Quem tem medo das mulheres?

Por Maria Kassimati:
O mundo é regido pelos homens há milênios, isso todos sabem. Nós, mulheres, regidas por eles, sempre estivemos em grande desvantagem com relação a tudo: patrimônio, cuidado com os filhos, afazeres domésticos, trabalho, sexo, voz… principalmente a voz.
Tentaram, e conseguiram por muito tempo, nos calar. Nossa voz sempre incomodou os homens fracos, inseguros com sua própria masculinidade. Houve inquisição, houve leis, ou a falta delas a nosso favor, e houve a conivência do Estado, da Igreja e da sociedade para com as injustiças cometidas contra as mulheres até os dias de hoje.
Parafraseando a Ministra do STF e do TSE, Carmem Lúcia, estivemos caladas por muito tempo, mas agora vão ter que nos ouvir. O feminismo conquistou, desde o início do século passado, vários direitos negados às mulheres e o mais importante deles foi termos direito a fazer ouvir a nossa voz: o que pensamos sobre tudo, o que sentimos e o que desejamos.
Esses direitos foram conquistados coletivamente, com a união das mulheres desde a luta pelo direito ao voto até a luta pela jornada de trabalho nas fábricas. Foi por meio de manifestações públicas, nas ruas e em locais de trabalho, através de greves, por exemplo, que direitos iguais aos homens foram alcançados pelas mulheres, não sem o sacrifício da vida de muitas.
Avançamos muito em pouco mais de um século, de fato. No entanto, sempre que houve ameaça à democracia nesse período, as primeiras a sofrerem sempre foram as mulheres, com a tentativa, pelos ditos conservadores, da retirada dos direitos já alcançados por nós. O conservadorismo nunca deixou de existir. Às vezes, ficava apenas como que adormecido, ou melhor, disfarçado, nos comentários machistas, nos programas de humor, no cinema, na televisão, na imprensa, no trabalho, nas ruas, nos bares e, como sempre, na Igreja.
Politicamente, o conservadorismo se reflete nos partidos, nas instituições públicas, como ministérios, câmara, senado e executivo, todos com presença majoritariamente de homens.
A representatividade feminina nas instituições de governo é mínima, a ponto de pautas a favor do direito das mulheres dificilmente chegarem a ser discutidas e muito menos votadas e, quando o são, vence o voto da maioria masculina.
Na sociedade, o conservadorismo, principalmente, mas não coincidentemente, saiu de sua caverna desde a vitória da única mulher a chegar na presidência deste país machista e misógino.
Pôde-se ver como a futura presidenta Dilma foi atacada por seus adversários, homens, por meio de frases e imagens machistas e misóginas, que não vou reproduzir aqui, pois todos lembramos dessa onda de ódio a uma candidata apenas por ser mulher, e não por ela ser de esquerda. O presidente anterior, Lula, um homem que sempre sofreu ataques da direita, jamais foi atacado por seu gênero, mesmo sendo fundador de um partido de esquerda que sobrevive com vitalidade até hoje e que está na presidência pela terceira vez.
Chegamos, então, ao golpe contra a presidenta Dilma, em 2016, apenas porque ela, uma mulher, não sucumbiu às alianças espúrias oferecidas a ela por políticos, todos homens, é claro. Os homens armaram e aplicaram esse golpe, sem que nenhum crime tenha sido cometido por essa mulher que, mesmo não sendo uma governante perfeita, sempre foi reconhecida por sua integridade e honestidade, tanto que nunca a acusaram de corrupção, a não ser de pedaladas fiscais que jamais aconteceram.
A misoginia foi escancaradamente oficializada, por assim dizer, a partir da votação para a cassação do mandato da presidenta Dilma, no momento em que um deputado do baixo clero, quase invisível até então, por sua completa incapacidade produtiva no legislativo, mesmo após seguidos anos sendo eleito para esse cargo, teve a ousadia de dizer a inesquecível frase misógina e golpista ao dar o seu voto a favor do impeachment da presidenta — a qual recuso-me a reproduzir aqui, mas que Dilma e todas nós jamais esqueceremos.
Ele saiu daquela votação ileso, sem que nenhuma punição regimental sofresse por tamanha violência discursiva contra uma mulher em pleno Congresso, televisionada nacionalmente e repetida à exaustão pela mídia hegemônica, cúmplice escancarada da misoginia explícita contra uma mulher pública.
