Artigo

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A cultura do peido

Ontem,27, falando com o artista plástico, poeta e músico Airton Cilon sobre arte e cultura na cidade de Mossoró, logo a seguir emendei com o amigo Gilberto Loia também sobre o mesmo tema e igualmente, nós três descambamos para dentro da internet e suas influências na formação cultura da nova geração onde o que está posto disponibilizadas nas prateleiras têm conteúdos ruins e duvidosos.

Lá para as tantas alguém falou que nos anos oitenta se ligava a tv e tinha Chico & Caetano na Globo, Perdidos na Noite – com Fausto Silva na Band. As rádios tocavam Djavan, João Gilberto, Gilberto Gil e hoje no Altas Horas se vê Bruno e Marrone, Zeca e Zequinha, Chico e Chiquinho, Caguinho e Cagão, sem falar que a melhor cantora do Brasil dos últimos tempos das últimas semanas é Anita, que canta com duas bandas, isto é, com a bunda inteira.

No país que Deus nos deu Gal Costa, Maria Betânia, Simone, Bibi Ferreira, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Beth Carvalho, Clara Nunes vêm “outros” e nos empurra Jojo Todynho, Anita, Cláudia Leite, Iza, Ludmila, sem querer fazer nenhum demérito ao que produzem – que para mim é ruim, de péssimo gosto -, se não fosse a grande mídia, internet e suas belíssimas bundas não fariam sucesso nem no banheiro, talvez no…

Certamente, vão me classificar de preconceituoso, vou logo dizendo que minha falta de massa encefálica me induz permitindo dizer estas asneiras sem nenhum remorso, pôr minha cabecinha no travesseiro e dormir feito um “anjo”. Dizem que arte e cultural é tudo aquilo produzido por um povo como forma de expressão, ora, mas nem por isto o selo de qualidade garante um bom produto, haja vista a sua origem e, hoje – como sempre, antes sem a internet – a “qualidade” desta produção cultural passa pelos youtubers, influencers (influenciadores digitais), eles são os verdadeiros Midas contemporâneos, tudo que tocam vira ouro ou merda, se os dois, estes são aclamados.

Por falar em merda, a influenciadora norte-americana Stephanie Matto está engarrafando seus peidos e vendendo pela internet, segundo a própria peidona, a produção de sua tripa gaitera já lhe rendeu R$ 284 mil em apenas uma semana. Bom quem quiser continuar comprando merda e peidos, que assim o façam, vou continuar com Chico, Caetano, Gal, Maria Betânia… E ouvindo Gilberto Loia tocando João Bosco e Airton Cilon o Raul Seixas.

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TABEFE – Brito, Laércio e Jaques

Lá por volta de 1983, Eu, Laércio Eugênio Cavalcante e Jaques Cassiano em algum bar, das noites da terra de Santa Luzia, Mossoró/RN, tivemos a ideia de criar uma revista de charges e cartuns que chamamos de TABEFE. Logo foi muito bem aceita na cidade e no mundo cultural. Naqueles tempos escuros o movimento estudantil se fazia bastante forte e era onde se encontrava eco e espaço vigoroso para lutarmos contra a ditadura. O lançamento da Tabefe foi no ACEU, numa promoção cultural do DCE/FURRN, hoje UERN. Não forço muita minha sexagenária memória a entregar lembranças de como viemos parar numa parceria com DCE da UFRN para lançarmos a revista em um evento cultural que seria realizado no Teatro Alberto Maranhão, certamente, foi através do DEC da UERN. 

Pois, muito bem. Fizemos uma “cotinha” para encher o tanque do Fiat 147 do poeta Gustavo Luz, que também vinha à capital lançar o seu livro Chuvas de Palavras, no mesmo evento. 

Saímos da boa terra com o galo cantando. Gustavo estacionou o possante na lateral esquerda do teatro por volta das 18h. Nunca havia feito uma viagem tão longa, por outro lado também nunca tinha visto na minha vida um carro tão cachaceiro, o “bicho” não podia ver uma placa de Coca-Cola na beira da estrada o motor logo “morria” e a nós só restava nos abastecermos com água que passarinho não bebe.

Teatro lotado e nós também cheios pela “tampa”, respirando álcool por todos os poros – não ficou um bar nas cercanias do Alberto Maranhão que não teve nossa honrosa presença – nos bastidores Geraldo Azevedo dava seus belos acordes de “Bicho de Sete Cabeças”, ansiosas as pessoas entoavam canções – não sei quem teve a brilhante ideia do roteiro: anunciar a gente em cima da hora do cantor, o apresentador sob as luzes diz: “Vou chamar aqui ao palco o pessoal de Mossoró que vem lançar uma revista de charges…”, na coxia já deu para se ouvir os primeiros ensaios de vaia e nós não decidíamos que iria “puxar” a fila para o centro do tablado, não sei quem me empurrou, mas quando abri os olhos estava no meio do palco, ladeado por Gustavo Luz e Laércio Eugênio Cavalcante, de microfone na mão bradei: “A revista Tabefe é um contraponto à Tio Patinhas que há mais de mil anos nos aliena”…Foi uma vaia das mais bonitas que já ecoou por aqueles lados, parecia que estavam cantando uma canção do Geraldo. Como diz aquele outro: a primeira vaia a gente nunca esquece. Porém, vendemos todas as revistas Tabefe e Gustavo vendeu seu livro Chuvas de Palavras. 

