A Vila Que Me Fez Ver o Mundo

Outro dia, ouvi um provérbio africano que me catapultou a um tempo distante – mais de seis décadas e meia – mas que ainda guardo ao alcance da mão:
“É preciso uma vila inteira para educar uma criança.”

Foi impossível não voltar à adolescência, quando cada pequena experiência ajudava a moldar quem sou. Lembro das noites voltando do colégio Dom Bosco ou dos almoços em família, quando minha mãe, Dona Geralda, lançava frases que ecoam até hoje:“Respeite a todos, mas não baixe a cabeça pra ninguém. Não escolha seus inimigos, mas escolha bem suas armas. Não grite: diga com firmeza. Não queira apenas acreditar, mas aprender.”

Na época, eu as ouvia como música de fundo – enquanto me cercava de Chico Buarque, Caetano Veloso, Vinícius de Moraes, Gilberto Gil, Zé Ramalho.
Eu ouvia, mas não escutava de verdade. Talvez porque, mais que conselhos ou canções, eu precisava de uma “vila”.

Dias atrás, dois conhecidos me perguntaram o que achava da condenação de Jair Bolsonaro. Respondi e ouviram em coro: “Logo vi, você é vermelho”, e riram. Também ri. Não do fato, mas do riso deles. E, lembrando Guilherme Arantes, pensei: “Como é triste o riso dos ignorantes.”O que faltou a eles foi isso: uma vila. Em 1979, ao entrar no departamento de arte e diagramação do jornal Gazeta do Oeste, encontrei a minha. Luiz Alves, o “Velho”, me ensinou a olhar além da superfície: a entender capital e trabalho, salário e dignidade, democracia e ditadura. Talvez eu tenha absorvido só uma parte, mas foi o bastante para me tornar mais humano.

O “Velho”, apesar de uma vida inteira de lutas, segue sendo, acima de tudo, um humanista. Na ocasião do lançamento do livro “Abicar de lutar, jamais!”, do historiador Lemuel Rodrigues e cooperação do amigo jornalista Caio Cesar Muniz, mais uma vez me senti acolhido. Obrigado, “Velho”.

Brito e Silva – Cartunista

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