Trair e coçar

Há uma máxima que circula com a naturalidade das coisas erradas que viram hábito: “trair e coçar é só começar”. A frase, grudenta como piche em bunda de vira-lata, serve de muleta moral para uma das práticas mais antigas – e menos nobres – da humanidade. Não por acaso, o deputado Rogério Carvalho evocou algo nessa linha ao comentar os episódios recentes no Senado e no Congresso, envolvendo a rejeição de indicação ao STF e a derrubada de veto da dosimetria. No fundo, não se tratava apenas de política; era mais um capítulo da velha novela da conveniência.

Falar de traidores, no entanto, é quase redundância histórica. O Brasil — e o mundo — sempre foi pródigo em personagens que vestem ideais como quem troca de camisa: liberais de ocasião, religiosos de vitrine, “homens de bem” de discurso e moral frouxa. A filosofia antiga tratava o tema com uma brutalidade que hoje nos arrepia: quem renegava sua pátria ou seus valores pagava com a própria vida. Era a coerência levada ao extremo – ou a barbárie travestida de justiça, dependendo do olhar.

Mas não, não precisamos de fogueiras nem guilhotinas. Nosso tempo, com todas as suas contradições, inventou uma punição talvez mais cruel: o esquecimento. Ser apagado da memória coletiva, jogado no limbo dos irrelevantes. É o purgatório dos que já foram importantes.

E como se executa essa pena moderna? Ora, surpreendentemente simples e subestimado: o voto. Esse pequeno gesto tem o poder de erguer e enterrar carreiras. Eis a verdadeira catacumba democrática. A história, aliás, já mostrou esse mecanismo em ação. Pessoas outrora poderosas hoje, silhuetas fantasmagóricas vagam tentando reacender uma luz, há certa ironia nisso: a mesma exposição que um dia lhes deu palco agora revela que não sobrevivem à luz.

Então, sim, use seu voto. Não como vingança, mas como memória ativa. Estaremos imunes as traições? Claro que não. Nem as maiores referências morais da humanidade escaparam. A diferença é que, hoje, temos a chance de responder – não com pedras, espadas e guilhotinas, mas com algo muito mais civilizado e, convenhamos, igualmente implacável: o voto consciente.

Brito – Cartunista

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