Charges

0

Trair e coçar

Há uma máxima que circula com a naturalidade das coisas erradas que viram hábito: “trair e coçar é só começar”. A frase, grudenta como piche em bunda de vira-lata, serve de muleta moral para uma das práticas mais antigas – e menos nobres – da humanidade. Não por acaso, o deputado Rogério Carvalho evocou algo nessa linha ao comentar os episódios recentes no Senado e no Congresso, envolvendo a rejeição de indicação ao STF e a derrubada de veto da dosimetria. No fundo, não se tratava apenas de política; era mais um capítulo da velha novela da conveniência.

Falar de traidores, no entanto, é quase redundância histórica. O Brasil — e o mundo — sempre foi pródigo em personagens que vestem ideais como quem troca de camisa: liberais de ocasião, religiosos de vitrine, “homens de bem” de discurso e moral frouxa. A filosofia antiga tratava o tema com uma brutalidade que hoje nos arrepia: quem renegava sua pátria ou seus valores pagava com a própria vida. Era a coerência levada ao extremo – ou a barbárie travestida de justiça, dependendo do olhar.

Mas não, não precisamos de fogueiras nem guilhotinas. Nosso tempo, com todas as suas contradições, inventou uma punição talvez mais cruel: o esquecimento. Ser apagado da memória coletiva, jogado no limbo dos irrelevantes. É o purgatório dos que já foram importantes.

E como se executa essa pena moderna? Ora, surpreendentemente simples e subestimado: o voto. Esse pequeno gesto tem o poder de erguer e enterrar carreiras. Eis a verdadeira catacumba democrática. A história, aliás, já mostrou esse mecanismo em ação. Pessoas outrora poderosas hoje, silhuetas fantasmagóricas vagam tentando reacender uma luz, há certa ironia nisso: a mesma exposição que um dia lhes deu palco agora revela que não sobrevivem à luz.

Então, sim, use seu voto. Não como vingança, mas como memória ativa. Estaremos imunes as traições? Claro que não. Nem as maiores referências morais da humanidade escaparam. A diferença é que, hoje, temos a chance de responder – não com pedras, espadas e guilhotinas, mas com algo muito mais civilizado e, convenhamos, igualmente implacável: o voto consciente.

Brito – Cartunista

0

Bozo na Papuda

Outro dia publiquei uma charge com o Capitão Cagão na Papuda. Não deu cinco minutos e surgiu um bolsominion de quatro costados, relinchando, chamando-me de ignorante e “mal informado”, jurando de pés juntinhos que ex-presidente não iria para Papuda.

Discutir com bolsonarista não é coragem, é insalubridade mental. Ou tentam lhe puxar para o chiqueiro ideológico deles, ou partem direto para a agressão, verbal ou física. Fiz o mais sensato: concordei, encerrei e joguei uma pá de cal na conversa.

Hoje, ironias da História, as manchetes do país inteiro anunciam Bolsonaro – perdoem o palavrão – com novo endereço no complexo da Papuda. Um puxadinho exclusivo, apelidado carinhosamente de “papudinha”.

A charge, ao que parece, apenas se adiantou aos fatos.

0

Por que choras?

Que sou um chorão de quatro costados, todo mundo – e os filhos de seu Raimundo – já sabem. Já escrevi bastante sobre isso. Ora, cá estou eu me achando: quem, em sã consciência, perde tempo com meus escritos? Mas é fato: choro até com beijo de novela. Outro dia, exercitando meu polegar no controle remoto e navegando pelo YouTube, encontrei um podcast em que um baixista comentava um vídeo de Dominguinhos lavando com lágrimas sua sentida sanfona tocando A Triste Partida, de Patativa do Assaré e Luiz Gonzaga, gravada em 1964.

Sim, eu choro mesmo. E não tenho o menor constrangimento. Alguns podem dizer que é coisa de quem já cruzou o Cabo da Boa Esperança. Ledo engano. Lá em casa já diziam que eu era emotivo, e por muito tempo acreditei que isso fosse fraqueza. Confesso: tentei segurar as lágrimas muitas vezes. Até entender que não, que era apenas humanidade.

O filósofo renascentista Michel de Montaigne valorizava a fragilidade como parte essencial da experiência humana. Para ele, o choro não era vergonha, mas expressão da nossa vulnerabilidade. Jean-Jacques Rousseau, no século XVIII, via a emoção como sinal de autenticidade: quem chora não foi endurecido pela sociedade — é uma alma ainda ligada à sua essência. Nietzsche, por sua vez, enxergava na intensidade das emoções a própria afirmação da vida. O choro, nesse sentido, poderia ser vitalidade, não só lamento, mas também força criadora.

Mas, deixando a profundidade de lado e voltando às vacas magras: tracei o roteiro até achar o filme — baixei, mas deixei para depois, já com os olhos marejados. O vento, no entanto, me levou a um concerto de Dominguinhos com Yamandu Costa. Aí não resisti: me debulhei em lágrimas.

Alguém já me disse – ou talvez tenha sido um devaneio meu, desses que cultivo com muita frequência – que “não há maneira mais fácil de falar com os deuses do que ouvindo música”.

E Schopenhauer, o filósofo alemão, diria que chorar é simplesmente reconhecer o sofrimento inevitável da vida. E então, por que choras?

Brito e Silva – Cartunista