Brito e Silva – Cartunista

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Há perigo na esquina: resposta ao “jornalista” Gustavo Negreiros

Ataques e provocações caluniosas, preconceituosas e difamatórias em relação a profissionais da educação, cientistas e áreas do saber de modo geral, são recorrentes no Brasil de 2021. Os motivos, dentre os quais a onda retrógrada e negacionista que emana das principais instituições de poder eleitas em 2018, não são novidades.

Mais um episódio desses ataques ocorreu em 19 de novembro de 2021, no programa “jornal das seis” da rádio potiguar “96 FM”. Na ocasião, o “jornalista” Gustavo Negreiros dispara: “sabe quem é o segundo maior risco da educação brasileira? Não é o traficante, não. É o professor de Geografia, sabe, é o professor de ética, professor de filosofia, o professor de sociologia. Essas pessoas representam um risco às nossas crianças, e aos nossos adolescentes”.

Diante dessa situação vexaminosa, nos cabe enquanto comunidade geográfica brasileira, de um lado, repudiar veemente esse tipo de discurso racionalmente equivocado, eticamente lamentável e politicamente criminoso. Por outro lado, também cabe expressar profundo lamento pelo veículo de comunicação – uma concessão pública – que abre espaço para uma verdadeira propagação de riscos a formação o ensino e aprendizado de crianças e adolescentes, pois são justamente a presença de sujeitos como esse “jornalista” convidado entre outros propagadores de fake news que em setembro de 2019, nessa mesma rádio, classificou a ativista Greta Thunberg, uma jovem de 16 anos, como “histérica”, “mal amada” e que precisava “de um homem e de sexo”. Comentários esses carregados de estereótipos, machismo, misoginia e desrespeitos para com uma jovem mulher.

No mais, não cabe listar a folha corrida do “jornalista” para que se aponte o verdadeiro perigo para as nossas crianças, adolescentes e para a sociedade brasileira em geral. Sexualizar crianças, defender um governo inescrupuloso que sucateia e ataca a educação, e ainda comparar professores a criminosos é verdadeiramente um perigo, tanto aqueles que professam esses absurdos, como os escutam em silêncio. E não é o nosso caso.

Toda oportunidade para defender a educação e o livre pensamento, as instituições e as/os profissionais nelas envolvidas é válida e necessária. Ainda que Belchior tenha cantado em 1976 que “há perigo na esquina”, a comunidade geográfica brasileira, por sua vez, tem convicção de que nem “eles venceram” e nem o “sinal está fechado para nós”. Seguiremos na construção de uma Geografia e uma educação crítica, livre e solidária pautada na verdade e na Ciência. 

Associação dos Geógrafos Brasileiros,

22 de novembro de 2021.

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Eu vi

Sou um cidadão comum, sem muitas manias ou gostos exóticos, sou um sujeito sem graça nenhuma, sem um tiquinho de excentricidade, desprovido de esquesitices que mereçam destaque, a não ser que não gosto muito de sair do meu “banker”. Às vezes agendo um lançamento de livro de um amigo, um show, uma ida ao Riachuelo, ao Parque das Dunas, à praia…Mas um dia antes começam os sintomas: moleza no corpo, no dia aparece aquela ressaca de vodka ruim que tomei há uns 20 anos, podendo surgir febre repentina, não registrada em termômetro. Na verdade, sou um eremita urbano. Invento quase tudo para não sair de casa.

Porém, existem as boas causas que me fazem pôr o “fucin” ao vento. Ontem,20, foi uma delas. Acordei cedo, feito um passarinho urbano “desimbestei” para o Sebo Balalaika, onde tinha deixado o violão de Jade para Ramos dar “um trato”. Lá madruguei, encontrei a loja fechada sentei na soleira de onde passei a observar os transeuntes, moradores e lojistas da Rua Vigário Bartolomeu. Homens, mulheres e crianças se esguiando pelas micros-sombras das calçadas fugindo do sol.

