Artigo

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Escuridão – Hugo Motta

Quando o povo grita, eles tremem.

Nos últimos dias, a rede social X ficou lotada de vídeos que explicam, de um jeito bem didático, quem paga imposto no Brasil, e quem praticamente não paga. O roteiro é sempre o mesmo: rico contribuindo pouco, pobre bancando a maior parte da conta.

Por trás dessa desigualdade está o famigerado Centrão. Liderado pelo deputado Hugo Motta, Presidente da Câmara e pelo senador Davi Alcolumbre, Presidente do Senado, o grupo veste a fantasia de “moderado”, mas atua fortemente para seus verdadeiros patrões, a elite endinheirada da paulista. Lá dentro do Congresso, vota por subsídios, isenções e menos impostos para os do andar de cima, enquanto para quem vive de salário chegam à conta de luz mais cara, cortes em saúde, Bolsa Família, BPC, aumento dos preços dos alimentos e congelamento do Salário Mínimo.

Não é “a peleja do Diabo com o Dono do Céu” inventada pela esquerda, nem “luta do bem contra o mal” pintada pela extrema-direita. É, sim, uma batalha justa para repartir melhor a riqueza: garantir comida, roupa, lazer, educação e transporte decentes a quem trabalha, a quem de fato, faz a roda girar a roda da economia, pois sem mão-de-obra, sem o trabalhador dinheiro ou riqueza são apenas palavras incapazes de saírem do dicionário.

Não se propõe a extinguir as classes sociais - isso seria utopia. O que se quer é encurtar a distância entre elas. E só há um caminho: a política. Somos mais de 100 milhões de trabalhadores; basta eleger quem defende nossas dores e não votar em quem protege privilégios. Simples assim.

Eles, do Centrão, morrem de medo do povo. Quando o povo grita, eles tremem.

Brito e Silva – Cartunista

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O Botafogo me redime

Botafogo me redime

Esperando o Uber na porta do Carrefour, tentando poupar minha preguiça de uma caminhada até em casa, sentei num banco qualquer. Duas pessoas conversavam ao lado e, sem pedir licença, me incluíram num papo que eu nem estava ouvindo:

– O senhor não acha que a leitura é um caminho para abrir a mente?

Por um instante, cogitei responder que nem sempre. Às vezes, uma boa “machadinha” pode ser mais eficaz. Mas achei melhor não arriscar ser mal interpretado e apenas concordei, torcendo para não ser puxado para dentro da conversa. Mas…

– Estava dizendo aqui ao amigo que leio três livros por semana…

Ufa! Meu Uber buzinou. A longa distância de duas quadras me pareceu uma maratona, e me senti menor que um comentário bolsonarista sobre a tese da Terra Plana. Na caminhada, percebi o quão limitado sou em repertório, intelectual e talvez até de vida.

Veja só: nunca fiz grandes coisas – exceto os filhos, que certamente são a melhor parte de mim. Minhas manias e ranzinzices nem têm charme suficiente para intrigar a vizinha mais curiosa da rua. Sou tão previsível quanto o sol nascendo no leste e se pondo no oeste, todos os dias que dá.

Leio, em média, uns 15 livros por ano. Quando me sinto saturado pela fartura de títulos, busco meu porto seguro: O Lobo da Estepe, do Hermann Hesse, ou algumas páginas da Bíblia. O mesmo vale para música, quando os “zuvidos” cansam, recorro ao Pink Floyd. Com filmes, depois de fugir de tantos heróis s bombados salvando o mundo, aceno para ser salvo por Giuliano Gemma, Anthony Steffen e Clint Eastwood.

Antes mesmo do motorista anunciar que havíamos chegado, olhei para trás e vi o “leitor voraz” com uma camiseta amarela estampada com as bandeiras do Brasil e dos EUA. Contava entusiasmado que já tinha lido quase tudo de um tal Samuel Rowbotham, sim aquele, tido como o pai da Terra Plana.

Meu cérebro – se é que ainda me resta um – me presenteou com um leve sorriso de alívio. Afinal, apesar de mim, talvez eu não seja tão ruim assim, sem falar que o Botafogo me redime.

