Artigo

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Marcus Lucena

A fauna cultural mossoroense e potiguar ficam mais empobrecidas com a partida, neste 5 de março, repentina do amigo Marcus Lucena um dos grandes divulgadores da arte e cultural nordestina.

Aqui nossa pequena homenagem a este grande músico mossoroense.

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Conheço o meu lugar

Conheço o meu lugar

“O que é que pode fazer o homem comum
Neste presente instante
Senão sangrar, tentar inaugurar
A vida comovida
Inteiramente livre e triunfante.”

Sou esse homem comum. Encaixo-me nesses versos do genial Belchior como luva que desliza pelos dedos de Ava Gardner, levando calor à pele branca e macia. E me pergunto: o que posso fazer neste instante senão sangrar? Sangrando, consciente da metáfora do “escorpião e o sapo”.

E, apesar de tudo, sou livre e triunfante. Talvez não inteiramente livre – ninguém o é, mas livre o suficiente para entender que a vida é mais do que dinheiro, mais do que likes, mais do que vender a fotografias editadas, mesmo coloridas não têm brilho, não têm alma, apenas uma “felicidade” dolorida. A vida é pra valer. E só tem uma – como já nos lembrou Vinícius de Moraes.

Sim, a vida é bela, sim senhor. Mas é preciso vivê-la sem pressa. Degustá-la respiração por respiração. Olhar ao redor. Rever o passado. Reconhecer os caminhos trilhados: as tristezas, as alegrias, as conquistas e as quedas que brotaram na jornada. Afinal, toda vitória nasce de batalhas: algumas vencidas com brilho, outras duras e sangrentas, porém as lutadas com honra, as flores de louros são mais verdes, mais viçosas.

Se é para vestir os versos como agasalho, digo: sou triunfante. Sim, triunfante. Minhas vitórias nunca precisaram humilhar ninguém e meu maior triunfo foi sobre minhas próprias fraquezas. Muitas vezes fui tentado a negar minhas origens – não o fiz. Pelo contrário: reafirmei-as. Como cantou Belchior: “Conheço o meu lugar”. Ética, honra e gratidão são esses valores que me fazem verdadeiramente triunfante. Há quem se afogue na soberba – esse vício curioso que faz alguém acreditar que brotou no deserto por obra e graça do acaso. Pobres amnésicos das próprias raízes.

E sigo como aquele cidadão comum “que a gente vê na rua”. Poderia cantar: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior…”. Mas agora, peço licença – póstuma – a Enéas para declarar: Meu nome é Brito. E conheço o meu lugar.

Brito e Silva – Cartunista

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Espelho

Na minha mesa há um espelho redondo, de pé, com hastes de aço inox e cerca de quinze centímetros de diâmetro – quem desenha sabe o porquê. Na maioria das vezes, ele passa despercebido. Mas, outro dia, eu estava concentrado desenhando a caricatura de um cliente e, inesperadamente, dei por mim olhando para o espelho. Não vi apenas meu reflexo: meu passado inteiro estava ali, exposto em cada ruga, em cada fio branco de cabelo. Estavam ali as noites a fio de trabalho em jornais e TVs, os cochilos sobre a prancheta e, claro, aquelas madrugadas de juventude pulsante, quando o amanhã parecia eterno. Como disse o poeta, a “aurora da minha vida” estava ali para me dizer que valeu a pena – apesar de tudo.

Claro, a velhice – a troisième âge, como dizem os franceses, gente elegantes até para falar velhice – ou a tal “melhor idade”, como insistem os marqueteiros vendedores de suplementos milagrosos e promessas de eterna juventude em cápsulas, chega sem pedir licença. Vem trazendo no corpo o peso do tempo e, na bagagem, algumas cicatrizes na alma. São marcas de dias de luta, lições de que tudo passa: vitórias, derrotas, amores e desamores. Quem aprendeu a ganhar e a perder, a peceber o que é importante, o que é e não é prioridade, acaba olhando o mundo com mais leveza, menos pressa, sabendo que o grande troféu – esse sim, sem patrocínio – é a própria vida.

Por isso, quando vejo esses moços reclamando de tudo e de todos, como quem busca uma metodologia infalível, uma cartilha definitiva ensinando a viver, lembro do Lupicínio Rodrigues: “Esses moços, pobres moços… Ah! Se soubessem o que eu sei”. Desde cedo descobri que há coisas que não coabitam: luz e escuridão, quando uma chega, a outra se apaga; bem e mal, quando um se impõe, o outro recua; amor e ódio. Já outras forças, igualmente antagônicas, fingem que vivem isolados, mas são inseparáveis: riqueza e pobreza, patrão e empregado, gratidão e ingratidão, solidariedade e indiferença, vaidade e cinismo…

No espelho, vi apenas alguém que não amealhou vil metal, não ficou sábio, ficou mais velho. Convenhamos, dá trabalho. Mas envelheceu com a dignidade intacta, nos dias de hoje, não é pouco coisa.