Eram pretos, brancos, pardos, falsos índios, gays, lésbicas, hetéros, bêbados, drogados, feios, bonitos, ricos(?), pobres e miseráveis, todos fazendo parte da fauna que circunda a Casa Legislativa Estadual e o Executivo Municipal da Cidade do Sol. Todos em busca de algo: alguns atrás de livros e discos raros, outros de uma boa conversa, já outros tantos uma “talagada” de cachaça lhes descendo goela abaixo ao som de uma música brega das antigas se dariam por satisfeitos, entretanto, há aqueles que não buscam mais nada, estarem vivos já lhes basta, para alguns viver nem lhes importavam, pareciam mortos-vivos, zumbis reais perambulando de lata em lata de lixo, mas todos, sem exceção, empurram sua pedra montanha acima. Estas cenas me lembraram duas senhoras que vi outro dia no Shopping Midway, uma delas mais “enfeitada que a burrinha de Zé Garcia” a outra empurrava um carrinho de bebê com um cãozinho dentro igualmente vestido a senhora branca. 

Eu vi gente, gente de verdade. Vi gente lavando o rosto em água servida que estava empoçada na calçada de um restaurante, sair rindo e dizendo que só lhe faltava um pão, vi um casal de mendigo brigando por uma parte de papelão, vi um senhor, de uns 70 e tanto anos, gritando para outro que estava num primeiro andar:

– Ei, seu carai, onde está minha máscara?

– Está no seu queixo “véi” doido.

Quando dei por min já tinham se passado duas horas. Pronto para ir embora se aproxima um pedinte, sem camisa, corpo franzino, esquelético expondo as costelas, cabelos bastante desgrenhado e naturalmente sujo e uma bermuda rasgada me pedindo R$ 2,00:

– Por que dois reais?

– Porque se você me der um já serve.

Dei uma risada, entreguei um Real. Rindo me respondeu.

– Manjou, né?

Brito e Silva – Cartunista

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Do you love me?

Não tenho dúvidas que quem canta não só os males espanta, mas, certamente, fala diretamente com Deus. O filósofo prussiano, Friedrich Nietzsche, certa vez tatuou que “sem música a vida não faria sentido”, ouso assinar no rodapé.

Uma boa música é como um bom livro que faz você voar para novos mundos, novas paisagens, novos horizontes, para novos e velhos cheiros e aromas nos fazem rir ou chorar, pois ao passado as boas lembranças, saudades e outros sentidos são tão nítidos que os sentimentos brotam em tamanha profusão como se vulcão fosse. 

Claro, que não sou sinestésico nem poderia, pois meu vazio cérebro é tão oco quanto um sino sem badalo. Mas quando ouço algumas músicas me transporto simplesmente, e é certo que não fico no presente, às vezes me dano para o futuro o qual imagino um mundo com mais tolerância, mais justiça social mais amor, noutras horas volto ao passado nos tempos de galos e quintais, onde a inocência não padecia da malícia da vida que viria.

Há pouco estava ouvindo “Do you love me?” – Sharif Dean & Eveline D’Haese, música que também foi um sucesso danado com uma versão do Trio Esperança “Me ama?” lá por volta dos anos 70, de repente fui catapultado, me senti plenamente na confluência da Rua Augusto da Escóssia com a Afonso Pena aonde passei a perambular em meio a um aglomerado de pessoas andando de um lado para outro, outras em grupos reunidas conversando e rindo, ainda outros jovens fazendo medo para um casal na fila da Roda Gigante, vi um vendedor de picolé – não era meu pai – fazendo seu marketing gritava feito louco “quem comprar dois leva três” e “menina bonita não paga, mas também não leva”.

Nos quatro alto-falantes, um em cada direção dos pontos cardeais, no alto de um poste fincado bem no meio do parque uma voz parecendo sair de uma caverna anunciava “Essa música vai para o brotinho de saia azul, blusa branca de lenço rosa no cabelo, oferecida pelo rapaz de camisa cacharréu azul clara, calça branca e tamancos que está fumando cigarro Hollyood ao lado do Carrossel”: Do you love me? I love you, more than words can say… …“Menino seu café gelou”, era Maria me trazendo à terra. 

Brito e Silva – Cartunista

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Queijo coalho

Não sei dizer com precisão britânica, mas dona Maria Emília, diretora do jornal Gazeta do Oeste, viajava sempre para Fortaleza, onde estudavam seus filhos Isadora e Tito. Numa sexta-feira depois “inspecionarmos”, nos empanturrarmos com “Mão-de-Vaca” e algumas dezenas de “burrinhos”, lá no Ponto Frio de Dona Luzia, fomos convidados a “pegar o beco” sob a frase “vão embora, vou fechar”, saímos na direção do Kikão, logo também sendo expulsos por Osório, traçamos roteiro com destino certeiro ao Sujeito, para “lavar”, como justificavam uns e seguidos por outros afirmando positivamente “muito justo”. Aquelas altas horas não restava quase ninguém, mas ainda assim, fomos obrigados assinar o “ponto”, penduramos mais uma conta no “prego”.