Brito e Silva – Cartunista

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Oficina de Tirinhas

Na tarde da última sexta-feira, 13, a Biblioteca Machado de Assis, no Colégio Alberto, em Petrópolis, se encheu de criatividade e traços animados. Conduzimos uma oficina de Tirinhas com os alunos, sob a coordenação das professoras Lúcia e Fabiana.

A atividade teve como objetivo despertar o olhar crítico e o senso de humor dos participantes por meio do desenho, onde propus o tema “celular”, a relação deles com o aparelho e a proibição no ambiente escolar.

Entre risos e histórias, imaginação correu solta. Surgiram personagens originais e situações inspiradas no cotidiano escolar. Os alunos mergulharam no universo das Tirinhas, experimentando narrativas curtas com começo, meio e fim.

A oficina também mostrou como as tirinhas podem ser uma forma divertida de se comunicar e refletir.

Ao final, os jovens artistas compartilharam suas criações, encantando a todos com talento e autenticidade. Foi uma tarde leve, produtiva e repleta de descobertas no mundo dos quadrinhos, saí renovado e, certo que não “Inteligência Artificial” que substituo o talento e pensamento humano.

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A culpa não é do mordomo

Moro em Natal desde 1999. Ou seja, já completei bodas de prata com as enchentes da cidade. São 26 anos assistindo, com a paciência de um monge tibetano e o espanto de um turista desavisado, às lagoas de captação pluvial transbordarem como se fossem enchentes do Rio Mossoró, nos 80, de água barrenta, invadindo casas, ruas e memórias.

A cada temporada de chuvas, o enredo é o mesmo: moradores tirando água com balde, móveis boiando como se tivessem aprendido a nadar, e aquele coro uníssono de ladainhas culpando o prefeito da vez. É um teatro de horrores com roteiro velho “sambado”. E, curiosamente, os mesmos atores perplexos com cada ato grotesco.

Mas sejamos justos: a culpa não é de São Pedro, nem de Tupã, muito menos do travesso El Niño. A culpa tem CPF, colarinho branco e cargo público. É do prefeito atual, Paulinho Freire. Do anterior, Álvaro “Cloroquina” Dias. E do antes desses, Carlos “Cabeção” Eduardo Alves e todos os outros antecessores.

Só que tem um personagem coadjuvante nesse drama que merece mais atenção: o povo. Ah, o povo! Talvez acometido da chamada Síndrome de Estocolmo Eleitoral, aquele distúrbio que faz a vítima se apaixonar pelo próprio algoz. Só isso explica a devoção com que vota, reza e reelege os mesmos nomes com a fé de quem joga na Tele Sena achando que “agora vai”.

No fim, tudo vira um ciclo: o eleitor transfere a responsabilidade ao político; o político, assim que senta na cadeira, sofre amnésia súbita; o eleitor esquece em quem votou e, quando a água entra pela porta da frente, volta a maldizer no WhatsApp os políticos e, até Deus, por tamanha mazela.

Chove, a cidade alaga, as promessas evaporam com os primeiros raios de sol. Moradores perdem móveis, lembranças, paciência. E o que ganham? Lama no acima do mocotó, do quintal à porta da rua e a certeza de que ano que vem será igual.

É triste? É. Muito. Mas… …A culpa não é do mordomo!!!

Brito e Silva – Cartunista

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The patriot

A visão vesga dos chefes dessa gente que batem no peito gritando “patriotismo” é uma escolha estratégica: quanto mais longe da realidade, mais fácil é arrastar seus zumbis ideológicos. Não pela cabeça, porque aí faltam neurônios, mas pelo abissal vaco do crânio. Sim, falo dessa seita que reza para pneus. Manipular essa gente exige menos energia do que acender uma vela até porque a realidade não é atraente, não faz diferença.

O que o Bananinha está fazendo nos Estados Unidos é patético: está lá feito uma lesma, rastejando espalhando sua gosma tóxica pedindo intervenção gringa no nosso Judiciário. Tudo para tentar salvar o pai covardão da cadeia, o qual as algemas abertas esperam para “abraça-lo”.

