QUEM MATARIA O JUIZ MORO?

Paulo Afonso Linhares

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura de 2010, é um dos mais lidos escritores hispano-americanos da geração dos anos ’70 do século XX. Embora  menos talentoso e carismático, ele pode ser considerado uma versão direitista de Gabriel Garcia Marquez. Sim, Vargas Llosa tem aliado a sua atividade literária com a militância política, que começou no campo socialista, em sua juventude, quando apoiava entusiasticamente a Revolução Cubana, porém, mudou a direção para o lado liberal-conservador e chegou a  concorrer à presidência do Peru, em 1990, pela coalizão liberal de direita Frente Demócrata (FREDEMO), em que venceu o primeiro turno, porém, perdeu a eleição no segundo turno para Alberto Fujimori. Desgostoso com o veredito das urnas, deixou sua pátria e obteve a cidadania espanhola em 1993, onde até se tornou um dos pares do Reino da Espanha, agraciado que foi, em 2011, pelo rei Juan Carlos I, com o pomposo título de nobreza de Marquês de Vargas Llosa.

Na militância política cada vez mais conservadora, Vargas Llosa tornou-se um autêntico e não menos chato boquirroto, mesmo porque há sempre seletas plateias e importantes veículos da mídia mundial dispostos a ouvir o que diz alguém que tem o poderoso charming de manter na prateleira uma dúzia dos prêmios literários mais importantes, à frente o Nobel de Literatura. Assim, o Marquês de Vargas Llosa aproveita o prestígio e ‘desce a chibata’ conservadora ao analisar, sobretudo, os altos e baixos da volátil política sul-americana.

Aliás, como pensador político estaria a anos-luz atrás do peruano, um nobre inca, na verdade, chamado Felipe Guamán Poma de Ayala (1534–1615), que escreveu em forma de carta ao rei espanhol Felipe III, entre 1600 e 1616, com inimagináveis 1.180 páginas de texto manuscrito com 397 desenhos de ilustrações, intitulada El primer nueva crónica y buen gobierno (A primeira nova crônica é bom governo), que se constitui o mais importante libelo contra as atrocidades dos colonizadores espanhóis na América. Lastimavelmente, a crônica nem chegou a ser lida pelo soberano espanhol, que certamente não daria qualquer importância ao escrito de Poma de Ayala, porquanto o manuscrito desapareceu no percurso para a Espanha. Muitos anos depois foram encontrados os originais que hoje fazem parte do rico acervo da Biblioteca Real da Dinamarca. A leitura dessa crônica faz de tudo que escreveu o Marquês de Vargas Llosa ridículos espasmos literários e do seu autor um liliputiano em dignidade e amor à terra em que nasceu. Certamente, Poma de Ayala jamais seria um par – barão, conde ou marquês – do reino sanguinário que conquistou seu país e escravizou o seu povo.

Doutra parte, em recente artigo escrito para o jornal El País, da Espanha, e replicado, claro, pelo O Estado de São Paulo, referindo-se à atuação do juiz Sérgio Moro, esse novo herói de todos os conservadores, direitosos e direitistas de carteirinha, daqui e de alhures, afirmou o Marquês de Vargas Llosa, entre outras tolices: “É um milagre que continue vivo”. Somente uma mente politicamente tosca pensaria desta maneira. Ao dizer isso, ele nada mais faz que uma leitura da polêmica atuação do juiz Moro sob o prisma de algumas das novelas de estilo policial que escreveu, inclusive com a característica de uma sempre exagerada dramaticidade.
O escritor (ex)peruano não dá ponto sem nó: busca na discussão de polêmicos temas políticos sul-americanos extravasar as frustrações que adquiriu na militância da política peruana. A complexa ‘trama’ da Operação Lava Jato e seus múltiplos efeitos e desdobramentos lhe cai como um luva, enquanto mote para estéreis polêmicas e invectivas descabidas. Nesse caso, é ridícula a sua intervenção, sobretudo, por demonstrar enorme desconhecimento da realidade brasileira, ademais de usar modelos já superados e inservíveis para analisá-la. Óbvio que, do alto de sua fama ‘nobelesca’ e nobiliárquica, pode escrever o que lhe ‘der na telha’, todavia, nada igualmente impede de ser refutado até mesmo por poucos conhecidos escribas provincianos.

