Odeio rodeio

Pronto, já vi uns incautos se esbaforindo, dedo em riste e cara de quem de quem comeu e não gostou. Calma, minha gente! Isso é só o título da música de Xico César, o resto é muito pior (ou melhor, depende do ouvido), por pura coincidência ouvi a canção no Dia do Nordestino. A música é uma crítica danada de boa, dessas com veneno, poesia e cunho social, indo muito além do rodeio em si ou da tal “música sertaneja” que, ironicamente, tem pouco de sertão.
Essa indústria sonora e equestre sufoca as verdadeiras tradições do homem do campo – o do gibão e da enxada, do aboio e da viola. O sertanejo mesmo, o raiz, o de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Guimarães Rosa, anda esquecido nos discos empoeirados das rádios comunitárias. E o pior: essa engrenagem toda faz girar o dinheiro de uns poucos, enquanto, lá na ponta, sempre tem um boi, um cavalo ou um cristão sentindo o estalo do “pimba de boi”. Como disse o poeta Bráulio Bessa: “Deus criou o passarinho e o homem inventou a gaiola.” Pois é – Deus liberta, o homem prende. Seja bicho, gente ou cultura.
Tô com Xico e não abro: também odeio rodeio e essa sofrência malfadada. Sei que é implicância (e um tantinho de preconceito musical), mas fico com Luiz Gonzaga, Jackson, João do Vale, Mazola, Gilberto Loia, Gustavo Monte, Geraldo Carvalho, Xangai, Chico, Gil, Caetano, Vinícius, Belchior… e por que não, Pink Floyd, Beatles e Bob Dylan? E ainda o potiguar Elino Julião e o Iremar Leite, lá de “Moscow” esses sim sabiam e sabem o tom afinado do couro da zabumba.
Meu domingo começava com o Globo Rural, mesmo sem nunca ter plantado um pé de coentro. Agora, passa também aos sábados deixando meus neurônios mais ariscos que bode na chuva. E pra completar, inventaram outro programa com esses que cantam com os “zóvus” apertados, sofrendo por amor e patrocinador. Cá com meus botões, penso que o Brasil, esse cabra moreno mulato de 8.510.000 km², tem cultura, arte e tradição de sobra. O que falta é coragem pra olhar pra dentro, é bem verdade, talvez, isso não renda grandes marcas patrocinadoras às Globos da vida.
No mais, reafirmo: odeio rodeio e música “sertaneja”. Podem atirar a primeira pedra.
Brito e Silva – Cartunista