Brito e Silva – Cartunista.

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Obscenidade

Finalzinho de tarde eu Maria nos deixamos navegar pelos mares digitais do YouTube, quando avistamos um documentário sobre os 15 homens mais ricos do planeta. Aportamos, claro. Difícil resistir a um desfile de bilionários empavonados, pobres almas embevecidas da mais grotesca vaidade!

Minutos depois, senti enjoo, repulsa, e até uma certa compaixão involuntária por criaturas tão endinheiradas quanto ocas. Coitados: só têm palácios, iates, aviões e alguns amores em suas alcovas acetinadas, certamente ao custo de algumas centenas de milhares de dólares. Imagino que, talvez, só se sintam humanos, no único momento democrático da vida: quando sentam no vaso sanitário de ouro, e descobrem que o aroma peculiar do expelido é igual para todos.

Não terminei o documentário. O excesso de opulência quase me causou alergia. Maria, como sempre, arrematou “isso é velho. A história está cheia de exemplos, até na Bíblia: Salomão já vivia assim no seu suntuoso palácio com suas 700 esposas e 300 concubinas. Pronto. Como diziam os filósofos lá de Luzia do Ponto Frio, em “Moscow“ caiu a ficha”.

Depois disso, perdido em meus pensamentos, numa tentativa vã de entender ou talvez, me livrar definitivamente do asco que ainda permeava meu raquítico cérebro, decidi levar meu desconforto, aonde tudo se resolve, desde unha encravada às questões filosóficas mais profundas de onde viemos e pra onde vamos: o bar. Um copo d’água com gás – meu médico ficaria orgulhoso – e, num gole só, despejei no balcão o incômodo que o documentário tinha me deixado:

– Se esses 15 homens distribuíssem uma parte da fortuna, acabava a fome no mundo.

O universo nunca perde a oportunidade para enviar seus emissários. Na outra ponta do balcão, um típico representante da aristocracia burguesa do bairro, cabelos grisalhos desalinhados, bermuda branca, camisa de time de futebol americano, sandálias de dedo – e não eram havaianas – com uma dose de 51 como quem empunha uma fusta, acreditou que era sua deixa:


– Não funciona. Pobre é burro. Provo: nas universidades hoje só têm pobres por causa das cotas.  Aplausos. O bar inteiro concordou como lagartixa, como se ele tivesse acabado de citar Jesus Cristo. Para preservar minha integridade física e mental, mudei o rumo da prosa para o cotidiano dos sexagenários: dores nas articulações, remédios controlados, cansaço…

Adendo: A ONU e o Banco Mundial dizem que mais de um bilhão de pessoas vivem na pobreza. A desigualdade e a indiferença são obscenas: Enquanto isso, seguimos discutindo cotas, cachaça e vasos sanitários de ouro.

Brito e Silva – Cartunista

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Bugari

Bugari

Não tenho dúvida de que, entre todos os seres, nós, os humanos, fomos brindados com os sistemas mais frágeis do reino animal. Basta nos imaginar atravessando um deserto, famintos, sedentos, e encontrando uma poça d’água. Ao bebermos, cairíamos de cama, com risco de morte; qualquer bicho, por mais despretensioso, se refestelaria sem culpa. É a prova líquida da penúria do nosso sistema gástrico, e de todo o resto.

Enquanto isso, o urso pardo fareja uma carcaça a quilômetros; o elefante capta vibrações invisíveis no chão; uma águia, lá das alturas, enxerga uma presa a dois mil metros. E aí vêm outros humilhando nossa espécie: criaturas que voam, que correm a cem quilômetros por hora, que levantam quatro vezes o próprio peso como quem espirra, que passam semanas sem beber água. A lista é longa, e nossa autoestima vai ficando do tamanho de uma pulga, que, aliás, também pula melhor do que nós.

Sim, somos frágeis. Um vírus – que nem vivo é, pobre diabo – nos derruba, e às vezes nos leva a morta. Mas, apesar desse acervo de fraquezas, a natureza (Deus, para alguns; a evolução, para outros) resolveu compensar o estrago com uma habilidade exclusiva: um cérebro capaz de pensar, imaginar, criar e trapacear as limitações do próprio corpo. Não podemos voar? Pois já pisamos na Lua várias vezes. Não somos rápidos como a chita? Mas orbitamos a Terra na Estação Espacial a 40 mil km por hora. Nossa visão é um fiasco comparada à da águia? Talvez. Ainda assim, pelo James Webb, já espiamos a infância do universo.

E quanto ao olfato… bem, não somos urso, nem tubarão, nem cachorro vira-lata. Mas eles, coitados, não viajam no tempo com uma simples cheirada. Ontem mesmo, Maria me trouxe um ramo de bugari. No instante em que senti o perfume, fui transportado ao quintal da minha infância, lá nos Paredões, rua Augusto da Escóssia – a embaixada do Principado da Baixa do Chico. Vi Dona Geralda cuidando dos canteiros, das frutas, e dos muitos pés de bugari que perfumaram minha adolescência inteira.