A propósito, tome-se como exemplo a sua obra ¿Quién mató a Palomino Molero? A oitava novela de Vargas Llosa, publicada inicialmente em 1986, narra um acontecimento aparentemente desvestido de maior importância incursionando não apenas no terreno obscuro da natureza humana, mas, também, revisita cenários passados da política do Peru dos anos 1950, marcados pela corrupção no mundo da política, pelas práticas autoritárias de gestão do Estado e pelo predomínio de uma elite nativa em nada distante da crueldade e violência com que os espanhóis ensanguentaram os Andes peruanos, no século XVI, em busca de ouro e prata, quando ao lado de milhares de mortes se destacou o martírio do rei Túpac Amaru I (1545-1572), último rei inca da dinastia rebelde de Vilcabamba, perversamente assassinado pelo conquistadores espanhóis mesmo após lhes entregar um rico tesouro destes metais preciosos: depois de barbaramente torturado foi queimado vivo. Com Palomino Molero, tenente da Força Aérea peruana encontrado morto numa base militar, personagem  de Vargas Llosa, não foi assim tão diferente em tortura e assassinato, à exceção do fogo. Num transcurso cheio ambiguidades e situações imprevisíveis que desviam o rumo de quem seria o culpado pelo crime, o leitor é levado ao desenlace da trama apontado na investigação policial que se seguiu. Sem dúvida, uma bem construída e instigante narrativa.

Inegável que Vargas Llosa é um grande escritor e como tal conhece o apelo popular dos folhetins, sobretudo, algumas das corriqueiras fórmulas de sucesso folhetinescas, como é o caso do açulamento da curiosidade das massas para saber quem teria sido o assassino de certa personagem na trama novelesca. “Quem matou Odete Roitman?”, foi a indagação feita no final da novela global “Vale Tudo” (1988-1989), de Gilberto Braga,  que eletrizou o Brasil por muitos duas e mexeu com a cabeças de milhões de telespectadores da “Vênus Platinada”, ou seja, dois anos após a publicação do livro de Vargas Llosa. Talvez isto não tenha sido mero acaso, mas, uma inspiração, no mínimo, intertextual, para usar a categoria forjada pelo filósofo russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin, o teórico fundamental da linguística e da literatura. Em linguagem mais simples: Llosa pode ter inspirado Braga no uso dessa eficaz e ardilosa ‘ferramenta’ literária.

Com efeito, na fórmula de Braga – do “quem matou?” – segundo Nilson Xavier, o “objetivo é claro: gerar algum burburinho para despertar a audiência adormecida da novela. Ainda que o recurso seja visto como ‘golpe baixo’, uma vez que já foi usado à exaustão” (disp. em < http://bit.ly/2lJauG5 > acesso: 20 fev 2017). Bem, de todo modo é um subterfúgio que, nos folhetins da teledramaturgia tupiniquins, sempre tem dado certo para incitar a curiosidade das pessoas e aumentar os índices de audiência das telenovelas fracassadas e insossas (só Gilberto Braga já usou – e abusou – desse recurso em cinco das telenovelas que fez na Rede Globo…). Transposto para o ambiente mais nobre da literatura, o artifício também desperta grande interesse e não é menos chamativo. Por isto que com o “Quem matou Palomino Moleiro?”, de Vargas Llosa, não foi diferente: um absoluto sucesso, tanto que, editado em mais de trinta outros idiomas, além do espanhol, vendeu milhões de exemplares no mundo inteiro.