Revendo cada um a sua agenda e ensaiando uma boa desculpa para justificar a hora de chegar em casa, atravessamos a rua e fomos ao jornal. Todos para cozinha tomar um cafezinho, ver se o jornal já estava impresso para depois à dispersão. Alguém abriu a geladeira vendo uns três quilos de queijo coalho, não se fazendo de rogado retirou-o e pôs sobre a mesinha a iguaria de Caicó e desafiou:

– Quem tem coragem de desembrulhar? 

Nestes casos nunca falta um afoite, e este, respondeu a altura, logo outro disse:

– Se me derem uma faca eu fatio em pedacinhos iguais.

Instantaneamente todas as facas do faqueiro de Dona Neide – era quem cuidava do nosso cafezinho de cada dia – estavam expostas a mesa. Nisto um corajoso cortou se deliciou com um bem postado naco anunciou “como está gostoso esse queijo”. Foi o mote para todos caírem sobre o pobre queijo, como Aquiles sobre seus inimigos, em poucos segundos só restavam o cheiro e pedaços de papel de embrulho com algumas manchas da gordura e uns cordões de barbantes que faziam parte do lacre, denunciavam que ali jaz um queijo.

No sábado lá por volta de meio-dia, com o pé na soleira do jornal Milza estava a posto avisando a todos na chegada, que Maria Emília, lá de Fortaleza, acionará a Scotland Yard e já estava de posse da lista completinha com as digitais dos esfomeados “ratos”. É sabido que Dona Maria não brincava em serviço, logo autorizou Mazé – Maria José financeiro do jornal – dividir em pequenos quinhões que seriam, e foram, descontados todos os meses no contracheque de cada um dos beberrões. Sei que pagou quem comeu e quem não comeu. Porém, dizem as más línguas, quem passou naquela sexta-feira pela Gazeta pagou o pato, quer dizer; o queijo. Segundo Inácio Pé-de-Quenga, até Thurbay que estava de férias em Cancún (Tibau para os íntimos), recebeu o boleto através de uma factoring.

Brito e Silva – Cartunista

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Meus mortos vivem comigo

Não vou a cemitério para cultuar meus mortos, não impedido por qualquer crença religiosa ou por superstição, mas por não ver, de fato, qualquer razão mais urgente. Porém aos que fazem têm o meu respeito.

Meus mortos, minhas almas boas parecem viver em mim. Em 62 anos de vida a morte não me poupou de tirar algumas pessoas importantes: aos 9 anos minha mãe subiu aos céus – pois creio que toda mãe vira estrela e a noite no céu sorrir para seus filhos – depois minha ex-mulher Isi, anos depois Carlinhos meu irmão caçula e mais recente a morte carregou seu Luiz, meu pai, feito um pacote no seu manto me deixando órfão.

Entretanto, pouco choro meus mortos e, verdadeiramente sinto muitas poucas saudades. De minha mãe tenho resquícios de sua presença em minha mente, talvez, o instinto de sobrevivência apagou os poucos anos de convivência. De Isi minha ex-mulher todos ou quase todos os dias desfruto de lembranças vivas cristalizadas nas músicas que toco e ouço no meu dia a dia, principalmente na música “Andança”; de meu irmão Carlinhos, The Wall – Pink Floyd – o traz até mim, de meu velho pai, certamente, todo dia toco Boiadeiro – Luiz Gonzaga – música que sempre me perguntava se eu sabia tocar – e eu não tive oportunidade de tocar pra ele – portanto, meus mortos vivem comigo e em mim.

Entretanto, há outras almas, que circundam minhas lembranças, como a de minha sogra Nevolanda e seu cafezinho nas tardes lá nas Quintas, também de Mariazinha  – sua mãe -, a qual, lá na cozinha de Petrópolis, Natal/RN, passava horas me contando suas histórias de vida e aventuras reais, isto sim me dá saudades, mas certamente, um dia me juntarei a essas almas de luz.

Brito e Silva – Cartunista

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Eu morava na estante

Na minha casa, na rua Augusto da Escócia, N. 49, lá nos Paredões, em Mossoró/RN, o qual finquei a minha infância e adolescência, quando se chegava na porta da frente, logo do lado esquerdo um console – hoje, se diz aparador – e acima dele um espelho oval bisotado com vários desenhos em arabescos, nos davam as boas-vindas, do lado direito uma Radiola de pé ABC Isabela IV, duas cadeiras de balanço as quais tínhamos que driblá-las para chegar a uma estante colonial que pomposamente se erguia separando a sala da cozinha, nela uma inquilina privilegiada e por todos amada, lhe roubava a cena: uma Televisão Telefunken em preto branco, com uma tela colorida – que mais parecia o arco-íris, que insistia em nos enganar simulando que às imagens por ela propaladas eram coloridas.

