Espelho

Na minha mesa há um espelho redondo, de pé, com hastes de aço inox e cerca de quinze centímetros de diâmetro – quem desenha sabe o porquê. Na maioria das vezes, ele passa despercebido. Mas, outro dia, eu estava concentrado desenhando a caricatura de um cliente e, inesperadamente, dei por mim olhando para o espelho. Não vi apenas meu reflexo: meu passado inteiro estava ali, exposto em cada ruga, em cada fio branco de cabelo. Estavam ali as noites a fio de trabalho em jornais e TVs, os cochilos sobre a prancheta e, claro, aquelas madrugadas de juventude pulsante, quando o amanhã parecia eterno. Como disse o poeta, a “aurora da minha vida” estava ali para me dizer que valeu a pena – apesar de tudo.

Claro, a velhice – a troisième âge, como dizem os franceses, gente elegantes até para falar velhice – ou a tal “melhor idade”, como insistem os marqueteiros vendedores de suplementos milagrosos e promessas de eterna juventude em cápsulas, chega sem pedir licença. Vem trazendo no corpo o peso do tempo e, na bagagem, algumas cicatrizes na alma. São marcas de dias de luta, lições de que tudo passa: vitórias, derrotas, amores e desamores. Quem aprendeu a ganhar e a perder, a peceber o que é importante, o que é e não é prioridade, acaba olhando o mundo com mais leveza, menos pressa, sabendo que o grande troféu – esse sim, sem patrocínio – é a própria vida.

Por isso, quando vejo esses moços reclamando de tudo e de todos, como quem busca uma metodologia infalível, uma cartilha definitiva ensinando a viver, lembro do Lupicínio Rodrigues: “Esses moços, pobres moços… Ah! Se soubessem o que eu sei”. Desde cedo descobri que há coisas que não coabitam: luz e escuridão, quando uma chega, a outra se apaga; bem e mal, quando um se impõe, o outro recua; amor e ódio. Já outras forças, igualmente antagônicas, fingem que vivem isolados, mas são inseparáveis: riqueza e pobreza, patrão e empregado, gratidão e ingratidão, solidariedade e indiferença, vaidade e cinismo…

No espelho, vi apenas alguém que não amealhou vil metal, não ficou sábio, ficou mais velho. Convenhamos, dá trabalho. Mas envelheceu com a dignidade intacta, nos dias de hoje, não é pouco coisa.

Brito e Silva – Cartunista.

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