Artigo

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Freud que explique

Não há dúvidas quando falamos de alguém bem ou mal, por mais que minúsculo seja um comentário, uma simples opinião ou mesmo uma robusta tese feita sob os melhores e mais rigorosos métodos tecnológicos disponíveis, ainda assim não seremos justo o suficiente para, de fato, sem ter medo de errar e mostrar uma descrição capaz de vestir a figura e se o fizer, na verdade, esta será apenas uma embalagem e talvez, uma fina e frágil camada que a qualquer momento pode se romper e vir à tona, emergir o real sudário, a verdadeira essência nua e crua.

Na noite do dia 4 de setembro, lá por voltas das 20h, recebi uma ligação no WhatsApp dizendo: aqui é fulano, posso fazer uma ligação de vídeo, quero ver você, Socorro e mostrar para vocês meus netos e minha bela Sônia – nome fictício -” de pronto, disse que sim. 

O reconheci pela voz, apesar de anos sem nos vermos. Ele é um amigo de mais de trinta anos, que nos conhecemos em Mossoró e que foi morar no Rio de Janeiro, agora, já aposentado veio residir em Natal, me encontrou através do meu site e redes sociais.

– Boa noite, amigo. Quanto tempo? 

– Isso mesmo, amigo faz um bom tempo.

– Como vai você? Parece que o tempo não passa para você, amigo.

– Amigo, sua generosidade continua a mesma, mas o tempo é cruel com todos nós.

Falamos de nossas jornadas profissionais, dos tempos, de Luzia do Ponto Frio, do Bar de Djalma, quando ali perto do Colégio Estadual – hoje Jerônimo Rosado – onde por milhares de vezes com algumas várias meiotas de Pitú, devidamente acompanhada de coração assado, víamos o sol nascer. Ah! Também trocamos “figurinhas” sobre doenças como faz qualquer sexagenário que encontra outro, falamos dos níveis de açúcar no sangue, pressão alta e por coincidência ele também foi acometido de um AVC. Enfim, passamos reciprocamente todos os nomes de remédios que hoje tomamos no lugar dos longínquos “burrinhos”.

Maria e Sônia já impacientes, entraram na conversa falaram, falaram, também não muito distantes de nossos assuntos. Fotos de netos prá cá, foto de netos prá lá, foram mais de léguas de papo e boas lembranças e muitas risadas. Já marcamos uma sentada, agora, com um copo de vinho para cada, sob a supervisão da “tropa de choque”: os netos.

Em nosso bom papo, além de se dizer fã dos meus trabalhos e de como meus desenhos são pertinentes, mostrou-me várias caricaturas como Wallpaper do seu celular, dos meus textos, falou que morria de rir e ficava sempre esperando o próximo, entretanto, lá para tantas, veio o “mas” – quando se diz “mas”… Sei não… -“em seus artigos você fala sempre na primeira pessoa, você fala sempre de você”:

– Ora, quem conhece eu melhor do que eu? Indaguei. 

Riamos e morreu por aí o assunto, pulamos para nosso Botafogo. Tenho gosto por uma frase que muitos põem na conta de Sócrates “conhece-te a ti mesmo”. Por certo, quando esta foi posta seria e, é muito mais elástica do que parece ou quer dizer nossa vã filosofia. Entretanto, ainda na superfície, para escrever com verdade escrevo sobre minhas experiências e vivências, assim não corro o risco de me desviar da verdade. Ainda assim, alguns podem não me reconhecer, afinal, não sou apenas um, mas um universo e, certamente, sou um cada escrito. Vivas aos “eus” em todos nós. Freud que explique!

Brito e Silva – Cartunista

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Keoma

No Conversa com Bial, Maria Betânia disse que gostava de assistir filmes de bang bang americano para despairecer. Lembrei-me que tinha Keoma em algum lugar perdido na estante fazendo companhia ao Último dos Moicanos, programei para vê-lo no outro dia, no sábado.

Não me pergunte o enredo, não sei, – Tenho um problema com filmes: no dia seguinte não lembro de nada, algumas vezes aparecem uns flashs, uns takes e só. Mas, tenho Maria que além de tudo, é minha memória para filmes -.

Sem dizer, se o filme tiver uma boa trilha sonora, aí lascou-se: embarco nela e pouco sei do resto. Keoma é um destes que assisto milhares de vezes e ainda não sei sua história do começo ao fim. Enquanto, Franco Nero mata bandidos só tenho ouvidos para música tema, diga-se de passagem, é sensacional.

O outro que ainda vou saber sua história tim-tim por tim-tim, quando assisti-lo com o dedo no botão de mudo, é o Último dos Moicanos. 

Pois muito bem, assisti Keoma – Maria disse que tinha no Youtube -, lá fui ver, terminado entrou outro filme automaticamente, na mesma vibe, isto é, de faroeste. Neste que já esqueci o nome, o mocinho, Anthony Stephen, é acusado por um crime que não cometeu, – coisa que não acontece em filmes de Western -, fugiu da cidade à procura do verdadeiro bandido. Em sua busca para provar sua inocência matou 1100 pessoas, deu 17 mil tiros, não foi de fuzil, mas com um só revólver 45, sem trocar o tambor uma única vez, no final trouxe o criminoso, que foi enforcado ao pôr do sol e terminou sendo nomeado o Xerife da city. Esse enredo tem alguma semelhança com o sujeitinho que provocou a morte de mais de 300 mil brasileiros – segundo especialistas – para provar que um remédio para matar lombriga, mataria o coronavírus. 