Somos frágeis, é verdade. Mas, ainda assim, gosto dos humanos – claro, não de todos. Alguns, inclusive, nem parecem que são.

Brito e Silva – Cartunista

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Quem tem medo das mulheres?

Por Maria Kassimati:

O mundo é regido pelos homens há milênios, isso todos sabem. Nós, mulheres, regidas por eles, sempre estivemos em grande desvantagem com relação a tudo: patrimônio, cuidado com os filhos, afazeres domésticos, trabalho, sexo, voz… principalmente a voz.

Tentaram, e conseguiram por muito tempo, nos calar. Nossa voz sempre incomodou os homens fracos, inseguros com sua própria masculinidade. Houve inquisição, houve leis, ou a falta delas a nosso favor, e houve a conivência do Estado, da Igreja e da sociedade para com as injustiças cometidas contra as mulheres até os dias de hoje.

Parafraseando a Ministra do STF e do TSE, Carmem Lúcia, estivemos caladas por muito tempo, mas agora vão ter que nos ouvir. O feminismo conquistou, desde o início do século passado, vários direitos negados às mulheres e o mais importante deles foi termos direito a fazer ouvir a nossa voz: o que pensamos sobre tudo, o que sentimos e o que desejamos.

Esses direitos foram conquistados coletivamente, com a união das mulheres desde a luta pelo direito ao voto até a luta pela jornada de trabalho nas fábricas. Foi por meio de manifestações públicas, nas ruas e em locais de trabalho, através de greves, por exemplo, que direitos iguais aos homens foram alcançados pelas mulheres, não sem o sacrifício da vida de muitas.

Avançamos muito em pouco mais de um século, de fato. No entanto, sempre que houve ameaça à democracia nesse período, as primeiras a sofrerem sempre foram as mulheres, com a tentativa, pelos ditos conservadores, da retirada dos direitos já alcançados por nós. O conservadorismo nunca deixou de existir. Às vezes, ficava apenas como que adormecido, ou melhor, disfarçado, nos comentários machistas, nos programas de humor, no cinema, na televisão, na imprensa, no trabalho, nas ruas, nos bares e, como sempre, na Igreja.

Politicamente, o conservadorismo se reflete nos partidos, nas instituições públicas, como ministérios, câmara, senado e executivo, todos com presença majoritariamente de homens.

A representatividade feminina nas instituições de governo é mínima, a ponto de pautas a favor do direito das mulheres dificilmente chegarem a ser discutidas e muito menos votadas e, quando o são, vence o voto da maioria masculina.

Na sociedade, o conservadorismo, principalmente, mas não coincidentemente, saiu de sua caverna desde a vitória da única mulher a chegar na presidência deste país machista e misógino.

Pôde-se ver como a futura presidenta Dilma foi atacada por seus adversários, homens, por meio de frases e imagens machistas e misóginas, que não vou reproduzir aqui, pois todos lembramos dessa onda de ódio a uma candidata apenas por ser mulher, e não por ela ser de esquerda. O presidente anterior, Lula, um homem que sempre sofreu ataques da direita, jamais foi atacado por seu gênero, mesmo sendo fundador de um partido de esquerda que sobrevive com vitalidade até hoje e que está na presidência pela terceira vez.

Chegamos, então, ao golpe contra a presidenta Dilma, em 2016, apenas porque ela, uma mulher, não sucumbiu às alianças espúrias oferecidas a ela por políticos, todos homens, é claro. Os homens armaram e aplicaram esse golpe, sem que nenhum crime tenha sido cometido por essa mulher que, mesmo não sendo uma governante perfeita, sempre foi reconhecida por sua integridade e honestidade, tanto que nunca a acusaram de corrupção, a não ser de pedaladas fiscais que jamais aconteceram.

A misoginia foi escancaradamente oficializada, por assim dizer, a partir da votação para a cassação do mandato da presidenta Dilma, no momento em que um deputado do baixo clero, quase invisível até então, por sua completa incapacidade produtiva no legislativo, mesmo após seguidos anos sendo eleito para esse cargo, teve a ousadia de dizer a inesquecível frase misógina e golpista ao dar o seu voto a favor do impeachment da presidenta — a qual recuso-me a reproduzir aqui, mas que Dilma e todas nós jamais esqueceremos.

Ele saiu daquela votação ileso, sem que nenhuma punição regimental sofresse por tamanha violência discursiva contra uma mulher em pleno Congresso, televisionada nacionalmente e repetida à exaustão pela mídia hegemônica, cúmplice escancarada da misoginia explícita contra uma mulher pública.