Neste cenário sobre a estante de cor nogueira, se destacavam vários livros, entre eles os Irmãos Karamazov – Dostoiévski -, em cor marrom com letras vermelhas-vinho, três livros de capas-duras, os quais lia e não entendia patavina – até hoje sou impedido por minha obtusa ignorância a oferecer um parecer sobre -. Em espaço exclusivo um livro saltava aos olhos, em formato grande, talvez um A4 – ofício para os mais antigos -, de capa dura, azul com letras romanas douradas dizia: Bíblia da Juventude, eu era fascinado, nela imprimi minhas digitais e de onde pude extrair um gosto de lutar por um mundo melhor, com mais compaixão, mais dignidade, mais igualdade. Na parte direita inferior da estante alguns locatários faziam morada, muitos deles ainda vivem em minha memória. Vejo nitidamente Francisco José cantar “Só nós dois” sendo interrompido por Ângela Maria com seu “Tango Pra Tereza”, sem falar de Vinicius de Moraes que faz seu “Apelo” e Moacir Franco flertando com os manequins em “Balada Para Um Louco”…

No lado esquerdo inferior se abancavam as revistas Cruzeiro, Manchete, Rodovia e algumas Veja. Nossa estante era uma mistura de vozes, umas cantavam alto ao divino, outras, talvez, ao diabo e ainda outras sussurravam profanamente aos ouvidos dos amantes. Às vezes me passava pela cabeça que eu morava por lá, fazia parte do mundo daquela gente, na verdade ainda hoje me imagino perambulando por aqueles cantos, contos, palcos e esquinas insinuando companhia e intimidade à todas aquelas personagens que ali residiam. 

Brito e Silva – Cartunista

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Elza Soares e o carroceiro

Existem algumas coisas que podem nos constranger no dia a dia, mas de fato, não alteram nosso humor, são apenas momentos que passam sem maiores ou nenhum dano moral e muito menos psicológico. Entretanto, quando vejo alguém me estendendo à mão pedindo algo para saciar a sua fome, isto me causa uma dor, uma angustia profundamente dilacerante no fundo da minh’alma e neste momento faço o que me é permitido: às vezes pode até ser uma negativa, o que me deixa ainda mais pesaroso.

Outro dia, logo pela manhã, ao acaso deparei-me com Luiz Gonzaga na primeira página de abertura do Youtube, de cara vi Vozes da Seca apertei o play e Seu Lua cantou: “…Uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão…” música do grande Zé Dantas e o Luiz Gonzaga, que em toda sua extensão é uma crítica feroz aos governos que trataram – e tratam, pois, continua atual – o Nordeste e o povo que vivem em situação de risco. Fiz algumas reflexões, anotações e alguns rabiscos.

Sai à minha janela para me debruçar sobre sua soleira para ver o mundo, o céu estava azul convida a contemplá-lo, corria uma brisa vindo ali dos arredores do Arena das Dunas, compenetrado em minha abstração, em devaneios mil, fui acordado por um “muito obrigado, senhora”, era um carroceiro de uns 35 anos acompanhado de uma senhora grávida que beirava a mesma idade, dois meninos por volta dos 5 anos – pareciam gêmeos – amontoados numa carroça um jumento amarado a grade lateral do transporte, que agradecia minha vizinha de frente por receber um vestido e algumas camisas às crianças, que já vestiam ali mesmo, se despedindo vocalizou “Deus lhe pague”. A mulher entrou e eles seguiram, fiquei observando e uns metros depois vi o homem passar as mãos nos olhos como quem enxuga lágrimas e correu de encontro a um dos meninos o pôs sobre os ombros e saiu correndo fazendo “aviãozinho” como se fora o judeu Guido (Roberto Benigni) e seu filho Giosué(Giorgio Cantarini) na cena do magistral “A vida é bela”, devo confessar que desabei, um nó na garganta e algumas lágrimas verteram me trazendo à realidade, naquele instante pude perceber que a vida pode ser bela, mas o homem é invariavelmente cruel.

À tarde, ainda com a cena vivinha em minha mente fui às redes sociais cuidar dos afazeres profissionais, entretanto, uma foto de uma plasticidade admirável obrigou-me ao encantamento, era um post da Assistente Social, Katharina Gurgel, com um texto comovente em que a cantora Elza Soares fazia uma síntese de vida, no qual ao final imprimia toda sua força, sua coragem, sua luta, sua consciência, sua lucidez ante a vida e seus desafios: “Naquela época eu achava que se tivesse alimentos pros meus filhos, não teria mais fome. O tempo passou e eu continuei com fome, fome de cultura, de dignidade, de educação, de igualdade e muito mais, percebo que a fome só muda de cara, mas não tem fim”. 

À noite, Elza Soares e o carroceiro foram os temas da janta. Dormi com a alma cansada e o coração apertado com sede e muita fome de justiça social, dignidade e bênçãos dos deuses.

