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Por que choras?

Que sou um chorão de quatro costados, todo mundo – e os filhos de seu Raimundo – já sabem. Já escrevi bastante sobre isso. Ora, cá estou eu me achando: quem, em sã consciência, perde tempo com meus escritos? Mas é fato: choro até com beijo de novela. Outro dia, exercitando meu polegar no controle remoto e navegando pelo YouTube, encontrei um podcast em que um baixista comentava um vídeo de Dominguinhos lavando com lágrimas sua sentida sanfona tocando A Triste Partida, de Patativa do Assaré e Luiz Gonzaga, gravada em 1964.

Sim, eu choro mesmo. E não tenho o menor constrangimento. Alguns podem dizer que é coisa de quem já cruzou o Cabo da Boa Esperança. Ledo engano. Lá em casa já diziam que eu era emotivo, e por muito tempo acreditei que isso fosse fraqueza. Confesso: tentei segurar as lágrimas muitas vezes. Até entender que não, que era apenas humanidade.

O filósofo renascentista Michel de Montaigne valorizava a fragilidade como parte essencial da experiência humana. Para ele, o choro não era vergonha, mas expressão da nossa vulnerabilidade. Jean-Jacques Rousseau, no século XVIII, via a emoção como sinal de autenticidade: quem chora não foi endurecido pela sociedade — é uma alma ainda ligada à sua essência. Nietzsche, por sua vez, enxergava na intensidade das emoções a própria afirmação da vida. O choro, nesse sentido, poderia ser vitalidade, não só lamento, mas também força criadora.

Mas, deixando a profundidade de lado e voltando às vacas magras: tracei o roteiro até achar o filme — baixei, mas deixei para depois, já com os olhos marejados. O vento, no entanto, me levou a um concerto de Dominguinhos com Yamandu Costa. Aí não resisti: me debulhei em lágrimas.

Alguém já me disse – ou talvez tenha sido um devaneio meu, desses que cultivo com muita frequência – que “não há maneira mais fácil de falar com os deuses do que ouvindo música”.

E Schopenhauer, o filósofo alemão, diria que chorar é simplesmente reconhecer o sofrimento inevitável da vida. E então, por que choras?

Brito e Silva – Cartunista

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Luiz Fernando Verissimo

Nossa homenagem ao grande Luiz Fernando Veríssimo que nos deixou nesta sexta-feira,29, aos 88 anos de idade. Certamente está em “Algum lugar do paraíso”.

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Jaguar

Nossa homenagem ao grande cartunista Jaguar, que aos 93 anos nos deixou neste domingo 23, para juntar-se ao Henfil e fazer festas no céu.

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Velhinho, sim senhor!

Velhinho, sim senhor!

É verdade, sim. É aniversário do vovô. Respondi isso hoje cedinho ao João Miguel, depois de ouvi-lo completar, com a sinceridade dos seus três anos: “vovô, você é velhinho.” E, mais uma vez, me vi convidado a concordar com ele. Para alguém que ainda mede o tempo em sonecas e brincadeiras, meus 66 anos completos neste 20 de julho representam uma eternidade.

Não que eu queira contradizê-lo, dizendo que me sinto jovem ou adolescente. Não, sou um idoso – está estabelecido que, aos 60, já se é idoso. E agradeço aos deuses por isso. Sou idoso, sim senhor. Um velhinho. Só não quero me tornar um velho tolo, desses em que a idade pesa não só nos ombros, mas também no espírito, expondo a corcunda, mesmo que não fisicamente, com atitudes ridículas e roupas que tentam disfarçar o tempo, como se ele não tivesse já deixado suas marcas na pele e, neste, provavelmente, no cérebro.

Alguns talvez digam que é inveja. Ledo engano. A inveja não tem lugar aqui. É verdade que já rondou meus dias como alma penada à porta, mas isso foi há muito tempo, tão distante que quase não me lembro. É certo, talvez, de quando via alguém tocando violão. Sentia uma pontinha de inveja, sim. Me inscrevi no Conservatório D’alva Stella da UERN. Fiz dois anos de teoria, mas desisti. Logo compreendi minha total falta de talento e empatia com o instrumento e a recíproca, ainda hoje parece verdadeira. Não queria tocar violão, ser violonista, queria apenas tocar “aquela música”, que eu cantava no banheiro. Só, somente só. Quando aprendo, deixo-a de lado, vou tentar outra. No fundo, era só mais um desejo de concordar com Nietzsche: “Sem a música, a vida seria um erro.”

Hoje, aos 66, tenho mais a agradecer do que a lamentar. Não tive grandes conquistas épicas, nem fiz grandes jornadas que merecessem uma “odisseia”, é certo, não fui nem sou um Ulisses, mas as poucas que tive valeram cada gota de suor, cada noite sem dormir. Talvez digam: “só isso?” Pois é. Mas eu entendo: quanto mais subimos, menores parecemos para quem não sabe voar.

Brito e Silva – Cartunista