Foi a partir desse momento vergonhoso e abjeto que esse deputado passou a ter visibilidade. Os políticos conservadores amaram sua “coragem” e muitos, que o ignoravam completamente, passaram a apoiá-lo, devido à visibilidade alcançada por aquele voto ignóbil e covarde. No entanto, ele e os outros misóginos naquele evento foram obrigados a ouvir a voz dessa mulher presidenta, deposta injustamente. Dilma enfrentou com altivez e coragem seus acusadores, sem titubear, sem derramar uma lágrima ou ter a voz embargada pela emoção – afinal ela havia passado por seguidas torturas por muito tempo quando mais jovem, nos porões da ditadura militar, pelas mãos de um militar repugnante e criminoso, a quem o tal deputado insignificante exaltou em seu voto a favor do impeachment da presidenta.

Com a impunidade daquele político misógino, deu-se o aval para que outros, que se seguiram a ele, passassem a perseguir em plenário deputadas que ousassem pautar temas relevantes para as mulheres, crianças e adolescentes. Seguindo esse exemplo, outros homens de todas as áreas da sociedade se sentiram à vontade para fazerem o mesmo com qualquer mulher por quem de alguma forma tortuosa se sentissem ameaçados, seja por sua beleza, assertividade, sucesso, independência ou por qualquer outro motivo absurdo e sem fundamento.

A partir da eleição daquele deputado do baixo clero para presidente, pelos conservadores machistas e misóginos, o machismo e a misoginia saíram do bueiro onde se escondiam até aquele momento e passaram a fazer parte do cotidiano não só da política nacional como também das redes sociais. Homens misóginos, inseguros de sua masculinidade e frustrados em seus relacionamentos sexuais e amorosos, passaram a usar discursos de ódio contra o feminismo e as mulheres, atribuindo ao movimento e a nós todas as suas dificuldades de relacionamento e fracassos em todas as áreas. Foi assim que Adão fez com Eva no mito bíblico da criação do mundo, como também fizeram com Pandora na mitologia grega clássica.

Chegamos a 2025 e em menos de uma semana, em novembro, nos deparamos com casos de misoginia explícita nos noticiários e redes sociais. A violência se mostrou nua e crua e sem pudor desde uma tentativa mal sucedida de estupro de uma namorada seguida de agressões físicas e verbais, passando por uma tentativa de feminicídio de um “ficante” ciumento que atropelou uma jovem e a arrastou por um quilômetro presa à traseira do carro, ocasionando a amputação das duas pernas da mulher, que está em estado grave, até o assassinato da esposa grávida e mais três filhos pequenos, num incêndio provocado por um ex-marido que não aceitou ser “rejeitado”.

Ainda houve mais dois feminicídios praticados por um mesmo homem, que não se conformava em ser chefiado por uma mulher, em uma escola federal no Rio de Janeiro. Aumentando essa lista tenebrosa, tivemos um outro homem, armado com duas pistolas, que atirou várias vezes na ex-companheira no local de trabalho dela.

Enquanto termino este artigo, certamente estará havendo mais feminicídios e outros tipos de violência contra a mulher, já que as estatísticas revelam que acontecem 10 feminicídios por dia no Brasil e, a cada 6 minutos, uma mulher é agredida por um homem em nosso país.

É preciso urgentemente que as instituições públicas e privadas, os cidadãos comuns, os legisladores e o governo tomem medidas para não só punirem os agressores, mas também para implantarem ações para impedir tais crimes. Do mesmo modo, é necessário criminalizar discursos de ódio de homens nas redes sociais, disfarçados de influenciadores, contra as mulheres, que só incentivam mais homens inseguros e fracos a praticarem violência contra nós.

Espera-se também que haja manifestações nos meios de comunicação contra essa barbárie e verdadeira caça às bruxas que estamos presenciando não só nesses últimos dias, mas sempre, por parte de Red Pills, Incels, MGTOWs e outros homens misóginos em geral que pregam a submissão da mulher ao homem, com aval explícito da Igreja, e veem a mulher como mero objeto de serviço e prazer e não como um ser humano.

Enquanto a sociedade não se conscientizar de que nós mulheres somos tão humanas quanto os homens – por vezes muito mais humanas que eles –, continuaremos a ser consideradas e tratadas como seres inferiores que não têm direito à voz, à liberdade de pensamento e de decisão sobre nossa própria vida ou a qualquer outro direito humano até aqui já conquistado por nós mesmas nos dois últimos séculos.

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A Culpa é da mulher?

Afirmar que a mulher já foi, é e continua sendo celebrada em verso e prosa é, de certo modo, dizer o óbvio. Contudo, é igualmente inegável, em proporção semelhante, quiçá superior, a discriminação a perseguiu desde os primórdios. A narrativa bíblica de Eva, responsabilizada pela “queda” e pela expulsão do paraíso, tatuou na figura feminina uma culpa modelar e persistente. Paradoxalmente, ao conceder a ela curiosidade, lucidez e capacidade de decisão ao comer o fruto proibido, lhe conferia, à primeira vista, uma suposta superioridade ao homem; mas, quando ampliamos os pixels, percebemos tratar-se de um artifício destinado para afastar Adão de qualquer culpabilidade. Defini-la como “auxiliadora e companheira”, cimenta-se a simbologia de uma desigualdade que cruza séculos e se cristaliza até os dias atuais.

