Conheço o meu lugar

Conheço o meu lugar
“O que é que pode fazer o homem comum
Neste presente instante
Senão sangrar, tentar inaugurar
A vida comovida
Inteiramente livre e triunfante.”
Sou esse homem comum. Encaixo-me nesses versos do genial Belchior como luva que desliza pelos dedos de Ava Gardner, levando calor à pele branca e macia. E me pergunto: o que posso fazer neste instante senão sangrar? Sangrando, consciente da metáfora do “escorpião e o sapo”.
E, apesar de tudo, sou livre e triunfante. Talvez não inteiramente livre – ninguém o é, mas livre o suficiente para entender que a vida é mais do que dinheiro, mais do que likes, mais do que vender a fotografias editadas, mesmo coloridas não têm brilho, não têm alma, apenas uma “felicidade” dolorida. A vida é pra valer. E só tem uma – como já nos lembrou Vinícius de Moraes.
Sim, a vida é bela, sim senhor. Mas é preciso vivê-la sem pressa. Degustá-la respiração por respiração. Olhar ao redor. Rever o passado. Reconhecer os caminhos trilhados: as tristezas, as alegrias, as conquistas e as quedas que brotaram na jornada. Afinal, toda vitória nasce de batalhas: algumas vencidas com brilho, outras duras e sangrentas, porém as lutadas com honra, as flores de louros são mais verdes, mais viçosas.
Se é para vestir os versos como agasalho, digo: sou triunfante. Sim, triunfante. Minhas vitórias nunca precisaram humilhar ninguém e meu maior triunfo foi sobre minhas próprias fraquezas. Muitas vezes fui tentado a negar minhas origens – não o fiz. Pelo contrário: reafirmei-as. Como cantou Belchior: “Conheço o meu lugar”. Ética, honra e gratidão são esses valores que me fazem verdadeiramente triunfante. Há quem se afogue na soberba – esse vício curioso que faz alguém acreditar que brotou no deserto por obra e graça do acaso. Pobres amnésicos das próprias raízes.
E sigo como aquele cidadão comum “que a gente vê na rua”. Poderia cantar: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior…”. Mas agora, peço licença – póstuma – a Enéas para declarar: Meu nome é Brito. E conheço o meu lugar.
Brito e Silva – Cartunista


