Obscenidade

Finalzinho de tarde eu Maria nos deixamos navegar pelos mares digitais do YouTube, quando avistamos um documentário sobre os 15 homens mais ricos do planeta. Aportamos, claro. Difícil resistir a um desfile de bilionários empavonados, pobres almas embevecidas da mais grotesca vaidade!

Minutos depois, senti enjoo, repulsa, e até uma certa compaixão involuntária por criaturas tão endinheiradas quanto ocas. Coitados: só têm palácios, iates, aviões e alguns amores em suas alcovas acetinadas, certamente ao custo de algumas centenas de milhares de dólares. Imagino que, talvez, só se sintam humanos, no único momento democrático da vida: quando sentam no vaso sanitário de ouro, e descobrem que o aroma peculiar do expelido é igual para todos.

Não terminei o documentário. O excesso de opulência quase me causou alergia. Maria, como sempre, arrematou “isso é velho. A história está cheia de exemplos, até na Bíblia: Salomão já vivia assim no seu suntuoso palácio com suas 700 esposas e 300 concubinas. Pronto. Como diziam os filósofos lá de Luzia do Ponto Frio, em “Moscow“ caiu a ficha”.

Depois disso, perdido em meus pensamentos, numa tentativa vã de entender ou talvez, me livrar definitivamente do asco que ainda permeava meu raquítico cérebro, decidi levar meu desconforto, aonde tudo se resolve, desde unha encravada às questões filosóficas mais profundas de onde viemos e pra onde vamos: o bar. Um copo d’água com gás – meu médico ficaria orgulhoso – e, num gole só, despejei no balcão o incômodo que o documentário tinha me deixado:

– Se esses 15 homens distribuíssem uma parte da fortuna, acabava a fome no mundo.

O universo nunca perde a oportunidade para enviar seus emissários. Na outra ponta do balcão, um típico representante da aristocracia burguesa do bairro, cabelos grisalhos desalinhados, bermuda branca, camisa de time de futebol americano, sandálias de dedo – e não eram havaianas – com uma dose de 51 como quem empunha uma fusta, acreditou que era sua deixa:


– Não funciona. Pobre é burro. Provo: nas universidades hoje só têm pobres por causa das cotas.  Aplausos. O bar inteiro concordou como lagartixa, como se ele tivesse acabado de citar Jesus Cristo. Para preservar minha integridade física e mental, mudei o rumo da prosa para o cotidiano dos sexagenários: dores nas articulações, remédios controlados, cansaço…

Adendo: A ONU e o Banco Mundial dizem que mais de um bilhão de pessoas vivem na pobreza. A desigualdade e a indiferença são obscenas: Enquanto isso, seguimos discutindo cotas, cachaça e vasos sanitários de ouro.

Brito e Silva – Cartunista

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