Minha infância e juventude, por sua vez, foram moldadas pela força e pela presença das mulheres. Perdi minha mãe aos nove anos e, junto aos meus dois irmãos, fui acolhido por minha tia Geralda -mulher desquitada em uma época em que essa condição impunha um estigma severo. Helena – em memória – auxiliava nos afazeres domésticos e levava suas três filhas, Suely, Suelene e Silvana com quem criamos laços de profunda irmandade. A ausência paterna cotidiana – meu pai refez sua vida, mas essa é outra história – muito cedo aprendi a reconhecer e respeitar a mulher em toda a sua plenitude.

No meu primeiro emprego, em 1979, no jornal Gazeta do Oeste, minha chefia era uma mulher: Maria Emília. Anos depois, em Rio Branco, como diretor de Arte e Cenografia do Jornal e da TV Rio Branco, minha superior foi Nádia Faria, no O Mossoroense, por um breve tempo trabalhei sob a direção da ex-deputada Larissa Rosado. Sempre mantive com ambas uma relação pautada pelo mérito, pela liderança e pelo mais absoluto respeito.

Hoje, aos 66 anos, pai de três filhas e avô de cinco netas, mantenho convicção de nenhuma forma de violência à mulher é admissível. É repugnante o que se faz com Janja e Michele, enquanto isso, mulheres comuns são mortas a facadas, tiros, atropeladas, arrastadas por carros…

Brito e Silva – Cartunista

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Todo mundo sabe tudo

Todo mundo sabe tudo

Nos longínquos anos 90, mais precisamente em 1992, resolvi montar um birô de arte ali na descida da Ponte Castelo Branco – desculpe o palavrão – onde hoje fica o 2º Ofício de Notas, em Mossoró. Comprei uma bela prancheta na Livraria Nordeste, cadeiras novinhas, um ar-condicionado valente, um estojo de canetas Nankin profissionais da Faber-Castell e papel de toda gramatura que existia. Maria, além também fazia desenho de arquitetura.

Deixamos o escritório nos trinques. O luxo de qualquer escritório: o computador. Compramos o que havia de mais avançado na loja de Paulo Maia – um PC arretado, com 4 MB de memória RAM, rodando Windows 3.1, aquela maravilha que por diversas vezes me obrigou a “ocupar” Santa Luzia rogando-lhe bênção para o MS-DOS funcionar. Parcelamos em três vezes sem juros, no bom e velho cheque pré-datado (se você não sabe o que é, procure no Google).

Chamei o amigo Cláudio pra instalar os programas: CorelDRAW, PageMaker e outras ferramentas milagrosas da época. Pronto! Estávamos tinindo, ávidos pra dominar o mercado mossoroense. E que fase boa aquela!

Numa bela manhã, aparece na porta um cabra com cara de quem fazia três refeições por dia e acha que devia ser o presidente da FIESP. Tomamos um cafezinho e ele foi direto ao ponto: queria uma logo e uma programação visual pra sua empresa. Conversa vai, conversa vem, não sei antes tentar me inflar com elogios, chegamos no preço.


Ixi, tá muito caro!
Não, amigo, é o valor de mercado.
Homi eu tenho um filho de 13 anos, comprei um “bicho” – o computador – e ele faz miséria!
– Resolvido! Deixe o menino fazer. Eu ainda não cheguei nesse estágio evolutivo de fazer miséria.

O sujeito levantou-se todo melindrado e foi embora.

Hoje, a coisa piorou. Antes eram só os “meninos gênios” de 13 anos. Agora, qualquer criatura que sabe abrir um Instagram acha que é designer, publicitário e filósofo tudo junto. O difícil, hoje em dia, é encontrar alguém que ainda tenha o luxo de dizer: “não sei”. Como disse o Raul SeixasE todo mundo explica tudo, como a luz acende, como um avião pode voar?

Brito e Silva – Cartunista

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Odeio rodeio

Pronto, já vi uns incautos se esbaforindo, dedo em riste e cara de quem de quem comeu e não gostou. Calma, minha gente! Isso é só o título da música de Xico César, o resto é muito pior (ou melhor, depende do ouvido), por pura coincidência ouvi a canção no Dia do Nordestino. A música é uma crítica danada de boa, dessas com veneno, poesia e cunho social, indo muito além do rodeio em si ou da tal “música sertaneja” que, ironicamente, tem pouco de sertão.