Ah, para não parecer mais retardado do que sou, lembro de uma cena do Último dos Moicanos, quando um índio corre subindo uma montanha atrás de outro indígena que havia matado seu filho, mas aí é fácil lembrar, a cena toda é acompanha da trilha sonora: Espetacular, a cena e a música.

Brito e Silva – cartunista

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Emanuel Amaral

Ontem(21), por lembrança do amigo Damata Costa, postei uma caricatura de Emanuel Amaral, um dos grandes cartunistas potiguar de primeira linha, o qual tive pouco convivência, mas o suficiente para admirá-lo.

Quando cheguei em Rio Branco/AC, no final dos anos 80, para dirigir o departamento de Arte e Cenografia do Jornal e Tv Rio Branco, se falava muito, a boca miúda, do atentado ao jornal “Folha do Acre”, onde Emanuel publicava suas ácidas assertivas charges, as quais o fizeram cair em desgraças com o poder dominante da época, que culminou em um atentado a bomba ao jornal. Emanuel saiu às pressas de Rio Branco/AC, sendo preso em Fortaleza por tráfico de cocaína. Em sua bagagem fora encontrada uma certa quantidade de cocaína, a qual ele atribuiu aos seus desafetos políticos acreanos. Cumpriu pena, mas morreu negando ser sua a droga, no que acredito. Todos sabem do que são ou eram capazes políticos ainda com resquícios ditatoriais. O fato é que este acontecimento trágico em nada manchou sua história de vida e profissional. Fico certo, que seus familiares, amigos e todos que o conheceram jamais deram crédito a sua culpabilidade e, sim, o veredito de todos foi por sua inocência.

Conheci o Emanuel no início dos anos 80, quando vim para Natal trabalhar na gráfica RN Econômico e na Cooperativa dos Jornalistas de Natal, entretanto, o encontrava esporadicamente, sem muita intimidade.Nesta época conheci outros artistas do traço como Falves Silva, Mauricio Oliveira, Cláudio Oliveira, Edmar…Mas, vindo do interior e, como sou bicho do mato, pouco afeito a amizades à primeira vista tive pouco contatos com estes, exceto Mauricio, com o qual íamos juntos para Tv Universitária – se não em engano ele já funcionário, eu de penetra, somente para desenhar – , quando era ali na Avenida Rio Branco, o qual o reencontrei agora no Facebook. Mauricio, estou esperando a pandemia passar para ir aí tomar um café com você.

Nos anos 2000, não lembro bem o ano, já morando em aqui na Cidade do Sol, o filho de Emanuel passou na minha casa, lá em Petrópolis e, ficou de promover um encontro, – certamente, tínhamos muitas histórias acreanas para contar e trocar – sabe-se lá porque o destino interviu para não acontecer.

Há uns três anos projetei fazer um jornal impresso, somente com cartunistas potiguares – gorou por falta de cartunistas e talvez por falta de mais empenho meu, também nesse meio-tempo fui acometido de uma AVC – e combinei com Ramos, do Balalaika, irmos até a casa dele, foi mais um encontro frustrado, desta feita para sempre: a morte veio e o carregou feito um pacote no seu manto. 

De toda forma e, certamente, Ramos ainda irá promover a exposição.A caricatura permanece a disposição de Severino, para a homenagem ao grande cartunista Emanuel Amaral.

Brito e Silva – Cartunista

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Obrigado, seu Luís!

A última foto que tirei com meu pai

Neste domingo, Dia dos Pais, é o primeiro que vou passar sem Seu Luís entre nós, há pouco mais de um mês, no dia 29 de junho, Deus o carregou enrolado em seu manto. Ficamos órfãos: Eu, De Assis, Elian, Eliana, Márcia, Cristina e Eliene e Alexandre (neto criado por ele).

Vejo muitas pessoas estufarem o peito dizendo: “Isso é besteira esse negócio de Dias dos Pais, todo dia é dia dos pais”, em alguma medida têm razão. Porém, o “Dia dos Pais” não pede nem obriga ninguém a negligenciar os outros 364 dias do ano, se partirmos deste princípio, os aniversários, natais, fins de ano, aqueles almoços de domingos, logo todas estas datas são besteiras bestas.

Ora, quando vejo alguém assim pensar e dizer, fico com uma pena danada desta pobre alma que não sabe o que é fazer outra pessoa feliz, não tem o prazer de reconhecer, e também ficar feliz, um sorriso verdadeiro que apenas os olhos podem mostrar. E sei o que estou dizendo.

Seu Luís não era muito de afagos explícitos: abraços, beijos, declarações, mas apenas uma “bença pai ou bença vô” era possível ver seus olhos brilharem de alegria. Em meus 62 anos nunca o vi chorar, exceto no dia em que meu irmão mais novo, Carlinhos, foi morar com Deus. 

Meu velho pai em sua vida não amealhou fortuna, morreu pobre como a maioria do povo brasileiro, dizia ele “dinheiro é bom, mas não é tudo”, também não possuía estudo, na verdade, mal sabia assinar seu nome, entretanto, continha uma grande visão da vida, de mundo, uma sabedoria nata. Sempre dizia “é, sim. Basta ter respeito por tudo e por todos, sem nunca baixar a cabeça”. Depois de tempos foi que percebi a profundidade de suas palavras, no RESPEITO está cristalizado o amor, honra, honestidade, humildade, ética, verdade, todos valores caros para que se possa ter uma vida sem magoas, sem rancores, sem vinganças, sem desamores. Meu pai era sábio, era leve. 

