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Velhinho, sim senhor!

Velhinho, sim senhor!

É verdade, sim. É aniversário do vovô. Respondi isso hoje cedinho ao João Miguel, depois de ouvi-lo completar, com a sinceridade dos seus três anos: “vovô, você é velhinho.” E, mais uma vez, me vi convidado a concordar com ele. Para alguém que ainda mede o tempo em sonecas e brincadeiras, meus 66 anos completos neste 20 de julho representam uma eternidade.

Não que eu queira contradizê-lo, dizendo que me sinto jovem ou adolescente. Não, sou um idoso – está estabelecido que, aos 60, já se é idoso. E agradeço aos deuses por isso. Sou idoso, sim senhor. Um velhinho. Só não quero me tornar um velho tolo, desses em que a idade pesa não só nos ombros, mas também no espírito, expondo a corcunda, mesmo que não fisicamente, com atitudes ridículas e roupas que tentam disfarçar o tempo, como se ele não tivesse já deixado suas marcas na pele e, neste, provavelmente, no cérebro.

Alguns talvez digam que é inveja. Ledo engano. A inveja não tem lugar aqui. É verdade que já rondou meus dias como alma penada à porta, mas isso foi há muito tempo, tão distante que quase não me lembro. É certo, talvez, de quando via alguém tocando violão. Sentia uma pontinha de inveja, sim. Me inscrevi no Conservatório D’alva Stella da UERN. Fiz dois anos de teoria, mas desisti. Logo compreendi minha total falta de talento e empatia com o instrumento e a recíproca, ainda hoje parece verdadeira. Não queria tocar violão, ser violonista, queria apenas tocar “aquela música”, que eu cantava no banheiro. Só, somente só. Quando aprendo, deixo-a de lado, vou tentar outra. No fundo, era só mais um desejo de concordar com Nietzsche: “Sem a música, a vida seria um erro.”

Hoje, aos 66, tenho mais a agradecer do que a lamentar. Não tive grandes conquistas épicas, nem fiz grandes jornadas que merecessem uma “odisseia”, é certo, não fui nem sou um Ulisses, mas as poucas que tive valeram cada gota de suor, cada noite sem dormir. Talvez digam: “só isso?” Pois é. Mas eu entendo: quanto mais subimos, menores parecemos para quem não sabe voar.

Brito e Silva – Cartunista

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Pet parenting

Não foi na fila do pão do Carrefour, mas na televisão — creio que no Pequenas Empresas & Grandes Negócios — que ouvi uma entrevista sobre uma pousada para pets. O empreendedor justificava o negócio pelo tratamento dado aos animais pelos seus “donos”, aliás, agora chamados de “pais de pets”. E, por consequência, os pets deixaram de ser animais de estimação para se tornarem, oficialmente, “filhos”. É o tal conceito do pet parenting.

Essa tendência, que ganhou força nos últimos anos, envolve um nível de cuidado, atenção e investimento em animais que se assemelha (ou até supera) o que se dedica a crianças: roupas de grife, joias, brinquedos, hotéis e até babás para pets. Enquanto isso, dados da ONU apontam que, em 2022, 735 milhões de pessoas enfrentavam subnutrição no mundo. No Brasil, hoje, cerca de 3.800 crianças e adolescentes aguardam na fila de adoção. Mas claro, são só números… “só que não”, como diz a jornalista da CNN, são vidas humanas à espera de uma fagulha de humanidade, uma chance de dignidade.

Nos anos 80, o cantor e compositor Eduardo Dusek já ironizava o tema com “Troque seu cachorro por uma criança pobre”. A crítica ao pet parenting, que era então um fenômeno da elite carioca e paulista, hoje como rastilho de pólvora se espalhou por todas as classes sociais. É “normal” – entre pobres, ricos e remediados – existirem “pais de pets”, alguns comendo ovo dia e noite, noite e dia, mas o desfile com o pet “enfeitando” o passeio público com cocô, é indispensável.

Até “entendo”. Criar gente dá trabalho. Um cachorro já nasce sabendo ser cachorro e faz tudo que se espera de um cão. O mesmo vale para gatos e outros pets. Já com gente é diferente. É preciso ensinar tudo, e sem garantia de que será compreendido no momento, no futuro ou talvez nunca. Criar gente dá um trabalhão danado: ensinar a falar, a andar, a respeitar, a limpar a si e o que suja. Dizer “não” quando é mais fácil sim. E, ainda assim, chorar com eles a dor do primeiro “fora amoroso”, vibrar com os primeiros passos, perder o sono porque ainda não voltaram da balada, celebrar suas conquistas.

Pensando bem, como dizia Raul Seixas “Faz o que tu queres, pois é tudo da lei, da lei”. Apesar de mim, continuo gostando mais de gente!

Brito e Silva – Cartunista