Essa indústria sonora e equestre sufoca as verdadeiras tradições do homem do campo – o do gibão e da enxada, do aboio e da viola. O sertanejo mesmo, o raiz, o de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Guimarães Rosa, anda esquecido nos discos empoeirados das rádios comunitárias. E o pior: essa engrenagem toda faz girar o dinheiro de uns poucos, enquanto, lá na ponta, sempre tem um boi, um cavalo ou um cristão sentindo o estalo do “pimba de boi”. Como disse o poeta Bráulio Bessa: “Deus criou o passarinho e o homem inventou a gaiola.” Pois é – Deus liberta, o homem prende. Seja bicho, gente ou cultura.

Tô com Xico e não abro: também odeio rodeio e essa sofrência malfadada. Sei que é implicância (e um tantinho de preconceito musical), mas fico com Luiz Gonzaga, Jackson, João do Vale, Mazola, Gilberto Loia, Gustavo Monte, Geraldo Carvalho, Xangai, Chico, Gil, Caetano, Vinícius, Belchior… e por que não, Pink Floyd, Beatles e Bob Dylan? E ainda o potiguar Elino Julião e o Iremar Leite, lá de “Moscow” esses sim sabiam e sabem o tom afinado do couro da zabumba.

Meu domingo começava com o Globo Rural, mesmo sem nunca ter plantado um pé de coentro. Agora, passa também aos sábados deixando meus neurônios mais ariscos que bode na chuva. E pra completar, inventaram outro programa com esses que cantam com os “zóvus” apertados, sofrendo por amor e patrocinador. Cá com meus botões, penso que o Brasil, esse cabra moreno mulato de 8.510.000 km², tem cultura, arte e tradição de sobra. O que falta é coragem pra olhar pra dentro, é bem verdade, talvez, isso não renda grandes marcas patrocinadoras às Globos da vida.

No mais, reafirmo: odeio rodeio e música “sertaneja”. Podem atirar a primeira pedra.

Brito e Silva – Cartunista

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Saudade do 30

Hoje eu acordei com saudades de você. E não era sonho, era verdade. Logo cedo, a repórter da InterTV Cabugi em Mossoró me lembrou que, na cidade da Santa dos Olhos, o feriado do 30 de setembro. Data que pulsa no coração dos mossoroenses: em 1883, a capital do Oeste Potiguar libertou seus escravos, cinco anos antes da Lei Áurea. Desde então, a liberdade corre nas veias desse povo que aprendeu cedo a ser dono de si.

Ah, saudade… Saudade dos desfiles na Coronel Gurgel, quando a farda nova do Colégio Dom Bosco brilhava sob o sol, ao comando firme da professora Dagmar e do professor Filgueira. Saudade da pressa juvenil pelo fim da parada, para correr até a matinê do Clube Aceu, onde os acordes do conjunto – que hoje chamam de banda – Os Bárbaros faziam o salão inteiro vibrar. E nós, entre passos tímidos e sonhos imensos, dançávamos o amanhã sem saber.

Hoje, a saudade personificou-se, quando dei o play na lista de músicas para começar o dia. Bastaram os primeiros acordes de “Ela”, de Antônio Marcos, para um pingo de lembrança escorrer pelo canto do olho. Naquele tempo, quando Os Bárbaros cantavam “Ela”, ninguém ficava quieto: era o convite para atravessar o salão e buscar uma parceira de dança.

Os poetas, esses românticos que choram nos bares, costumam dizer que saudade é coisa boa, sinal de que se viveu algo que valeu a pena.

E eu digo mais: vivas à saudade, viva o 30 de setembro, vivas à liberdade!

Brito e Silva – Cartunista

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A Vila Que Me Fez Ver o Mundo

Outro dia, ouvi um provérbio africano que me catapultou a um tempo distante – mais de seis décadas e meia – mas que ainda guardo ao alcance da mão:
“É preciso uma vila inteira para educar uma criança.”

Foi impossível não voltar à adolescência, quando cada pequena experiência ajudava a moldar quem sou. Lembro das noites voltando do colégio Dom Bosco ou dos almoços em família, quando minha mãe, Dona Geralda, lançava frases que ecoam até hoje:“Respeite a todos, mas não baixe a cabeça pra ninguém. Não escolha seus inimigos, mas escolha bem suas armas. Não grite: diga com firmeza. Não queira apenas acreditar, mas aprender.”

Na época, eu as ouvia como música de fundo – enquanto me cercava de Chico Buarque, Caetano Veloso, Vinícius de Moraes, Gilberto Gil, Zé Ramalho.
Eu ouvia, mas não escutava de verdade. Talvez porque, mais que conselhos ou canções, eu precisava de uma “vila”.