Em seu velório alguém me disse no ouvido que o senhor falava constantemente: “meu filho no dia 20 de julho, dia do aniversário dele, vai tomar a 2ª dose da vacina e vem me ver”, não deu tempo meu pai. Imagine o senhor, naquele clima, você ouvir isto. Essa frase ecoou e doeu profundamente na alma, as águas que jorraram dos meus olhos encheria o açude de Baixa do Chico. Entretanto, logo percebi, que certamente, não era isto que o senhor esperava de mim: toda aquela tristeza. Pois sei, que pai nenhum deseja ver o filho triste, pelo contrário, faz qualquer coisa para vê-lo feliz. Então tratei de guardá-la no fundo de minha alma como declaração de amor e carinho.

Lamento, o senhor sabe que não era assim que queríamos que fosse. Devo confessar que também não amaldiçoei a vida, não roguei praga à morte, não desacatei, não falei o nome Deus em vão e nem procurei achar desculpas para sua partida, também não me enchi de culpas, remorsos por não ter feito algumas coisas que prometemos fazer juntos, coisas bobas que sempre adiamos, como viajar ao Amarelão, lá em João Câmara/RN, irmos à Mossoró na casa de seu amigo Chico. Entendo que Deus achou melhor assim. Para ser mais sincero, as oportunidades que tivemos aproveitamos todas, eu a minha maneira e o senhor a sua. Nossas risadas às vezes sem motivos óbvios, pareciam nos dizer só por estarmos juntos ali, seria motivo suficientemente para alegrias gratuitas. Temos a mangueira por testemunha. 

Porém, é certo, queria ter tocado a toada que o senhor sempre me perguntava: “sabe tocar Boiadeiro?” Sim, respondia e prometia da próxima vez que fosse à sua casa levaria o violão, o que não aconteceu. Meu velho, se Deus conceder, em sua generosidade, de um dia estar com senhor novamente, fique certo que tocarei “De manhãzinha quando sigo pela estrada, minha boiada pra invernada eu vou levar…”. Seu Luís, obrigado por ter sido meu pai. 
Um Feliz Dias dos Pais para todos.

Brito e Silva – Cartunista

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De boa!

Diz a filosofia que nós humanos somos desprovidos de instinto, isto é, nascemos sem saber quem somos, não temos a menor ideia do que fazer (como tudo tem exceção, às vezes alguém nasce já relinchando e se torna Presidente do Brasil). O gato quando nasce sabe que é gato, e segue sua vida de gato inteirinha sem aprender absolutamente mais nada, nada de aprender coisas de cavalo, de porco ou de tubarão, na verdade vai levando sua vidinha miando e fazendo gatices. O homo sapiens precisa aprender tudo. Dizem que o único instinto que temos é o da sobrevivência que nos impulsiona a procurar o peito materno.

Aprendemos a andar, falar, ler, nadar, correr, escrever, ciências, enfim, somos impostos a saber ser humano. Claro, evidentemente que fomos dotados de um cérebro, e é bem verdade que o tal órgão vem zerado e sem manual de instrução, fazendo-nos dependentes de outros humanos que irão nos abastecer de informações para que nós possamos entender que somos humanos e, evidentemente compreender o mundo em nossa volta. Porém, as informações, ações, comportamentos, exemplos não são uniformes a todos os humanos recém-chegados
a terra, mesmo se fossem, não serviria para todos, pois, cada humano é uma peça única. Um gato que nasce no Japão não mia em japonês, mia em “gatês” língua miada por todos os gatos na face de todo o planeta terrestre, já uma criança nascida no Japão vai aprender falar, andar, cantar e se comportar como japonês e para se comunicar com um brasileiro terá que aprender português ou o brasileiro falar japonês, que também passou pelo processo de aprendizagem.

Entretanto, para não nos aprisionar em um divã por toda vida. Talvez, para aliviar sua consciência e compensar nossa falta de instinto, a natureza nos deu o que se convencionou chamar de dom, talento, habilidade natural, mas por sacanagem não disse qual o dom de cada um: Todos têm que se virar, procurar o seu. Conheço uma porção de gente que não encontrou sua habilidade natural, se tornando pessoas frustradas, maus profissionais, maus pais, maus amigos. Aqueles que têm a felicidade de conseguir se consagram bons profissionais: bons advogados, cientistas, professores, músicos, empresários… …Assim formam a maioria da raça humana usando seus dons medianos.

Porém, existem aqueles sujeitinhos sortudos, que chegam atrasados e vão para o rabo fila e quando da sua vez, já cansada a “natureza”, ver um monte de dons amontoados, se não forem usados serão desperdiçados, decide então entregar ao último, e o cara nasce com mais talentos que os outros, com uma espécie de “inteligência plus” assim como Jesus de Nazaré, Albert Einstein, Gandhi, Mozart, Van Gogh, Da Vinci, Caetano Veloso, Lula, Madiba, Sócrates, Platão…

Aos que flutuam ali no limiar, naquela linha tênue entre a mediocridade e a completa falta de raciocínio lógico, a chamada burrice nata – meu caso -, há um consolo, dito pelos que, cheios de caridade, generosidades e piedade, profalam: “Se você não vence pelo talento, irá vencer pela persistência”.

Até hoje, aos 62 anos completos, no 20 de julho, ainda não sei onde me encaixo: tenho certeza que não fui o último da fila e, se fui, certamente, quando chegou minha vez não tinha mais nenhum talento disponível. Também esse negócio de persistência é papo furado, pelo menos para mim não funcionou. Há 35 anos resisto, persisto e não desisto nunca de um dia aprender a tocar violão. Mas devo confessar, quando vejo Gilberto Loia tocar Corsário ou Jade – de João Bosco – e Geraldo Carvalho dedilhando seu pinho, tenho vontade de desistir, mas como bom brasileiro não desisto, resisto. Se não conseguir sair das três notas musicais que aprendi, mas se resistir e vencer Bolsonaro já estarei de “boa”.

