Nocaute

Nocaute
Desde muito cedo percebi – ou fui persuadido – de que existem forças superiores. Não aquelas abstratas, naturais ou religiosas, mas forças reais e palpáveis, bem ao alcance da mão. Forças que se expressavam, por exemplo, através de chinelas havaianas. Foi nesse contexto que decidi escolher melhor as minhas batalhas e avaliar com cuidado quais, de fato, valiam a pena ser travadas.
Moldei minhas atitudes considerando sempre a lógica da ação e reação. Assim, me tornei mais conciliador, mais racional, alguém que busca manter o equilíbrio para não “perder a linha”, evitando entrar em brigas inúteis ou em discussões miúdas. Confesso que, após 66 anos, fiz poucos inimigos – pelo menos visíveis, já que sempre há os ocultos – e talvez a mesma equivalência de amigos. Em suma: muito poucos. Afinal, também não sou um Roberto Carlos ou algum “influencer da vida”.
Por onde passei, procurei deixar rastros que me permitissem voltar, caso fosse necessário. Sempre busquei a tolerância como guia, mas nunca de forma passiva. Poucas vezes levei desaforo para casa e, quando instado a lutar, não fugi. Como disse Madiba: “Nunca perco. Ou ganho, ou aprendo”.
Mas, recentemente, fui traído pela vaidade. Acreditava-me imune à arrogância, à intolerância e ao desequilíbrio. No entanto, depois de ouvir Cortella falar sobre a “imediatricidade” das redes – essa pressa que alimenta a violência – foi como receber um gancho de esquerda no queixo do próprio Mike Tyson. Caí nocauteado. Restabelecido, percebi que, nos últimos tempos – dias, meses, anos, talvez décadas – fui envolvido pela névoa das redes. Passei a reagir mais do que refletir. A responder a tudo e a todos com argumentos tão artificiais quanto a velocidade exigida pelos algoritmos que nos manipulam, mergulhei com mais ferocidade ao “pense isso, do que o pense nisso”.
Se existe um culpado pelo meu comportamento, seria a “rede”? Talvez sim, talvez não. O fato é que eu não sou assim. E, se sou, entrando em qualquer contenda rasa, não é assim que quero ser. Fui!
Brito e Silva – Cartunista