Brito e Silva – Cartunista

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Procura-se

Escritor Abraão Gustavo 

            Nunca imaginei que anunciaria, no jornal, na Tv, nos meios de comunicação, a busca incessante por você. Faço isso porque você tem carinho pelo meu estilo, pelo meu rosto. Quantas e quantas vezes ele me fez enxergar a vida de uma maneira diferente. Clareou minha visão, me fez enxergar os tropeços que a vida me apresentava; na chuva, como qualquer outro, você me ferra; no trabalho, você me ganha; de noite, eu te deixo; mas pela manhã, somos inseparáveis. Você já impediu minha cegueira muitas vezes, meu amor. Com você pude enxergar as miudezas da vida. Sem você sou apenas um cego, em um tiroteio, sem rumo. Na falta da sua presença o prejuízo é grande, com antirreflexos, ou filtros azuis, você faz meu dia mais feliz. Compreendo que, como todos, você precisa de limpeza e manutenção, nada na vida dura para sempre, eu sei. Mas não tem necessidade de você desaparecer assim, sem mais nem menos. Sei que o mundo é líquido, mas você não ficou nem dois meses na minha vida é já desapareceu sem justificativa. A última vez que nos vimos parecia que você tinha gostado de mim. Foi por um leve descuido que você sumiu sem avisar. Não sei se você já tem alguém. Ou se já está acariciando o rosto de um ou uma qualquer. Mas volte, prometo ter mais cuidado com você, prometo prestar atenção nos sinais que você dá. Venho agora falar com meu amigo leitor. Ele é redondinho, tem armação de tigre, bem moderna, a última vez que tirei a foto em família ele estava lá. Se alguém souber o paradeiro, por favor, entrar em contato, já procurei nos achados e perdidos, nas gavetas de casa, nos armários, em cima da mesa, na casa de amigos, já liguei para motoristas de aplicativo atrás dele, já refiz meu caminho para tentar achá-lo. Só penso uma coisa:        

Quem está com ele, que devolva o mais rápido possível: meu par de óculos de grau.

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Laércio Eugênio o “pagão”

Outro dia, numa postagem que fiz nas redes sociais, uma assídua amiga comentou que eu acordara saudosista. Aquilo me calou, não por ter me sentido ofendido ou algo que o valha, mas por conter a verdade nua e crua.

Naquela ocasião estava mesmo com uma saudade caninana, daquelas que a gente fica feliz da vida em sentir, mais feliz que pinto cisqueiro de reviver aqueles momentos que agora fazem parte de nosso baú de boas lembranças dos tempos de galos, noites e quintais, época de boemia jovialmente e despretensiosamente irresponsável.

Do alforje puxei umas cenas, entre milhares, uma quando eu Carlinhos, Jorge Braz, Laércio Eugênio, Hudson – certamente esqueci outros tantos, pois era uma corriola danada – íamos para o Djalma Bar, ainda lá nas cajaranas, creio que na sua casa, numa ruazinha, perto do Colégio Estadual, tomar cachaça com coração assado ouvindo Raimundo Fagner, Manera Fru Fru Manera, pois era o preferido de Jorge e que abria os “trabalhos”, claro Zé Ramalho presente no cardápio, depois de algumas dezenas de “burrinhos” discutíamos a política sindical, partidária e social, muitas das vezes varávamos madrugadas a dentro pra pegar o sol com a mão.

Também me veio à tona uma história de convite que chegou para inauguração de uma boate por detrás da Escola Padre Deon, no Alto de São Manoel. Numa sexta-feira alguém na redação do jornal Gazeta do Oeste diz do convite da Boate Estrela, este invadiu todo o prédio, logo começou as combinações: quem fosse terminado seus afazeres ia esperando os outros até estar completa a turma. Conferido, não faltando ninguém lá se foi o magote para “boiti”- Como dizia o saudoso Abel Rodrigues – In memoriam – o fotolitista do jornal -. Uma sexta-feira, no meio do mês já dizia do lastimável e precário momento em que se encontrava nossos “probrezitos” bolsos. Mas ora, quem anda com carteira de jornalista não passa “perrengues”. A solução foi “carteirada”, não lembro quem – se foi eu, também não digo -, um de nós iniciou a fila indiana na portaria:

– Isso é o quê? Perguntou o sisudo porteiro.

– Imprensa!!!

O porteiro espalmou uma mão com a carteira colocando a outra por cima pressionou, devolvendo falou: “pronto! Imprensei”, não se dando por rogado nosso “líder” argumentou:

– Somos da imprensa e convidados…

– Aqui até mamãe paga, imagine convidados da imprensa. Disse o porteiro com tom irônico.

Sem mais a quem ou a que apelar para “filar” passe-livre, nos reunimos para uma “vaquinha”, feita, nos dirigimos à bilheteria.