Fezes

Os boletins médicos afirmam que foi retirado 1 quilo de fezes, através de cateter inserido no nariz do Presidente Bufão. Quando disse que o cagão expelia fezes e gases por todos os orifícios era apenas uma força de expressão, o que agora, deixa de sê-la.

Galvão

Galvão Bueno, como narrador esportivo não poderia
ser mais desonesto, antiético, mesquinho e pequeno.
O sujeitinho quer ganhar a todo custo, menospreza os adversários, nos empurra um sentimento de rivalidade danoso, infla o “jeitinho brasileiro” de levar vantagem em tudo, fair play para ele é somente uma palavra. Os meios justificam os fins, enfim, é um pulha.

Caricatura

Caricatura de Elza Soares, feita para participar do Prêmio Valdemir Herzog. Porém, li e agendei: Inscrição até 30 de julho, era 30 de junho, perdi prazo, quem manda ser analfabeto e cego.

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Caminhando e cantando

“A cidade acorda e sai para trabalhar, na mesma rotina, no mesmo lugar”, verso da música Conformópolis, do grande músico Di Melo. Depois de muita resistência, laudos falsos(imaginários), dores na cabeça no dedo mendinho do pé esquerdo, desculpas descaradamente esfarrapadas para Roberto Freitas, meu genro fisioterapeuta – a quem agradeço todos os dias e todas às vezes que me oferece oportunidade e, assim farei sempre, por seu atendimento imediatamente nas primeiras horas do meu AVC – que dizia se eu não caminhasse, certamente, acrescentaria mais uma deficiência à minha “cacunda”, desta feita, física.

É verdade, passados 2 anos a minha fonte de alegações para não deixar o calor da cama definhou, sua força gorou, tal qual o argumento do energúmeno que vomitava não haver corrupção no seu desgoverno. Porém, Maria também perdeu a paciência e, unilateralmente, decretou: “A partir de hoje, vamos caminhar!”. Ainda tentei um habeas corpus junto a mais alta corte familiar, para ter o direito inalienável ao bom cristão de permanecer deitado no seu “berço”, pedido indeferido pelos netos, com anuência dos filhos, em complô fizeram coro com Maria. Hoje acordo com a cidade, torturando minha admirável e amada preguiça da alvorada, saio para caminhar como quem vai à fila da Caixa Econômica para receber o “milionário auxílio emergencial de R$ 150,00”. Na verdade, essa coisa de caminhar é uma tortura disfarçada de ter efeitos à vida saudável, um castigo permanente. No instante em que ponho o pé fora da cama, igual a Sísifo, imagino logo que cumpra a árdua tarefa o dia acaba e amanhã terei que fazer tudo novamente, igualzinho. 

No trajeto encontramos gente indo e vindo de carros, ônibus, motos, bicicletas e outros a pé, todos apressados. São trabalhadores que por motivos mil não podem ficar em casa em isolamento social e são obrigados a cumprir seus destinos. Cada um com suas histórias de vitórias e derrotas, acertos e erros, amores e desamores. São pretos, brancos, mulatos, pardos, homens, mulheres, LGBT+, católicos, evangélicos, umbandistas, espíritas, com partido, sem partido. Na verdade são apenas humanos condenados a comerem o pão que o diabo amassou, dia após dia, além de tudo, não bastasse os dessabores da falta de transporte público com o mínimo conforto, educação de qualidade para si e seus filhos, saúde,  salários dignos ainda são forçados a enfrentarem a besta-fera do Coronavírus e aquela outra inquilina do Palácio do Planalto.

Quando os ônibus apinhados passam por nós, me pergunto que destino terá essa gente? Não daqui há um ano, dez anos, mas logo amanhã, no dia seguinte? Na volta sempre passamos por um senhor com seus 1,60cm de altura, uns 120 quilos, estático junto a sua moto a espera de compradores para seus salgados e sucos, que ora, descansam no bagageiro da Cial. Me entristeço e, certamente, se soubesse rezar, rezaria, como não sei, com um nó na garganta sigo caminhando e cantando, em silêncio.

Brito e Silva – Cartunista

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Meus moinhos de ventos

Outro dia um “amigo” me questionou sobre o “ódio” que expressava no meu trabalho contra Bolsonaro, segundo ele eu parecia estar sendo pago para adestrar, alienar, catequisar meus seguidores. Ora não sabe o indigente mental que os meus “seguidores” cabem num fusquinha e ainda sobrar assento confortavelmente à Wilza Carla, se viva fosse.

Na verdade, não respondi. Posso até ter sido pretensioso, pois tive a nítida impressão se fosse explicar, certamente, ele não iria entender bulhufas. Há pouco me veio a certificação que teria perdido um precioso tempo, se tivesse feito. O mesmo sujeito – in box – disse que meus textos e meus desenhos eram umas “merdas”. Ora, não discordo disto, ele pode estar certo que meus textos, desenhos e comentários são ruins de correr água, por que não seriam? Discordo de terem capacidade de influenciar qualquer cristão de consciência sã. 

