos. Até que um dia alguém resolveu dar um nome mais elegante ao meu defeito: seletividade. Descobri que só consigo me relacionar bem quando existe troca. Quando posso ensinar alguma coisa ou, principalmente, aprender.

Acho que envelheci cedo. Ainda menino, lia mais do que o recomendável para a minha idade. Não queria apenas ouvir música; queria entender a letra, o contexto, a história. Nunca fui muito dado a gírias nem a seguir modismos. Sempre tive um olhar mais voltado para as nossas raízes.

Talvez por isso hoje eu leve alguns sustos. Vejo essa invasão de palavras e expressões em inglês – muitas vezes mal pronunciadas, mal compreendidas e, pior, completamente desnecessárias – como se falar “meeting”, “feedback”, “call” e “deadline” concedesse direito a um diploma de modernidade. E o inevitável “brigadão”, usado com tanto entusiasmo que já deve valer ponto no campeonato nacional da cafonice e besteirada.

Eu sei que logo aparecerá alguém para dizer que a língua é viva, dinâmica e mutável. Concordo. O problema é quando ela muda por puro exibicionismo. Tem gente que acha que chamar café de coffee aumenta o QI. Nesse ritmo, qualquer dia vão chamar “meus zóvus” de my balls. Enquanto isso, deixem meu “oxente” em paz. Ele nunca precisou de legenda.

Brito e Silva – Cartunista

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