Dias atrás, dois conhecidos me perguntaram o que achava da condenação de Jair Bolsonaro. Respondi e ouviram em coro: “Logo vi, você é vermelho”, e riram. Também ri. Não do fato, mas do riso deles. E, lembrando Guilherme Arantes, pensei: “Como é triste o riso dos ignorantes.”O que faltou a eles foi isso: uma vila. Em 1979, ao entrar no departamento de arte e diagramação do jornal Gazeta do Oeste, encontrei a minha. Luiz Alves, o “Velho”, me ensinou a olhar além da superfície: a entender capital e trabalho, salário e dignidade, democracia e ditadura. Talvez eu tenha absorvido só uma parte, mas foi o bastante para me tornar mais humano.

O “Velho”, apesar de uma vida inteira de lutas, segue sendo, acima de tudo, um humanista. Na ocasião do lançamento do livro “Abicar de lutar, jamais!”, do historiador Lemuel Rodrigues e cooperação do amigo jornalista Caio Cesar Muniz, mais uma vez me senti acolhido. Obrigado, “Velho”.

Brito e Silva – Cartunista

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Preço e valor

Outro dia dei um Google para entender a diferença entre PREÇO e VALOR. Queria uma resposta daquelas que coachs têm entusiasticamente na ponta da língua, com direito a metáforas e jargões motivacionais: “Você não é caro, você é raro!”, coisas assim que faz você correr à Amazon e comprar livros Philip Kotler. Eu só queria saber se aquilo que eu faço ou vendo vale mais do que o mercado insiste em pagar – e, de quebra, descobrir afinal o que é esse tal de valor agregado. Spoiler: nem o Google soube me explicar sem me deixar zonzo.

É verdade. A definição até veio bonitinha, cheia de firulas acadêmicas: “Preço é quantia monetária objetiva, resultado de fatores de mercado. Valor é percepção subjetiva, benefício, experiência emocional”. Traduzindo para o português, cantado lá, nos Paredões, na embaixada do Principado de Baixa do Chico: PREÇO é quando você quer comprar; VALOR é quando você quer vender.
Funciona assim:
– “Nossa, que trabalho lindo, você é um verdadeiro artista, parabéns, maravilhoso, incrível, divino, quase Michelangelo!” Isso é VALOR.
Logo depois vem o:
– “Mas tá caro…” isso é PREÇO.
Aprendi faz tempo a não vender meu trabalho, porque sei o quanto custou pra mim. No fim, sucumbo e acabo recebendo uma merreca simbólica, e a pessoa vai usufruir daquele trabalho até o fim dos tempos. Eu, no máximo, fico com a sensação de ter feito um empréstimo vitalício da minha própria arte, passo a ser um “mutuário” um “tomador” sem direito a resgate.

O problema é que tem gente que só enxerga preço. Vive com calculadora na cabeça: no arroz, no vestido, no passeio, até no casamento. Olham pro sol e não veem luz, veem a conta de energia. Olham no espelho e, no lugar do rosto, aparece o cifrão. Essa turma acredita piamente que até a imortalidade terá um QR Code com o valor parcelado em 12 vezes sem juros.

Pobres diabos, autoprecificados.

Brito e Silva – Cartunista.

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Nocaute

Nocaute

Desde muito cedo percebi – ou fui persuadido – de que existem forças superiores. Não aquelas abstratas, naturais ou religiosas, mas forças reais e palpáveis, bem ao alcance da mão. Forças que se expressavam, por exemplo, através de chinelas havaianas. Foi nesse contexto que decidi escolher melhor as minhas batalhas e avaliar com cuidado quais, de fato, valiam a pena ser travadas.

Moldei minhas atitudes considerando sempre a lógica da ação e reação. Assim, me tornei mais conciliador, mais racional, alguém que busca manter o equilíbrio para não “perder a linha”, evitando entrar em brigas inúteis ou em discussões miúdas. Confesso que, após 66 anos, fiz poucos inimigos – pelo menos visíveis, já que sempre há os ocultos – e talvez a mesma equivalência de amigos. Em suma: muito poucos. Afinal, também não sou um Roberto Carlos ou algum “influencer da vida”.

Por onde passei, procurei deixar rastros que me permitissem voltar, caso fosse necessário. Sempre busquei a tolerância como guia, mas nunca de forma passiva. Poucas vezes levei desaforo para casa e, quando instado a lutar, não fugi. Como disse Madiba: “Nunca perco. Ou ganho, ou aprendo”.

Mas, recentemente, fui traído pela vaidade. Acreditava-me imune à arrogância, à intolerância e ao desequilíbrio. No entanto, depois de ouvir Cortella falar sobre a “imediatricidade” das redes – essa pressa que alimenta a violência – foi como receber um gancho de esquerda no queixo do próprio Mike Tyson. Caí nocauteado. Restabelecido, percebi que, nos últimos tempos – dias, meses, anos, talvez décadas – fui envolvido pela névoa das redes. Passei a reagir mais do que refletir. A responder a tudo e a todos com argumentos tão artificiais quanto a velocidade exigida pelos algoritmos que nos manipulam, mergulhei com mais ferocidade ao “pense isso, do que o pense nisso”.

