Inveja

Outro dia, na fila do Carrefour, alguém falava sobre inveja. Pelo sorriso dos presentes, foi apenas uma pilhéria. Como fiquei na missa sem ver o padre, passei a pensar na tal.
A inveja, entre os sete pecados capitais, talvez seja a mais ardilosa. A Bíblia diz que “o coração em paz dá vida ao corpo”, mas que a inveja é “podridão dos ossos”. Os antigos, convenhamos, não usavam de muita sutileza.
Quando o invejoso tem o ardil como natureza, raramente aparece de cara limpa. Vem disfarçado de elogio, carinho, preocupação ou até de uma piada – dessas que fazem rir por fora e cutucam a ferida por dentro. Para os estudiosos do borogodó, é uma das formas mais cruéis do pecado: camufla a intenção e quase não deixa à vítima espaço para defesa.
No dia a dia, percebo a sutileza e a tristeza de algumas pessoas, cuidadosamente seladas por uma felicidade cuja espessura não passa de um fio d’água em um pires. De tão transparente, um observador atento percebe a inveja cristalizada.
Talvez gente assim carregue frustrações, desamores e traumas – alguns reais, outros fabricados por neurônios que trabalham contra o próprio dono. E acaba destilando veneno em pequenas doses.
O diabo é que o veneno costuma fazer mais mal a quem o distribui do que a quem é destinado. Afinal, carregar a felicidade alheia como ofensa deve ser uma tarefa cansativa. Nem Sísifo aguentaria.
Mas o ser humano é difícil de entender. Freud tentou. Outros continuam tentando. E, pelo visto, ainda vão devastar muita floresta para fazer divãs.
Brito e Silva — Cartunista