Sem julgamento, sem condenação, o Capitão Cagão já deu show: chorou, gritou, ameaçou morrer se fosse preso, recusaria a se entregar e até recorreu a Lula por anistia. Um valentão da Paulista, que chamou o Ministro Alexandre de Moraes de “canalha”, agora molha as fraldas. Para completar, diz que está bancando o filho nos “Isteitis”, isto é, o golpe continua por procuração. Pura conspiração com dinheiro público. Cadeia para os dois “patriotas”. Urgente.

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A força do voto

Não tenho dúvidas de que há pessoas que reverberam o discurso fascista, do bolsonarismo, são movidas por falta de conhecimento, uma ignorância latente sobre os fatos políticos e, muitas vezes, por pura preguiça de buscar informações que ativariam tarefas cognitivas. Funções que seriam capazes de discernir um fato real de uma fake news, permitindo a construção de uma opinião própria, compatível com a realidade.

Contudo, é igualmente evidente que, além daqueles que, nos esgotos, fabricam teses mirabolantes e falseiam a realidade produzindo maldades contra o povo, existe uma camada expressiva de vetores desse discurso. E aqui não falo dos alienados, mas de pessoas de má índole, gente ruim, de alma apodrecida, mal amadas, que canalizam sua frustração existencial em forma de ódio. Agarram-se à maldade como fuga da própria mediocridade, semeando-a na vida alheia. São indivíduos moral e espiritualmente desqualificados.

Outro dia, na fila do pão do Carrefour, fui testemunha ocular de uma discussão entre uma senhora, nitidamente bolsonarista, e um senhor de perfil visivelmente progressista. O tema era a fraude no INSS. Eu, ali de butuca e com as “zureias” escancaradas, pude perceber a crueldade que esse tipo de mentalidade fascista impõe ao povo. Aquela senhora não apresentava uma alegação sólida, apenas repetia com veemência as fakes news de sempre. Com ar e um sorriso de vitória resumiu seus argumentos “Desse jeito, com um ladrão no poder, não vamos pra frente nunca”.

Aquela cena me levou a uma reflexão que, à primeira vista, pode parecer boba, mas não é. Todos sabemos que a potência dos motores foi baseada, originalmente, na força que um cavalo é capaz de exercer puxando certo peso em determinado tempo. Nos carros, essa medida é evidente, transformando-se em velocidade.

Sou fã de filmes de faroeste, especialmente os clássicos com John Wayne, Clint Eastwood, Henry Fonda, Gregory Peck, Jack Palance, entre outros. Sempre me chamou a atenção o fato de que, ao descerem de seus cavalos para entrar no saloon, os personagens não os amarravam de verdade: apenas enrolavam o cabresto numa estaca de madeira, o famoso mourão. Se o cavalo quisesse, bastava um passo para trás ou levantar as patas e estaria livre. Mas ele não fazia isso. Por quê? Porque não sabia que estava solto. Foi adestrado. E, mais importante, ele não sabia a força que tinha.

Se o dono morresse ali e não houvesse qualquer estímulo externo, o cavalo morreria de pé, imóvel, sem jamais tentar escapar.

É assim que veja os ignorantes: não sabem que estão amarrados, e tampouco conhecem a força que têm. Agora imagine 155 milhões de brasileiros votantes, conscientes do poder de seu voto? Sem dúvida, este meu Brasil brasileiro seria outro.

Brito e Silva – Cartunista

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Sósia

Cortando minhas madeixas, que insistiam em atrapalhar minha visão, sentei-me na cadeira do barbeiro para a devida poda. Logo o converseiro rolava solto, falava-se de tudo: futebol, religião e política. Eu, do meu lado, aprendi a ficar de bico calado, só de butuca, com os “zuvidos” atentos, escutando até os fios de cabelo se acomodarem no assoalho vinílico da barbearia, enquanto todos esperavam chegar ao assunto do momento: as fraudes no INSS.

Ajeitei-me na poltrona, buscando mais conforto, pois, certamente, o papo renderia por toda minha estadia.

– Vocês viram o roubo do PT no INSS?

– Vi, sim. O irmão do “9 dedos” roubou 6 bilhões e não vai acontecer nada – Disse outro.

Um jovem, que até então falava do campeonato inglês, pediu licença:

– Onde o senhor ouviu essa notícia?