Já dentro boate as luzes negras fluorescentes denunciavam os casais nos cantos aos amassos, sarrando, mesas lotadas de gente e cervejas, dancing repleto de imagens se mexendo ao ritmo dos hits do momento e nós ali sem a menor esperança de um gole de coragem para entrar no relabucho. 

Salvos por Laércio Eugênio que chamou o garçom e disse para encangar várias mesas uma na outra, logo estávamos todos acomodados, de esperanças renovadas e, por que não dizer, concretizadas, pois ao mesmo tempo nosso “benfeitor” tinha também indagado se havia cerveja gelada, ao receber resposta positiva, falou: “pois, bote cerveja gelada aqui como quem bota milho pra jumento”, os olhos de alguns de nós saíram da caixa. 

Bebericando, comendo e dançando quando demos por nós o sol já descambava no horizonte, só tinha a gente e um monte de garçons prestando conta. Logo veio um em nossa direção, aqui senhor, Laércio Eugênio recebe a conta, retira do bolso uma quantia e entrega ao garçom:

– Senhor está faltando…

– Eu sei, mas tenho só isso…

– Como é?

– Eu não tenho mais dinheiro não…

– Mas foi você que disse que ia pagar a conta.

– Mas eu estou pagando!

– Não senhor, aqui não tem nem meus dez por cento…

– Mas é o que tenho, depois pago o resto.

O antes gentil garçom, saiu soltando fogo pelas ventas para falar com o dono. Olhando em volta já percebíamos garçons, seguranças, porteiros, cozinheiros, se dirigindo em nossa direção todos com caras de poucos amigos, quando de repente chega Abel – que trabalhava com a gente e também era garçom – dizendo que já tinha falando com o dono, estava todo certo, na segunda-feira ele iria no jornal receber nossa conta com juros e correções monetárias.

Brito e Silva – Cartunista

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Música para meus ouvidos

“Sem música a vida não faria sentido” – Nietzsche. Sentença com a qual estou plenamente alinhado. A música é um dos meus combustíveis, é minha armadura, para batalhas e pendengas diárias.

Lembro quando trabalhávamos no jornal Gazeta do Oeste, sobre nossa mesa nos acompanhando, residia um aparelho de som em que passava dias e noites nos prestando seu serviço fim. Na verdade, era uma mesa bem longa onde acomodava eu e Maria. Duas pranchetas também compunham a sala, as quais fazíamos rodízios com prioridade para quem fosse ou estivesse desenhando. 

Na sala de arte e diagramação éramos três: eu, Maria e Lins – um amigo de infância lá dos Paredões que por ser um fino desenhista levei para trabalhar comigo na Gazeta, infelizmente não está mais conosco, subiu aos céus – pois bem, por vezes a gente gravava uma fita cassete, os dois lados, somente com uma música e ouvíamos por semanas, isto irritou Lins, que foi reclamar com Canindé Queiroz: 

– Canindé não tem quem aguente aqueles dois. Eles passam o dia ouvindo música e pior: é somente uma música!

Canindé em sua irreverência respondeu: Mas você não é surdo? 

Nesta pandemia, senti muita falta dos filhos e netos reunidos e eu gastando meu vasto repertório de três músicas, tendo como uma efusiva claque dos meus fiéis netos. Devidamente furado duas vezes com AstraZeneca, álcool em gel e máscara já estou recebendo meus filhos e netos. Lívia, minha neta caçula, quando me viu com o violão pegou um pedaço pau, que a avó iria usar num artesanato, postou-se como se fosse um violão e começou a cantar junto comigo, quando eu parava, ela insistia “canta vovô bito”. Agora, de violão em punho fazemos dupla, afinal, ouvir “vovô” é música para meus ouvidos e abranda meu coração.

Brito e Silva – Cartunista

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O dia que encontrei com Stanislaw Ponte Preta

Escritor Abraão Gustavo

Esses dias, me encontrei com Stanislaw Ponte Preta. O cronista? Não. O Uber mesmo. Não sei o que deu no pai desse homem para colocar o nome do filho de um cronista. A crônica, por muitos, é considerada um gênero menor da literatura. Mas, pelo pai desse motorista, a crônica era o que havia de primeiro.

– Nada de menor, vai ser o nome do meu filho!

– Sergio Porto! Não! Tem que ser nome de artista, para o pessoal botar uma fé. Concluiu o motorista. 

– Patrão, já ouviu a história da velha contrabandista? 

– Aquilo é Brasil, patrão! 

– Enquanto os policiais esquentam com a areia que a velha carrega, vai passando a lambreta desapercebida.

Eu pensei comigo: não é que o homem conhece mesmo a história do cronista e seus escritos? Fico pensando: será que, quando eu morrer, minhas crônicas serão comentadas em botecos? Algum Uber vai ter meu nome e conhecer minhas obras? Ou taxista vai perguntar:

– Para onde vamos?