Porém, isto provocou-me à uma reflexão, que aqui exponho: Meus desenhos, textos e comentários são meus, fazem parte do que sou, é meu pacote, o pacote Brito, logo os moinhos ventos são todos meus e pangaré também. Essa é minha verdade sem o menor intuito de sugestionar ou induzir ninguém a nada ou seguir-me como quem segue gurus, não sou tão ingênuo e, portanto, não seria tão pretencioso para imaginar que estaria doutrinando alguém ou levando quem quer seja a pensar diferente lendo o que escrevo ou desenho, quem se permite ao trabalho de assim pensar, certamente, não pensa. Ora, o que faço, como faço é apenas minha maneira de enxergar o mundo, meu ponto de vista, que por sinal, amanhã ou agora mesmo pode mudar. O que penso e faço não são estáticos como o bolsominion estaria imaginando, desde que perceba e tenha o convencimento de estar errado, posso mudar sem constrangimento. Entretanto, por toda minha história profissional, pessoal, comportamento ética, do que li, vi e vivi é impossível uma reviravolta de 180 graus e apoiar o Presidente Cagão e ter simpatia por qualquer coisa que posso vir de sua mente suja, se assim o fizesse não seria eu, mais provável, talvez uma entidade.

Portanto, de elmo, armadura e de lápis em punho me mantenho firma meu “amigo”. Quem escolhe seus líderes, seus ídolos são seus liderados seus fãs e não o contrário. O “candidato” a líder tem ideias, práticas e objetivos que se alinham a seus possíveis liderados e assim se compactua uma aliança de confiança ungindo o líder, quando o líder deixa de entregar o que foi prometido começa a definhar sua credibilidade e pelos que antes o adoravam, serão os mesmos que o levarão à guilhotina. Por isto, digo e reafirmo quem votou no Cagão tinham e têm simpatia e apoiam suas ideias, práticas e objetivos, não são menos nem mais que iguais: cagões! 

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Déjà-vu

Elza Soares, 91 anos de luta – Uma das mais belas vozes do Brasil

Diz o poeta Gonzaguinha “Saudade a gente não explica…” eu tendo a acreditar nisto. Todos nós uma vez outra ficamos saudosos. Uma música, um perfume, uma foto nos catapulta ao passado, quando este foi bom somos embrulhados em lembranças e numa felicidade resgatada. Parece que nos renovamos – se é que seja possível -, seria de bom tamanho se estes “TBTs” fossem apenas de momentos bons, entretanto não controlamos os gatilhos que os acionam, muito embora sabendo quais, às vezes as lembranças não são tão boas, o que não é o caso. 

Também por vezes em nossa vida todos já passamos, pelo menos por um “déjà-vu”. Aquela sensação quando estamos em um lugar e ter a mais absoluta nítida certeza que já pisou ali, mesmo consciente que não poderia nunca ter estado naquele local. Os médicos chamam isto de Paramnésia – distúrbio da memória, em que se relembram as palavras e coisas, porém fora de sua significação exata -. 

Pois muito bem. Ouvindo músicas no Youtube, bastante concentrado finalizando a caricatura de Elza Soares, por ocasião de seus 91 anos, no último 23 de junho, repentinamente uma voz bem postada como de um disc jockey, hoje apenas DJ, soou: “Prepare-se! Roberto – não sei das quantas – vai te levar em uma viagem musical pelos melhores hits dos últimos tempos”, por Deus, os primeiros acordes da canção me vi como uma projeção holográfica dentro do estúdio da FM Santa Clara, em Mossoró/RN, n’O Som do Caby com meu amigo Caby da Costa Lima (in memoriam), dizendo: “rode as carrapetas Ênio Ticiano”, o qual não se fazendo de rogado apertou o Play. Ainda sobre introdução “Esta música vai pro meu amigo Camaradinha Brito e Silva. Camaradinha veja esse nome, um dia vamos montar uma agência de publicidade juntos com esse nome, solte aí Ênio, de Nando Cordel, Azougue”, dizia Caby.

Não implementamos uma agência de publicidade, mas é verdade que criamos o site www.azougue.com o qual fiquei pouco tempo, pois já morava em Natal e Caby em Mossoró, isto por volta de 2005(?), a internet era muito ruim tornando inviável minha participação mais efetiva, logo o Camaradinha deu sequência sozinho até sua morte.

Neste turbilhão de imagens e emoções tropecei numa lembrança de quando nos reunimos na casa do amigo Rogério Dias, para fundarmos uma associação de agências de publicidade de Mossoró. O tempo passava, já cansados de esperar, além do anfitrião Rogério, eu, Paulo Oliveira, Gilberto Souza e mais outros publicitários que me fogem a memória – desculpem minha sexagenária memória -, lá pelas 21h decidimos dar início a reunião sem a presença dos atrasados. Estávamos citando os nomes das agências para constar na ata: Auge Propaganda, Brito Propaganda, Palco Publicidade, Gás Propaganda, de repente entra Caby, quando Gilberto de Souza sentencia: “Pronto, chegou a Raimundo Nonato Faixas e Cartazes”, o Camaradinha rodou nos tamancos, deu meia volta e foi embora, certamente, ficou alguns dias “de mal “ com Giba.

Caby, “pegava ar” quando alguém o chamava de Raimundo Nonato. Sou testemunha – durante os mais de 30 anos de nossa amizade, ficávamos “de mal”, pelos menos duas vezes por semana – aqui no torrão, você não conseguia passar mais de três dias com raiva de algum amigo, imagine aí, ao lado de JC, por isso, sei que vai me perdoar pela indiscrição. 