– Na Globo, CNN, UOL, SBT, Record…

O jovem ponderou:

– Apesar de todos esses veículos não terem muita simpatia pelo presidente Lula e pelo Brasil, eles não disseram isso…

– Disseram sim, senhor! – respondeu o homem, elevando o tom.

– Calma, senhor. É só uma conversa. Vou dizer o que ouvi e li: a fraude começou em 2016, no governo Temer, passou pelo governo Bolsonaro – que não investigou – e, no governo do presidente Lula, a Polícia Federal passou a investigar. Estão envolvidos funcionários do INSS e várias entidades, porém, o Sindicato no qual o Frei Chico – irmão do presidente Lula – é vice-presidente, não são investigados, porque não estão envolvidos.  Esses são os fatos divulgados pela direção da Polícia Federal.

– Já sei: você é adorador do Luladrão…

– A questão não é essa, se sou ou não adorador de Lula, estou falando dos fatos.

O senhor, então, soltou:

– Você, que é jovem e metido a sabido, sabia que o Luladrão já morreu faz tempo? Esse que está aí é um sósia! Eu vi no Tik Tok…

O jovem, com um sorriso de canto de boca:

– Nisso o senhor tem razão.

Seguiram-se alguns segundos de silêncio mortal, rompidos por gargalhadas gerais.

O senhor bateu a porta e saiu.
O jovem pediu desculpas ao barbeiro por fazê-lo perder um cliente.

– Não se preocupe. Ele vem só conversar. Quando encontra alguém que discorda, vai embora. Respondeu o barbeiro.

Brito e Silva – Cartunista

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Chorar é preciso

Chorar é preciso

Outro dia escrevi: “Quem tem filho, chora.” Chora por amor; chora de alegria pelo sucesso deles e chora de tristeza por seus fracassos. E, principalmente, por aqueles momentos que, como pais, não conseguimos mudar ou amenizar. Foi assim quando enfrentou o câncer na tireoide. Graças aos deuses e à ciência, você está curada. Mas ainda me lembro das madrugadas em claro, em que eu e sua mãe ficávamos mudos, inertes, paralisados diante da realidade. Muitas vezes chorando sem lágrimas, como um rio seco; outras, nos afogando como se fôssemos o próprio Amazonas. Quem tem filho, chora.

Também me lembro da sua formatura, há dez anos. E mais uma vez choramos. Choramos com o nascimento da Lívia e do João Miguel — e tantos outros rios de lágrimas. Mas, felizmente, a esmagadora maioria foi de pura alegria. Muita alegria.

Hoje, você também tem duas joias raras: Lívia e João, e certamente chora por eles e por causa deles. E vai chorar ainda mais, porque quem tem filho, chora. Mas tenha certeza: eles serão suas maiores fontes de alegria genuína. Suas maiores conquistas. Seus mais merecidos e preciosos presentes.

Neste dia, hoje, neste tempo… já não há muito mais que eu não tenha lhe dito. Os conselhos, quando você os pede, já foram dados. Mas, como boa publicitária, você sabe: para se manter no “Top of Mind”, é preciso chover no molhado. Repetir, reforçar, reviver. Então veja isso como se fosse a primeira vez: saiba que eu te amo muito.

Parabéns, Jade. Feliz aniversário!

Seu pai, Brito

PS: Rezando para que nosso Botafogo, nos presenteie com uma vitória, hoje, lá em Bueno Aires.

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Eu discuto política, religião e futebol!

Eu discuto, sim, política, religião e futebol!

Nunca fui adepto da máxima “não discuto política, futebol e religião”. Desde cedo, compreendi que esses temas movem o mundo e, mesmo sem ser especialista, percebi que ignorá-los não é de boa monta. Desde a antiguidade, essas três forças moldam sociedades, com o futebol podendo ser substituído por qualquer outro “entretenimento de massa” capaz de extasiar e entorpecer multidões.

Política: Na Roma Antiga, a política do “pão e circo” implementada pelo imperador Otávio Augusto mantinha a população entretida e alienada. Os espetáculos sanguinários dos gladiadores ofereciam uma válvula de escape para as frustrações do povo, enquanto nos palácios, os poderosos desfrutavam de luxuosos banquetes que duravam dias. Passaram-se séculos, e a estratégia continua a mesma: manter o povo distraído enquanto poucos acumulam poder e riqueza.