Foi a partir desse momento vergonhoso e abjeto que esse deputado passou a ter visibilidade. Os políticos conservadores amaram sua “coragem” e muitos, que o ignoravam completamente, passaram a apoiá-lo, devido à visibilidade alcançada por aquele voto ignóbil e covarde. No entanto, ele e os outros misóginos naquele evento foram obrigados a ouvir a voz dessa mulher presidenta, deposta injustamente. Dilma enfrentou com altivez e coragem seus acusadores, sem titubear, sem derramar uma lágrima ou ter a voz embargada pela emoção – afinal ela havia passado por seguidas torturas por muito tempo quando mais jovem, nos porões da ditadura militar, pelas mãos de um militar repugnante e criminoso, a quem o tal deputado insignificante exaltou em seu voto a favor do impeachment da presidenta.
Com a impunidade daquele político misógino, deu-se o aval para que outros, que se seguiram a ele, passassem a perseguir em plenário deputadas que ousassem pautar temas relevantes para as mulheres, crianças e adolescentes. Seguindo esse exemplo, outros homens de todas as áreas da sociedade se sentiram à vontade para fazerem o mesmo com qualquer mulher por quem de alguma forma tortuosa se sentissem ameaçados, seja por sua beleza, assertividade, sucesso, independência ou por qualquer outro motivo absurdo e sem fundamento.
A partir da eleição daquele deputado do baixo clero para presidente, pelos conservadores machistas e misóginos, o machismo e a misoginia saíram do bueiro onde se escondiam até aquele momento e passaram a fazer parte do cotidiano não só da política nacional como também das redes sociais. Homens misóginos, inseguros de sua masculinidade e frustrados em seus relacionamentos sexuais e amorosos, passaram a usar discursos de ódio contra o feminismo e as mulheres, atribuindo ao movimento e a nós todas as suas dificuldades de relacionamento e fracassos em todas as áreas. Foi assim que Adão fez com Eva no mito bíblico da criação do mundo, como também fizeram com Pandora na mitologia grega clássica.
Chegamos a 2025 e em menos de uma semana, em novembro, nos deparamos com casos de misoginia explícita nos noticiários e redes sociais. A violência se mostrou nua e crua e sem pudor desde uma tentativa mal sucedida de estupro de uma namorada seguida de agressões físicas e verbais, passando por uma tentativa de feminicídio de um “ficante” ciumento que atropelou uma jovem e a arrastou por um quilômetro presa à traseira do carro, ocasionando a amputação das duas pernas da mulher, que está em estado grave, até o assassinato da esposa grávida e mais três filhos pequenos, num incêndio provocado por um ex-marido que não aceitou ser “rejeitado”.
Ainda houve mais dois feminicídios praticados por um mesmo homem, que não se conformava em ser chefiado por uma mulher, em uma escola federal no Rio de Janeiro. Aumentando essa lista tenebrosa, tivemos um outro homem, armado com duas pistolas, que atirou várias vezes na ex-companheira no local de trabalho dela.
Enquanto termino este artigo, certamente estará havendo mais feminicídios e outros tipos de violência contra a mulher, já que as estatísticas revelam que acontecem 10 feminicídios por dia no Brasil e, a cada 6 minutos, uma mulher é agredida por um homem em nosso país.
É preciso urgentemente que as instituições públicas e privadas, os cidadãos comuns, os legisladores e o governo tomem medidas para não só punirem os agressores, mas também para implantarem ações para impedir tais crimes. Do mesmo modo, é necessário criminalizar discursos de ódio de homens nas redes sociais, disfarçados de influenciadores, contra as mulheres, que só incentivam mais homens inseguros e fracos a praticarem violência contra nós.
Espera-se também que haja manifestações nos meios de comunicação contra essa barbárie e verdadeira caça às bruxas que estamos presenciando não só nesses últimos dias, mas sempre, por parte de Red Pills, Incels, MGTOWs e outros homens misóginos em geral que pregam a submissão da mulher ao homem, com aval explícito da Igreja, e veem a mulher como mero objeto de serviço e prazer e não como um ser humano.
Enquanto a sociedade não se conscientizar de que nós mulheres somos tão humanas quanto os homens – por vezes muito mais humanas que eles –, continuaremos a ser consideradas e tratadas como seres inferiores que não têm direito à voz, à liberdade de pensamento e de decisão sobre nossa própria vida ou a qualquer outro direito humano até aqui já conquistado por nós mesmas nos dois últimos séculos.