Brito e Silva – Cartunista

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Encontro

Natal/RN, 27 de abril de 2021

Encontro

Sábado, você falou comigo entusiasticamente: tinha “encontrado” Belchior. Apesar de ouvir desde sua infância, mas somente agora, de fato, conseguiu escutá-lo. 

As coisas acontecem assim mesmo, isto é a vida. Passamos boa parte do tempo procurando alguma coisa no horizonte, uma felicidade instantânea, um prazer fugas, um pergaminho com sabedorias e, invariavelmente, como diz a música “o amor pode estar do seu lado”, não vimos porque de tão perto já faz parte de nós e assim sendo levamos certo tempo para perceber. Porém, quando acontece nos produz uma satisfação incomensurável. 

Digo isto, porque com 62 anos nos costados, já fui protagonista de diversos encontros desta natureza com cantores, escritores, filhos, parentes, filmes, amigos… A vida é feita de encontros – embora haja tantos desencontros pela vida, disse o poeta -, uns agradáveis outros proporcionalmente desagradáveis. 

Nestes últimos tempos “encontrei” por diversas vezes vários amigos desnudados, onde, de fato, pude vê-los em suas essências, alguns sem capas, sem máscaras mostrando o “fucim” fascistas, outros tantos, em nome de Deus, inflando como “senhores da verdade” e ainda muitos outros cheios de humanidades, perdão, tolerância, de luta por um mundo melhor. Isto é a vida.

Os encontros são e serão tijolos em nossa construção e, como não paramos de construir, também não paramos os encontros. Eu, dobrando o “Cabo da Boa Esperança”, todas às vezes que lhe “encontro” saio mais rico, mais feliz, mais inteiro. Sua capacidade de ver a vida, sua generosidade, de alinhar voz e ação, mente e coração é um respiro de equilíbrio neste mundo onde todos buscam impor suas verdades.

Obrigado, por ser a filha que es. Feliz Aniversário! Logo, logo nos encontraremos para longas conversas, é disto que preciso. 

Do seu pai

Brito

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Eu sem você não tenho porque

No filme Elizabeth, no qual retrata a ascensão da jovem filha de Rei Henrique VIII, ao trono britânico, na cena em que enfrenta uma discussão com seu conselheiro que a tenta persuadi-la a não lutar contra os espanhóis por fragilidade de seu exército ou talvez – e era – por ser mulher, firmemente a jovem rainha se impõe com uma frase profundamente carregada de simbologias: “Eu sou filha de meu pai”.

Aquela frase me marcou, não que tenha algo a ver comigo, mas com você. É assim que lhe enxergo, altiva, com essa força e coragem todas às vezes que é confrontada com alguma dificuldade, não foge, põe o elmo vai à luta na primeira fileira.

E sempre foi assim desde o berço. Um pouco birrenta é verdade, mas determinada, firme como uma rocha e maleável como seda. Entretanto, hoje, de fato, é que a vejo assim, talvez Lívia me fez “cair na real” e perceber que você já é uma mulher adulta, formada, casada e com filha e não é mais aquela menininha que dizia em minha ausência “eu quero meu pai” – Como é Roberto? Imite aí -.

Hoje, mulher, mãe, profissional, pronta a ir muito mais além a virar mundo e quando, principalmente, se trata de alguma injustiça. Nesta privação física fico relembrando nossas conversas sobre coisas sem relevância e de outras brutalmente dolorosas como a fome, crianças abandonadas e as mazelas que assolam nosso país e rezando suplico aos deuses que sejam clementes e levem esse vírus para os confins do universo, nos restaurando a paz.

Eu preciso ver você aqui tocando e cantando “Eu sem você não tenho porque, porque sem você, não sei nem chorar…”

Feliz Aniversário, filha minha!

Seu pai, Brito

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Cenas da pandemia

Por Brito e Silva

A primeira vez, daqui do terceiro andar, que vi meus filhos e netos lá embaixo, no estacionamento sem sentir o cheiro, sem poder tocá-los, sem ver os olhos deles, me deu um nó na garganta e os meus começaram a minar como os olhos de um condenado, que inerte, sente apenas o frio do fio do machado cortando o ar descendo em direção do seu pescoço e, somente uma imensa tristeza invade a alma.

Esta cena se repetiu neste último ano e ainda continua se multiplicando. Outro dia toca o meu celular era Felipe, meu genro, com minha neta Valentina, filha de Pollynne, lá embaixo, que o “obrigou” a vir aqui, porque ela insistentemente dizia estar morrendo de saudades dos avós. Lá de baixo mandou uma porção de beijos e foi-se embora com sua saudade matada, deixando a nossa cada vez mais doída. 

Outra vez, aliás, no natal passado Jade/Roberto trouxeram sua filha, nossa neta, nós fomos até à portaria, ficamos a mais de dois metros deles e devidamente mascarados. Lívia quando nos viu estirava os braços em nossa direção e balbuciando vovô – Maria jura até hoje, que ela dizia vovó – e nós ali paralisados, sem podermos avançar nenhum centímetro, ela olhava para mãe como se perguntasse porquê de nós não tomá-la nos braços, repetiu o gesto por diversas vezes. E como se fosse para driblar nossa memória futura, a cena se repetiu logo depois com Valentina trazido por Pollyanne/Felipe. Não resisti. Subi com os olhos marejando.