Se existe um culpado pelo meu comportamento, seria a “rede”? Talvez sim, talvez não. O fato é que eu não sou assim. E, se sou, entrando em qualquer contenda rasa, não é assim que quero ser. Fui!

Brito e Silva – Cartunista

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Bolsonaro: A Tragédia Anunciada

Ao observar o deputado Eduardo Bolsonaro em sua sanha desesperada para livrar o pai criminoso da cadeia, tentando vender descaradamente a soberania nacional ao extremista presidente dos Estados Unidos, não pude deixar de lembrar de uma conversa que tive com um amigo petista. Ele, à época, cogitava se candidatar à prefeitura de Natal. Perguntei se a esquerda e o campo progressista não teriam, ao menos em parte, alguma responsabilidade no surgimento e fortalecimento do fenômeno bolsonarista. Com certo desdém, ele respondeu: “Isso é um fenômeno da extrema-direita no mundo”.

Ocorre que negar O problema é também colaborar para que ele se repita. Em um trecho da aula “Sementes do Caos”, do professor João Cezar de Castro Rocha, no ICL, ele relata episódios surrealistas nos acampamentos em frente aos quartéis: fiéis orando para um pneu murcho, outros levantando celulares como se esperassem um sinal dos extraterrestres pedindo a permanência de Bolsonaro na Presidência. Mas o que mais me chamou atenção foi sua observação final: “A tendência do campo progressista ou da esquerda democrática é apenas achar graça, achar divertir, lamentar o delírio. Mas quando o delírio abraça, aprisiona e sequestra milhões de pessoas, delírio mais não é: é parte objetiva do cenário político.”

A psicologia nos ensina que o primeiro passo para resolver um problema é reconhecê-lo. Por isso, insisto: como é possível que um homem de tamanha nulidade intelectual – expulso do Exército por má conduta, classificado por Ernesto Geisel como “um mau militar” – tenha se tornado vereador, deputado federal por 28 anos e presidente da República?

Na Câmara Federal, Bolsonaro era conhecido como um deputado folclórico do baixo clero. Suas falas grotescas e seus ataques à democracia eram ignorados por muitos, tratados como piada. Relembro algumas declarações: “A atual Constituição garante a intervenção das Forças Armadas para a manutenção da lei e da ordem”, “Sou a favor, sim, de uma ditadura, de um regime de exceção”, “Pobre só serve para votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso”, “Eu sou favorável à tortura”, “Se eu for presidente, sairemos do Comitê de Direitos Humanos da ONU, que é um antro de comunistas”.

Riram. Acharam engraçado. Subestimaram uma figura que, embora incompetente e improdutiva – com apenas três projetos aprovados em quase três décadas, acabou conduzindo o país a um dos períodos mais sombrios de sua história recente. Agora, somos forçados a enfrentar as consequências de seus crimes, como o tarifaço imposto por Donald Trump, fruto direto das negociatas antinacionais promovidas por seu filho e esse grupo

Sim, algum naco de negligência está em nossa comanda. Cadeia aos criminosos!!!

Brito e Silva – Cartunista

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Tâmaras

Hoje, cedinho, na fila do pão do Carrefour — fonte que mina minhas histórias desinteressantes como cacimba de rio de leito seco — alguém falava sobre tolerância zero, com sei lá o quê. O assunto claramente não me fisgou, porque não ouvi absolutamente nada. Talvez algum deus caviloso tenha me dispersado, desviando minha atenção para a música que começava a tocar: “É preciso saber viver…”, o que, de certo modo, me colocou numa conversa sem saber do que se tratava.

No entanto, era só eu e meus pensamentos. “Tolerância zero”, traduzido ao pé da letra, carrega uma radicalidade total e inequívoca. E parece mesmo ser o espírito do tempo: todos respondem, ninguém pergunta; todos têm certezas, ninguém tem dúvidas. Às vezes fico acabrunhado com tanta gente vivendo sob a ilusão de uma felicidade cultivada como promessa, aguada uma certa esperança de florir no próximo sol, sempre d’um horizonte distante.

É como quem planta tâmaras. O prazer não está em comê-las, mas no ato de plantar, cultivar, regar, acompanhar o crescimento viçoso. Há uma sabedoria silenciosa em quem entende que a felicidade não mora no “mercado futuro”, mas no agora, no instante que se vive.

Portanto, plante tâmaras. Cuide delas com paciência. Adube, regue, capine a intolerância que cresce como erva daninha. Vivencie o prazer do presente, mesmo que miúdo seja. E se em algum momento bater a vontade de chutar o balde e “Que tudo mais vá pro inferno”, “E quando estiver mais triste, mas triste que não tem jeito, quando de noite der vontade de se matar”, vá Embora pra Pasárgada ou cante “É precisa saber viver”.

Brito Silva – Cartunista

Um adendo: “Como é bom poder tocar um instrumento”. Diz Caetano.