         E alguém vai responder:

– Para rua Abraão Gustavo. 

Ou alguém em transportes públicos, na fila do dentista, na sala de espera de um hospital, lendo esta crônica, com um sorriso no canto da boca? 

Bom, para não ter erro, vou fazer meninos e colocar os nomes dos cronistas que eu admiro. Gostei dessa ideia, já imaginou?

– Bilac, vai ajudar sua irmã, Clarice, a vestir a roupa para ir à escola. 

– Pô, Drummond, já falei para você parar com história de pedra no meio do caminho, seus colegas não entendem você, meu amor. Nem todos estão a fim de ingressar nessa viagem. 

– Braguinha, como foi o futebol na escola? 

– Veríssimo, fez gol? Teu negócio é música, né? Pede ajuda do Vinicius.

– Sabino, desce daí. Você vai cair, cara! 

– Amor, o Prata não tomou banho ainda. Disse que o Chico já está no banheiro há meia hora.

– Lygia, vamos com papai na padaria, filha?

– Arnaldo, hoje o cinema está fechado, filho. 

– Manoel, concordo com você. Ficar muito tempo no celular faz mal. 

– Paulo, seu nome é lindo, cara. Mendes Campos. Olha só que natureza! 

Na volta para casa, fui deixado por um outro motorista enquanto pensava. O nome dele? Adivinha? Descartes. Fico pensando se essa moda pega em larga escala.

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Uber e parque de diversões

Escritor Abraão Gustavo

Esses dias eu precisei ir ao médico e peguei um Uber que me fez lembrar a infância. Nos tempos que ia a parquinhos de diversões de bairro. Nada contra os grandes parques, como Hopi Hari ou Playcenter, mas os de bairro são mais vagabundos e divertidos. Por exemplo, a Barca, para quem não sabe, é um dos brinquedos mais divertidos de um parque de diversão, não somente pela adrenalina do brinquedo em si, mas pela sensação de estar em um brinquedo enferrujado, que tem sempre um nome em inglês abrasileirado: Flying Dutchman, mais conhecido como Holandês voador, que nunca ouviu a palavra “manutenção” desde o início de sua existência. Geralmente, é controlado por alguém que aparenta ser um ex-presidiário, em regime semiaberto, com tatuagens de cadeia à mostra, com cicatriz no rosto, provavelmente tem pouca coisa na vida a perder e gosta do perigo. E quanto mais escuta gritos de pessoas, mais ele faz o barco voar. 

Sempre desconfio de pessoas que dirigem um Classic branco e perguntam: – Está com pressa? É com emoção ou sem emoção, meu patrão?

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Grandes ideias foram escritas de calcinha e cueca

Escrito por Abraão Gustavo

Fico pensando que as grandes ideias foram escritas de calcinha e cueca, e imagino Karl Marx escrevendo o livro “O capital” de cuecas vermelhas desbotadas e uma barba imensa, branca e preta, com seu charuto barato, cheio de meninos correndo pela casa gritando e brigando: – é meu, é meu, e ele pensando: – maldito capital! Imagino Dostoievski andando nu, de um lado para o outro, e dizendo para sua datilógrafa: – coloque o título “Humilhados e ferrados”. – Não! Enquanto olha para baixo: – Humilhados e ofendidos. – Um bom título! Fico pensando Clarice Lispector, entre cigarros e cafés pela manhã, de calcinha velha e branca meio amarelada, sem sutiã, em sua casa sentada, em banco de madeira com uma mesa improvisada, batendo em sua máquina de escrever rapidamente, entre um cigarro e outro, olhando para o céu, revisando seu texto e pensando no título “A hora da estrela”. Imagino Freud com uma cueca cetim azul de tiozão e um charutão mole na boca, colocando o título que viria ser “O mal-estar da civilização”. Imagino Beethoven, sobre composições e papéis, com seu cabelo bagunçado e sua cara de louco, de cueca reluzente, dourada, sua barriguinha saliente, compondo sua sinfonia em Dó menor Op. Nº 5, dita a sinfonia do destino, viajando sozinho em seu quarto gelado sobre a neve europeia. Penso em Agatha Christie, em um quarto de hotel, com sua calçola de Odete, finalizando em sua máquina de escrever “O Assassinato no expresso do Oriente”. Imagino grandes oradores das histórias, como Winston Churchill, com sua cueca branca GG, sua pança de urso e seu rosto sisudo de bolacha, em um quarto luxuoso britânico, tomando um whisky e ensaiando na frente do espelho sua retórica que faria milhões de soldados se motivarem a lutar pelo seu país. Me desculpe por escrever esta crônica de pijama do Mickey; é que coloquei na máquina para lavar todas as cuecas.