Na minha casa, política sempre foi tema de discussão, mas com respeito às diferenças. Defendo um mundo mais igualitário, com menos desigualdade e mais acesso à educação, saúde e respeito ao ser humano. Por isso, falo de política.

E como não falar? Se os impostos que pago não retornam às ruas, aos postos de saúde, escolas ou transporte público digno? Como não discutir política

Religião: Karl Marx disse: “A religião é o ópio do povo”. Concordo, mas faço uma distinção: religião não é fé. Jesus de Nazaré foi morto por dois sistemas políticos corruptos e uma religião igualmente corrompida.

Hoje, muitas instituições religiosas transformaram a fé em mercadoria, comercializando milagres e promessas em nome de um lucro travestido de salvação. Isso acontece desde a antiguidade. Como não discutir religião?

Futebol: Já vivi um tempo em que cada brasileiro era um técnico de futebol, quando se ia ao estádio acompanhado de amigos, que torcedores do time adversário. Na minha casa, há botafoguenses, vascaínos e até flamenguistas.

Hoje, não sabemos mais quem são os jogadores do nosso próprio time, muito menos quem o treina. O futebol, tornou-se um espetáculo de violência fora de campo, com torcidas organizadas se encontrando para confrontos que terminam em mortes. Como não discutir futebol?

É verdade que não temos mais um coliseu lotado de plebeus sedentos pelo sangue de cristãos sendo dilacerados por gladiadores. Mas temos reality shows que anestesiam milhões, enquanto políticos ganham salários astronômicos e, ainda votam contra os trabalhadores que sobrevivem com R$ 1.518,00 por mês.

Ora, meu senhor! É preciso, sim, discutir política, religião e futebol! Estamos nos emburrecendo.

Brito e Silva – Cartunista

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Estranho

Vinha da farmácia com minhas compras mensais, acompanhado do meu neto, João Miguel, de 2 anos. Ele insistiu em ir comigo para que eu comprasse um doce chamado FINI, apesar de eu ter dito que lá não vendia. Mas, muito mais sábio que eu, propôs que eu o levasse para comprovar. Tinha!

Pois bem, já na calçada, ao nos aproximarmos da lanchonete na praça de Nossa Senhora de Candelária, João avistou uma pessoa deitada no chão, coberta dos pés à cabeça, e perguntou:

— O que é isso, vovô?
— É um morador de rua, ele não tem onde morar.
— Que estranho… — completou João.

Sou o que dizem hoje ser uma pessoa emotiva, um “bebê chorão”. Meus olhos minaram, como cacimba em leito de rio seco. Ora, João achou estranho algo que, para nós, adultos – que temos consciência de nossas responsabilidades sociais, que aprendemos que lutar por um mundo mais justo e menos desigual deveria ser nosso dever – já não parece mais surpreendente. Como se fosse natural um ser humano dormir ao relento, sem um teto sobre a cabeça.

Quando me dei conta, estava inundado por uma estranha sensação de fracasso, de impotência. Sentia-me pequeno diante da realidade ácida e cruel. Sei que as elites e a direita nunca enxergaram esses invisíveis — ou não quiseram enxergar. A esquerda tenta, ao menos na retórica. Mas a legião de miseráveis segue enchendo as cidades, enquanto poucas boas almas tentam cuidar e paziguar essas pobres criaturas abanadas pelos deuses do Olimpo.

Brito e Silva – Cartunista

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kkkBloco dos desesperançados

“Calma. É só aos poucos que o escuro fica claro”, cunhou o mineiro diplomata e poeta Guimarães Rosa. Não podia ser mais preciso. Entretanto, muitas almas – até bem-intencionadas – caminham apressadas sob o sol do Saara ao meio-dia, empunhando fachos de luz, sem perceber que, assim, luz e escuridão já não se distinguem.

Talvez eu – e certamente sou – um perfeito membro desse bloco de miseráveis que seguem cegos, portando lampiões, sem notar sua infame e arrogante ignorância. E quando por um milagre, concedido por algum deus zombeteiro do Olimpo, têm um lampejo, um rasgo de ciência, seguram uma vela acesa ao amanhecer, mas ainda assim duvidam da alvorada no horizonte – e, acreditando no lusco-fusco, acendem outra vela na mão direita.