É verdade que aprendemos a lidar com esta nova situação, até com um certo controle emocional para poder permanecer saudável mentalmente. Mas não me transformei sólido e duro quanto o mármore. Sei, que feitos condenados estamos todos em prisão domiciliar, vigiados por milhões de legiões invisíveis prontas para surrupiar nosso último suspiro, nossa alma. Nesta solitária os sentimentos e sentidos oscilam em um vai-e-vem como as ondas dos mares que teimam em subir à areia branca e se banharem ao sol, mas não vão além da última espuma seca. Entretanto, como pingente me apego aquelas cenas dos netos no estacionamento, igualmente uma âncora que penetra o solo marinho parando o transatlântico sobre as águas ou como a raiz fincada no alto da colina suporta o balanço do capim durante o temporal mais medonho sem deixa-lo perder a honra. Assim me posto, convicto que passada a tormenta estaremos todos juntos e, talvez, credite isto de “novo normal”, antes disto, jamais!

Como chamar de normal não poder abraçar meus filhos e netos? Como chamar de normal mais de quatro mil mortes por dia? Como chamar de normal mais de 360 mil mortes? Como chamar de normal a ineficiência voluntária e genocida do Governo Federal? Parece óbvio que não é normal. Mas, também nunca foi tão preciso dizer o óbvio: isto não é normal, é óbvio, e menos ainda “novo normal”, se o é, protesto e não aceito.

O normal ou novo normal frente a pandemia seria o Governo Federal logo no primeiro momento ter comprado as vacinas que foram disponibilizadas, falar ao povo da necessidade do uso de máscaras, de não fazer aglomerações, ter implementado uma força tarefa para cuidar da crise sanitária que se mostrava no horizonte, ter implementado um Auxílio Emergencial capaz de manter as pessoas alimentadas e pagando suas contas básicas sem a necessidade de sair às ruas atrás do pão de cada dia. Isto sim, seria um “novo normal”. Não temos “novo normal”. 

Normal ou novo normal será quando meus netos, filhos, pais, irmãos e amigos couberem num abraço.

Editais

Tenho uma vontade danada de um dia participar de algum edital estatal, seja ele com RG municipal, estadual ou federal. Até tentei participar da Lei Aldir Blanc, mas quando abri, percebi que estes “troços” não são escritos para gente de baixo QI, como eu. Recorri a um amigo especialista, de pronto disse precisar de ajuda de um outro especialista, que também iria carecer de um terceiro. Desisti. Fiquei lambendo o dedo.

Pedro, o esnobe

Para ficar bem na “telinha” e com seus pares de direita do “Manhattan Connection”, no 14 de abril, o jornalista Pedro Bial, tido como inteligente e cortes, perdeu fleuma. Talvez para mostrar aos Marinho, seus patrões, que mesmo em dando entrevista em outra tv, se mantém firme ao antipetismo implementado pela Globo.

O Pedro, grosseiro, preconceituoso, presunçoso e esnobe afirmou que só entrevistaria Lula com ajuda de um polígrafo. Ainda não aprendeu que o mundo gira e a terra é redonda. 

Polígrafo

Fico imaginando o Capitão Bufão sendo entrevistado pelo “Pedroca’ com o auxílio de um polígrafo. Certamente, daria um trabalho danado à logística. Pois, teriam que levar todo estoque para o estúdio ou a entrevista seria no almoxarifado para facilitar a reposição do polígrafo a todo instante.  

Fogo baixo

O nosso Fogão anda mesmo em fogo baixo. Eliminado da Copa do Brasil pelo ABC de Natal, em um jogo sofrível. Diz meu amigo Delegado: “Com esse joguinho perde até para o Potiguar, e ele torce pelo Leão da Doze”.  Isto já me conformaria.

O Conde

O amigo, Rubens Coelho, chamado de Conde por todos, disse “Não dá para viver sem chorar com o normal bolsonariano com essa diabólica pandemia”. É verdade. Mas, também não dá para viver sem lutar. 

Caricatura (Seu Jorge)

Desenho do cantor e compositor Seu Jorge, que ilustra nosso e-Book 200 Caricaturas de Astros da Música Nacional e Internacional, disponível no site https://blogdobrito.com/loja/ Para quem gosta de caricatura e música é uma boa pedida. 

Frase

Inspiradora e contunde frase do meu amigo Delegado (porteiro, filósofo, monge e sociólogo): “Quem mente, mente!”

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Não cabe aos Senadores criar CPI para apurar atos de Governadores e Prefeitos

por Professor Luis Carlos Noronha

Sabemos que uma das principais funções, ou a principal, de uma Casa Legislativa é a fiscalização dos recursos públicos. Em um caso muito contundente pode-se criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito *CPI para aprofundar uma investigação deste fato determinado.

A Constituição estabelece que além da necessidade de um fato determinado a CPI detenha-se a este fato, não podendo ir além.

Estabelece também um prazo certo para sua existência e que o fato determinado deverá estar, ainda, entre as matérias sobre as quais a Casa Legislativa poderá exercer sua função legislativa e que seja de sua competência. 

Resumindo, um CPI federal não poderá investigar assuntos da competência dos Estados ou Municípios, bem como o contrário.

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Sabe com quem está falando?

Outro dia o amigo jornalista Cefas Carvalho, escreveu sobre a infame frase “Você sabe com quem está falando?” e sobre ela podemos andar por várias veredas e talvez, chegaremos ao mesmo porto, sendo ele seguro ou não. O certo, é que podemos versar “a gosto do freguês” sem perde de vista sua vulgar brutalidade. 

