Pet parenting

Não foi na fila do pão do Carrefour, mas na televisão — creio que no Pequenas Empresas & Grandes Negócios — que ouvi uma entrevista sobre uma pousada para pets. O empreendedor justificava o negócio pelo tratamento dado aos animais pelos seus “donos”, aliás, agora chamados de “pais de pets”. E, por consequência, os pets deixaram de ser animais de estimação para se tornarem, oficialmente, “filhos”. É o tal conceito do pet parenting.
Essa tendência, que ganhou força nos últimos anos, envolve um nível de cuidado, atenção e investimento em animais que se assemelha (ou até supera) o que se dedica a crianças: roupas de grife, joias, brinquedos, hotéis e até babás para pets. Enquanto isso, dados da ONU apontam que, em 2022, 735 milhões de pessoas enfrentavam subnutrição no mundo. No Brasil, hoje, cerca de 3.800 crianças e adolescentes aguardam na fila de adoção. Mas claro, são só números… “só que não”, como diz a jornalista da CNN, são vidas humanas à espera de uma fagulha de humanidade, uma chance de dignidade.
Nos anos 80, o cantor e compositor Eduardo Dusek já ironizava o tema com “Troque seu cachorro por uma criança pobre”. A crítica ao pet parenting, que era então um fenômeno da elite carioca e paulista, hoje como rastilho de pólvora se espalhou por todas as classes sociais. É “normal” – entre pobres, ricos e remediados – existirem “pais de pets”, alguns comendo ovo dia e noite, noite e dia, mas o desfile com o pet “enfeitando” o passeio público com cocô, é indispensável.
Até “entendo”. Criar gente dá trabalho. Um cachorro já nasce sabendo ser cachorro e faz tudo que se espera de um cão. O mesmo vale para gatos e outros pets. Já com gente é diferente. É preciso ensinar tudo, e sem garantia de que será compreendido no momento, no futuro ou talvez nunca. Criar gente dá um trabalhão danado: ensinar a falar, a andar, a respeitar, a limpar a si e o que suja. Dizer “não” quando é mais fácil sim. E, ainda assim, chorar com eles a dor do primeiro “fora amoroso”, vibrar com os primeiros passos, perder o sono porque ainda não voltaram da balada, celebrar suas conquistas.
Pensando bem, como dizia Raul Seixas “Faz o que tu queres, pois é tudo da lei, da lei”. Apesar de mim, continuo gostando mais de gente!
Brito e Silva – Cartunista


