A culpa não é do mordomo

Moro em Natal desde 1999. Ou seja, já completei bodas de prata com as enchentes da cidade. São 26 anos assistindo, com a paciência de um monge tibetano e o espanto de um turista desavisado, às lagoas de captação pluvial transbordarem como se fossem enchentes do Rio Mossoró, nos 80, de água barrenta, invadindo casas, ruas e memórias.
A cada temporada de chuvas, o enredo é o mesmo: moradores tirando água com balde, móveis boiando como se tivessem aprendido a nadar, e aquele coro uníssono de ladainhas culpando o prefeito da vez. É um teatro de horrores com roteiro velho “sambado”. E, curiosamente, os mesmos atores perplexos com cada ato grotesco.
Mas sejamos justos: a culpa não é de São Pedro, nem de Tupã, muito menos do travesso El Niño. A culpa tem CPF, colarinho branco e cargo público. É do prefeito atual, Paulinho Freire. Do anterior, Álvaro “Cloroquina” Dias. E do antes desses, Carlos “Cabeção” Eduardo Alves e todos os outros antecessores.
Só que tem um personagem coadjuvante nesse drama que merece mais atenção: o povo. Ah, o povo! Talvez acometido da chamada Síndrome de Estocolmo Eleitoral, aquele distúrbio que faz a vítima se apaixonar pelo próprio algoz. Só isso explica a devoção com que vota, reza e reelege os mesmos nomes com a fé de quem joga na Tele Sena achando que “agora vai”.
No fim, tudo vira um ciclo: o eleitor transfere a responsabilidade ao político; o político, assim que senta na cadeira, sofre amnésia súbita; o eleitor esquece em quem votou e, quando a água entra pela porta da frente, volta a maldizer no WhatsApp os políticos e, até Deus, por tamanha mazela.
Chove, a cidade alaga, as promessas evaporam com os primeiros raios de sol. Moradores perdem móveis, lembranças, paciência. E o que ganham? Lama no acima do mocotó, do quintal à porta da rua e a certeza de que ano que vem será igual.
É triste? É. Muito. Mas… …A culpa não é do mordomo!!!
Brito e Silva – Cartunista