O “Você sabe com quem está falando?” É notoriamente uma fala tatuada de cima para baixo, sempre expressada por alguém que se imagina superior, assim se achando por ter dinheiro, posição social, intelectual e quando não, de cútis branca e sem dúvidas vem, quase sempre, enunciada por uma certidão de parentesco com a “casa Grande”.  Que me lembre nestas 61 primaveras nunca fui posto cara a cara com dita cuja. Nesta longa e acidentada jornada feita até o presente, por vezes fui chamado de frouxo, outras de agressivo e quase sempre muitos me têm como paciente, ponderado e conciliador e estes, talvez tenham maior razão. Mas, em nenhum momento me foi dito “Sabe com quem está falando?” e sinceramente, não sei que reação teria, mas certamente, sem o menor medo de errar seria proporcional ou pelos um “grande merda” soaria por entre os dentes: “Quem cala consente os gritos do capitão”. 

Desde cedo dona Geralda – minha mãe – me ensinou a respeitar as pessoas, não pelo posto social, financeiro ou pelos galões sobre os ombros, mas sim, por se tratarem de um seres humanos e como tal deveriam ser tratados. Isto pôs incrustrado forçando-me a nunca “levar desaforo para casa”. Claro, que na juventude afoita, comprei algumas arengas que se mostraram inúteis e estéreis. Hoje, já sexagenário olhando o passando distante com uma lupa, mesmo estas, talvez, tenham fortalecido a argamassa do alicerce que me postei e assim sendo cristalizando minhas posições ante as diversidades e escolhendo as lutas que valeriam à pena ser travadas, não pela vitória fácil, porém, pelo aprendizado ensejado na peleja.

Não consigo entender e menos ainda respeitar qualquer relação onde o “poder” se ponha como premissa. Sim, eu sei, é uma utopia esperar que o poder não seja exercido sempre de cima para baixo e desça para ficar no mesmo prumo, no tête-à-tête. Entretanto, se todos ao invés de baixar a cabeça e lutassem, talvez, quem sabe poderíamos em futuro não tropeçar nesta frase torpe “Você Sabe com quem está falando” ou ainda pior, nesta: “Sim, senhor, estou aqui pra lhe servir”?  Esta última tem igual valor e peso, pois referenda a primeira.

Paulo Freire diz “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”. 

Brito e Silva – Cartunista

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Nu

Nu

A chuva passou, os carros passaram e a moça cheia de graça também passa, com a pressa de quem vai a lugar algum ou tem a alma livre de quem nunca chorou seus pecados.

Na verdade, ela desfila na feia calçada da padaria. Se eu entendesse do ramo, diria que é afoita praticante de pilates: pois suas ancas, em bandas, são proporcionais e as pernas bem torneadas lhe oferecem uma bela silhueta, não diria que tem a cintura de pilão, mais sim, semelhante a meu rabugento violão.

Em verdade voz digo, com a devida vênia: que ela poderia ser a minha “Garota de Ipanema” ou musa de qualquer artista esfuziante, assim caminhava num doce balanço em plena Maria Lacerda. Rebolando os quadris de um lado para outro parecendo uma Víbora de Chifre no sol escaldante nas areias do deserto do Saara, sob cobiça de umas, desdém de outras e olhares espichados de outros tantos, ela segue alheia aos pormenores.

Antes de virar a esquina, decidiu conferir seu “estrago” aos “espiões” passantes, por sobre o ombro esquerdo olha para trás. Que coisa horripilante, vi seu rosto e ele estava nu.

Brito e Silva – Cartunista

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Sirenes

Dias e noites, da janela que divido com Maria, ouço e “vejo carros apressados a passar por mim” com suas sirenes fustigantes soando e ressoando aquele som de dor. Luzes vermelhas ofuscantes freneticamente piscam como quem nos alertam do perigo eminente, sorrateiro e invisível que insiste em nos rodear assombrando com sua saga de morte, espalhando sofrimento a todos os recantos do planeta, parecendo e até alicerçando a tese de alguns, que se arvoram a dizer que isto é castigo divino por nossos pecados. Confesso que às vezes tendo a balançar a cabeça sinalizando concordância, mas logo me atenho a dureza da realidade, de certo, pode não ser castigo divino, mas consequência de nossa ganância em destruir a natureza, disto não há dúvidas.

Carros vermelhos, verdes, azuis todos passam a soleira de minha janela, não há silêncio, ondas trazem somente o som estridente das sirenes e buzinas pedindo passagem a outros automóveis em igual afobação em fila dupla, mas que terminam abrindo caminho à urgência, à tentativa de salvação.

Fico imaginando que ali dentro daquela ambulância verde e branca vai uma pessoa pedindo, rezando e suplicando aos deuses para viver. Quem sabe seja apenas um jovem rico que quebrou o dedo mindinho e exigiu do seu plano de saúde uma urgência? Pode ser.  Mas também pode ser alguém com filhos, noras, genros, netos, que luta para voltar a vê-los. Talvez, muitos destes ficaram em casa ainda choram a angustia da incerteza de um abraço ou de um possível adeus compulsório imposto pela falta de compaixão, consciência de pessoas que teimam em pelejar contra a ciência e acreditam em um Messias de araque tão falso e mentiroso quanto tábua de fojo.  

Na verdade, aquele paciente do carro verde e branco tem uma família, uma história de vida e certamente, não deseja pôr um ponto final. A cada soar das sirenes torço para um final feliz.

Os sons das sirenes continuam ensurdecendo nossos dias e noites. Olho e vejo ambulâncias do SAMU e seus anjos de azul, em urgência, transportando esperança. Aqui, quem anda nos salvando são alguns mortos: John Lennon, Belchior, Elis, Gonzaguinha, Sérgio Sampaio, Freddie Mercury, Bob Marley…E a esperança e vontade de poder abraçar nossos filhos e netos. 

Brito e Silva – Cartunista