Bugari

Bugari
Não tenho dúvida de que, entre todos os seres, nós, os humanos, fomos brindados com os sistemas mais frágeis do reino animal. Basta nos imaginar atravessando um deserto, famintos, sedentos, e encontrando uma poça d’água. Ao bebermos, cairíamos de cama, com risco de morte; qualquer bicho, por mais despretensioso, se refestelaria sem culpa. É a prova líquida da penúria do nosso sistema gástrico, e de todo o resto.
Enquanto isso, o urso pardo fareja uma carcaça a quilômetros; o elefante capta vibrações invisíveis no chão; uma águia, lá das alturas, enxerga uma presa a dois mil metros. E aí vêm outros humilhando nossa espécie: criaturas que voam, que correm a cem quilômetros por hora, que levantam quatro vezes o próprio peso como quem espirra, que passam semanas sem beber água. A lista é longa, e nossa autoestima vai ficando do tamanho de uma pulga, que, aliás, também pula melhor do que nós.
Sim, somos frágeis. Um vírus – que nem vivo é, pobre diabo – nos derruba, e às vezes nos leva a morta. Mas, apesar desse acervo de fraquezas, a natureza (Deus, para alguns; a evolução, para outros) resolveu compensar o estrago com uma habilidade exclusiva: um cérebro capaz de pensar, imaginar, criar e trapacear as limitações do próprio corpo. Não podemos voar? Pois já pisamos na Lua várias vezes. Não somos rápidos como a chita? Mas orbitamos a Terra na Estação Espacial a 40 mil km por hora. Nossa visão é um fiasco comparada à da águia? Talvez. Ainda assim, pelo James Webb, já espiamos a infância do universo.
E quanto ao olfato… bem, não somos urso, nem tubarão, nem cachorro vira-lata. Mas eles, coitados, não viajam no tempo com uma simples cheirada. Ontem mesmo, Maria me trouxe um ramo de bugari. No instante em que senti o perfume, fui transportado ao quintal da minha infância, lá nos Paredões, rua Augusto da Escóssia – a embaixada do Principado da Baixa do Chico. Vi Dona Geralda cuidando dos canteiros, das frutas, e dos muitos pés de bugari que perfumaram minha adolescência inteira.
Somos frágeis, é verdade. Mas, ainda assim, gosto dos humanos – claro, não de todos. Alguns, inclusive, nem parecem que são.
Brito e Silva – Cartunista


