Todo mundo sabe tudo

Todo mundo sabe tudo

Nos longínquos anos 90, mais precisamente em 1992, resolvi montar um birô de arte ali na descida da Ponte Castelo Branco – desculpe o palavrão – onde hoje fica o 2º Ofício de Notas, em Mossoró. Comprei uma bela prancheta na Livraria Nordeste, cadeiras novinhas, um ar-condicionado valente, um estojo de canetas Nankin profissionais da Faber-Castell e papel de toda gramatura que existia. Maria, além também fazia desenho de arquitetura.

Deixamos o escritório nos trinques. O luxo de qualquer escritório: o computador. Compramos o que havia de mais avançado na loja de Paulo Maia – um PC arretado, com 4 MB de memória RAM, rodando Windows 3.1, aquela maravilha que por diversas vezes me obrigou a “ocupar” Santa Luzia rogando-lhe bênção para o MS-DOS funcionar. Parcelamos em três vezes sem juros, no bom e velho cheque pré-datado (se você não sabe o que é, procure no Google).

Chamei o amigo Cláudio pra instalar os programas: CorelDRAW, PageMaker e outras ferramentas milagrosas da época. Pronto! Estávamos tinindo, ávidos pra dominar o mercado mossoroense. E que fase boa aquela!

Numa bela manhã, aparece na porta um cabra com cara de quem fazia três refeições por dia e acha que devia ser o presidente da FIESP. Tomamos um cafezinho e ele foi direto ao ponto: queria uma logo e uma programação visual pra sua empresa. Conversa vai, conversa vem, não sei antes tentar me inflar com elogios, chegamos no preço.


Ixi, tá muito caro!
Não, amigo, é o valor de mercado.
Homi eu tenho um filho de 13 anos, comprei um “bicho” – o computador – e ele faz miséria!
– Resolvido! Deixe o menino fazer. Eu ainda não cheguei nesse estágio evolutivo de fazer miséria.

O sujeito levantou-se todo melindrado e foi embora.

Hoje, a coisa piorou. Antes eram só os “meninos gênios” de 13 anos. Agora, qualquer criatura que sabe abrir um Instagram acha que é designer, publicitário e filósofo tudo junto. O difícil, hoje em dia, é encontrar alguém que ainda tenha o luxo de dizer: “não sei”. Como disse o Raul SeixasE todo mundo explica tudo, como a luz acende, como um avião pode voar?

Brito e Silva – Cartunista

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