No entanto, é especulação barateira e descabida essa de Vargas Llosa sobre o “milagre” de o juiz Sérgio Moro ainda não ter sido assassinado. O problema é que ele, do alto de seu marquesado nos enxerga, a nós brasileiros, como nativos de uma inarredável Banana Republic. Ele não sabe que o Brasil não é mais aquele que conheceu quando das pesquisas do seu “A guerra do fim do mundo”, em que narra o episódio de Canudos, sempre na segura trilha de Euclides da Cunha (ainda prefiro mil vezes Os sertões que o romance de Llosa…).

Pois é, senhor Marquês de Vargas Llosa, o Brasil tem mudado muito, de modo que resolvemos nossas querelas dentro dos marcos da legalidade. Quem mataria (ou mandaria matar) o juiz Moro, o ‘espadachim’ da Lava Jato? Idiotice! Na condição de pessoa que vive num país com alto grau de violência urbana ele pode até ser vítima de ato criminoso, um assalto ou outro tipo de agressão, como têm sofrido muitos outros cidadãos deste país. Agora, em razão de sua atividade profissional de magistrado, sobretudo, de sua atuação frente à “Operação Lava Jato” essa especulação é uma enorme besteira.

Ora, mesmo aquelas pessoas ou grupos que se ressentem da atuação do juiz Moro devem saber que, hoje, se ele “levar uma topada” o Brasil pegaria fogo. Por outro lado, tirá-lo dos processos que envolvem ex-executivos da Petrobras, doleiros, empresários e políticos, envolvidos numa das mais intricadas redes de corrupção que se tem notícia no mundo, seria outra grande besteira: quem o substituísse dificilmente faria diferente do que ele faz e, portanto, as prisões provisórias e as severíssimas condenações seguiriam seu curso normal. Em resumo, seria isto outra “burrice esférica”, como resumiria o meu amigo juiz Assis Amorim, que faleceu recentemente. E a burrice é esférica, segundo definia com argúcia Amorim, quando se manifesta em todos os ângulos e pontos; onde quer que se toque, ela é burrice absoluta e irritante.

Ao que parece, somente uma prodigiosa mente novelesca conceberia matar um juiz para dar cabo ao processo. As nossas elites podem ser corruptas e perversas, ainda, mas, já ultrapassaram o estágio da violência rasteira “do tempo dos coronéis” e seu jagunços implacáveis. Claro, não se pode aconselhar ao Dr. Moro que relaxe com sua segurança pessoal e ande desabridamente nas ruas de sua Curitiba ou em qualquer outra grande cidade brasileira: a qualquer instante, estrela global que é, ele pode ser reconhecido e como tal agredido por algum maluco do tipo Mark David Chapman, o esquizofrênico que matou John Lennon, em 8 de dezembro de 1980, apenas para se tornar (tristemente) célebre.

Em resumo, esse besteirol do Marquês sobre o juiz Moro é exagerado, caviloso e sem fundamento. Certamente, impõe o costume republicano absoluto respeito à vida e à dignidade da pessoa humana: que viva em paz com sua família o jovem juiz Sérgio Moro, até quando a natureza lhe permita viver, goste-se ou não do seu agir profissional. E que tenha todo o tempo do mundo para refletir sobre o que fez ao seu país, para o bem ou para o mal. No mais, com toda essa baboseira parece até que Vargas Llosa deseja mesmo é escrever uma sequência da sua novela anterior, com um título mais ou menos assim: “¿Quién mataria a Sergio Moro?” E venderia muitos exemplares em diversos idiomas. Por isto, ao aproveitador e falastrão Marquês de Vargas Llosa, é essencial dizer: vire a boca para lá, urubu-da-asa-quebrada! Vai agourar noutro lugar! Arre!

P.S.: quem leu este artigo achou o título muito forte. Claro, nem de longe é um desejo ou tentativa de vaticínio. Por precaução usei o futuro do pretérito mataria para imprimir a marca da condicionalidade. Por fim, apenas usei o poder da técnica do “quem matou?” Imortalizado por Vargas Llosa e abusivamente usado pelo telenoveleiro Gilberto Braga. Se  você lendo chegou até aqui, o artifício foi eficaz mais uma vez.

 

 

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