Não sei – e talvez nunca saiba – se isso é pura arrogância ou uma humildade falseadamente disfarçada. Sempre que tenho oportunidade, quando estou errado, me rendo; me coloco diante da verdade, da informação correta, disposto a aprender para que no futuro não erre mais. Não como uma promessa juramentada, mas como um objetivo: não recair no mesmo pecado, não ajoelhar meus joelhos sobre os mesmos milhos.

Diz o velho ditado, lá no pé da serra do principado de Baixa do Chico: “Errar é humano, mas permanecer no erro é burrice”. Não seria assim tão insultuoso se a carapuça não me coubesse tão bem no quengo. Sim, isso mesmo: faço parte do bloco dos desesperançados, dos apequenados, daqueles que perambulam na escuridão do dia envoltos na névoa do prazer mediático. Um par de médicos desalmados me proibiu de comer meu pão-doce de cada dia. É verdade: digo, não estou curado, porém, há quinze dias me mantenho “limpo”. Entretanto, todos os dias, acendo uma vela a Deus e outra ao diabo.

Calma? Ora, Guimarães, quem sabe de mim sou eu!

Obs: O pecado não é estar com a “alma turva”, porém, não a querer límpida.

Brito e Silva – Cartunista

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Era Uma Vez

Ontem, depois de exercitar meu polegar no controle remoto, passeando pela Netflix de “A a Z”, quase nada chamou minha atenção. A exceção foi a série “Cem Anos de Solidão”, baseada no clássico homônimo do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura de 1982. Confesso: nunca li o livro! Ainda assim, estou saboreando a série como quem tem diante de si um pão doce com filetes de coco queimado. Cada pequeno pedaço é degustado vagarosamente, prolongando ao máximo o prazer e excitando as papilas gustativas. Assisto um ou dois capítulos e só volto dois ou três dias depois, para não acabar tão rápido.

Navego pelos incontáveis canais da Alaris, passo pela Netflix, mas invariavelmente termino no mesmo lugar: no YouTube. Não me perguntem por quê. A verdade é que, com minha memória propositalmente seletiva e autônoma, permito-me assistir um filme várias vezes como se fosse sempre a primeira vez. É um privilégio deliberado, confesso.

Ah! Tudo isso só aconteceu depois de ouvir o eterno “rei do iê-iê-iê”, Roberto Carlos, sussurrar “Detalhes” – porque, hoje em dia, ele já não canta, apenas murmura. Logo após, o comercial anunciava os próximos atos, que certamente, o espetáculo de penúria se intensificaria, corri para o YouTube. Foi lá que dei de cara com Claudia Cardinale, Charles Bronson, Henry Fonda e Jason Robards. Posicionei o travesseiro, apontei o dedo no “gatilho” e disparei: “Era Uma Vez no Oeste”.

É meu amigo Cefas Carvalho, às vezes, um bom “espaguete” é mesmo quem nos salva.

Brito e Silva – cartunista

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Reorganizando Memórias

Vasculhar meus arquivos com a ilusão de organizá-los cronologicamente é um exercício recorrente. Não que eu não consiga – até organizo – mas, quando termino, estão novamente desorganizados. Segundo uma amiga astróloga, que se apresenta como bisneta de uma cigana indiana, vinda dos Himalaias, lá de Shangri-La, discípula de Omar Cardoso, meu mapa astral revela uma tendência canceriana à organização e ao acolhimento das lembranças.

Como não acredito em nada, mas tampouco duvido da fé dos outros, sigo insistindo nesse penoso ritual. Gosto de revisitar fatos da minha vida. Sei que alguns dirão ser saudosismo e que o importante é viver o presente. A esses, respondo: o bom é ter histórias para lembrar e contar. Não importa se foram boas ou ruins; como canta o RC “o importante é que emoções eu vivi”.  Se você não tem nada para contar, talvez apenas tenha passado pela vida.

Pois muito bem. Mexendo nesses arquivos, encontrei um vídeo da época da TV e Jornal Rio Branco, que causou um verdadeiro reboliço no Acre durante a campanha política para o Senado de 1990. Na ocasião, eu era Diretor de Arte e Cenografia da emissora e fui “convidado” pelo sócio-majoritário, Narciso Mendes, a criar sua campanha. Tentei recusar, argumentando que não tinha experiência com campanhas políticas, mas ele insistiu. Dizia admirar os comerciais e artes que fazíamos para sua empresa, e, no fim, acabei convencido.

A diretora da TV, Nadja Farias, nos deu “carta branca” para o que fosse necessário. O jornalista Renato Severiano correu para sua máquina de escrever Olivetti, e eu, para a prancheta. Juntos, criamos as primeiras peças. Logo de início, causamos impacto. Era algo completamente diferente de tudo o que os outros candidatos veiculavam. Empolgado, decidi ousar e inovar de vez.

Naquela época, os comerciais políticos eram majoritariamente estáticos, feitos com cartelas ou vídeos simples, sem grandes inovações. Numa sexta-feira, esperei o dia inteiro pelo momento em que, finalmente, o programa “Jô Onze e Meia” terminaria. Lá, com o fuso horário de três horas, o programa ia ao ar às 21h30. Assim que acabou, o estúdio e os equipamentos ficaram à nossa disposição. Com Wesley na mesa de corte, Michael Jackson (não o cantor, o cinegrafista) operando duas câmeras e Maria auxiliando na produção, trabalhamos das 23h30 até às 5h da manhã. Com algumas cartolinas finalizamos um projeto ousado.

O sucesso foi imediato. No dia seguinte a veiculação, Naildo Mendes, diretor-geral da TV, veio até mim perplexo:

– Brito, como você fez essa peça? Estão dizendo que trouxemos uma caríssima equipe de publicitários de São Paulo e estão nos acusando Narciso de abuso de poder econômico!

Rindo, expliquei o truque:

– Peguei dois cartazes da campanha e colei cada um numa cartolina. Depois, cruzei duas linhas de nylon formando um “X” atrás de um dos cartazes, colei o segundo por cima e amarrei as pontas das linhas no teto do estúdio. Com as mãos, enrolava as linhas e soltava, fazendo com que os cartazes girassem com duas faces. Enquanto isso, as câmeras filmavam e o editor fazia os cortes. No fim de cada giro, corríamos para o switcher para ver o resultado, conseguimos cinco segundos de um giro sincronizado, resultado de seis exaustivas horas de trabalho.

Esse trabalho simples, mas inovador, nos rendeu manchetes e até apelidos. Passei a dar entrevistas em rádios e jornais, explicando o que chamavam de “ADO de Cozinha” – sendo o nosso improvisado “equipamento”, a combinação de muita paciência a e esforço criativo – na época parecia ter somente o tal A.D.O. a Rede Globo.

Brito e Silva – Cartunista

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Coração paterno

Nossa coluna na Papangu de novembro/2024

A recente indicação da Polícia Federal para que o Capitão Bufão, inelegível e inominável, fosse indiciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) gerou grande alvoroço nas páginas políticas e policiais dos mais importantes jornais e veículos de mídia do país. Porém, aqui na aldeia potiguar, outro fato igualmente perturbador, envolto em crueldade extrema, chocou a todos: o vídeo que circulou na internet mostrando um filho carregando, nas mãos, a cabeça de seu próprio pai, após tê-lo assassinado a golpes de facão.

A cena dantesca, repulsiva e de uma brutalidade inimaginável na vida real, parece algo que somente a ficção – sob a direção de mestres do terror como Alfred Hitchcock, John Carpenter ou Roman Polanski – poderia ser concebida. E, ainda assim, talvez nenhum deles ousasse torná-la tão explícita.

Este ato macabro confronta-nos diretamente com o “monstro do Lago Ness” que habita dentro de cada ser humano, uma face obscura que, felizmente, só se revela a poucos, os quais não se pode chamar esses indivíduos de “privilegiados”, pois encarar tal monstruosidade é algo tão horrível quanto inimaginável. Este terrível acontecimento trouxe à minha memória uma das “minióperas” de Vicente Celestino, que, em suas canções, desnudava toda a fragilidade e a complexidade humanas. A canção Coração Materno é especialmente emblemática:

Coração Materno

Disse um campônio a sua amada
Minha idolatrada, diga o que quer
Por ti vou matar, vou roubar
Embora tristezas me causes, mulher
Provar quero eu que te quero
Venero teus olhos, teu porte, teu ser
Mas diga tua ordem, espero
Por ti não importa, matar ou morrer
E ela disse ao compônio, a brincar
Se é verdade tua louca paixão
Partes já e pra mim vá buscar
De tua mãe inteiro o coração
E a correr o campônio partiu
Como um raio na estrada sumiu
E sua amada qual louca ficou
A chorar na estrada tombou
Chega à choupana o campônio
Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar
Rasga-lhe o peito o demônio
Tombando a velhinha aos pés do altar
Tira do peito sangrando da velha mãezinha
O pobre coração e volta a correr proclamando
Vitória, vitória tem minha paixão
Mais em meio da estrada caiu
E na queda uma perna partiu
E a distância saltou-lhe da mão
Sobre a terra, o pobre coração
Nesse instante uma voz ecoou
Magoou-se, pobre filho meu
Vem buscar-me filho, que aqui estou
Vem buscar-me, que ainda sou teu!

Não tenho dúvidas de que, em outro plano, a alma do pai decapitado murmuraria:
“Magoou-se, pobre filho meu? Vem buscar-me, que ainda sou teu.”

Assassinato

O plano para matar o Presidente do Brasil, seu vice e um ministro do Supremo Tribunal Federal, não causou tanta como comoção quanto a prisão da “enfluencer” Deolena, aonde algumas centenas miseráveis débeis mentais se aglutinaram na frente de uma penitenciária gritando o nome da criminosa. Como diz meu xamã lá de Baixa do Chico “há algo de podre do Reino da Dinamarca”.

Podre

Podre, podre sim. O Exército Brasileiro é golpista desde a construção da República, de lá até nossa era foram golpes atrás de golpes, sofremos pelos menos de golpes de estado. E se não fossem alguns generais legalistas, democratas viveríamos em ditadura militar.

Caso Isolado

            Estaremos fazendo parte da equipe do posdcast Caso Isolado, sob o comando do amigo Pedro Chê. Programa que fala de segurança pública de forma séria, com um pouco de ironia e humor, afinal, ninguém é de ferro.

Charge

A charge do Saci fará parte da exposição que estamos desenhando com Ailton Medeiros, diretor da Biblioteca Câmara Cascudo, para realização nos meses de fevereiro/março de 2025 ao lado juntamente com os cartunistas Brum e Joe Bonfim. Os três mosqueteiros de volta!

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Encontro

Por um desses encontros que jamais seriam previstos em qualquer agenda — traçados apenas pelo acaso, com régua e compasso — todas as possibilidades e perspectivas pareciam conspirar para a impossibilidade de sua realização. Ontem, fui encontrar o amigo Pedro Tchê para uma prosa na praça de alimentação do Carrefour. Ao chegar, deparei-me com um carro estacionado e, no volante, uma senhora que ouvia uma música. Sem pedir licença, aquelas ondas sonoras invadiram meus ouvidos, despertando o empoeirado baú das memórias e me transportando permitindo um breve encontro a minha infância já tão distante.


Por alguns instantes preciosos, senti minha alma plena, leve como uma pluma, quase flutuando. As lentes dos meus óculos estavam molhadas, embora não chovesse.
Com nitidez, visualizei minha mãe, dona Geralda, diante da Vitrola ABC Voz de Ouro Isabela V. Vi-a colocar cuidadosamente o disco de Francisco José, ajustar o braço da vitrola e posicioná-lo na segunda faixa. O som do atrito da agulha com o vinil era tão familiar quanto o reflexo do meu próprio rosto no espelho. Sentei-me ali, naquela memória, e ouvi “Canção do Mar”. Logo, fui arrancado desse devaneio pelo toque de um celular. Era a senhora que se sentara ao meu lado, agora ouvindo Gustavo Lima, a realidade dói.


Ao sair, ainda pude ouvir, no carro da senhorinha, os versos de “Canção do Mar”, agora interpretada por Fafá de Belém e Ana Laíns. Ah, aquele instante – de tão breve alegria e tão eterno – certamente, me acompanhará para sempre.


Brito e Silva – Cartunista