A Culpa é da mulher?

Afirmar que a mulher já foi, é e continua sendo celebrada em verso e prosa é, de certo modo, dizer o óbvio. Contudo, é igualmente inegável, em proporção semelhante, quiçá superior, a discriminação a perseguiu desde os primórdios. A narrativa bíblica de Eva, responsabilizada pela “queda” e pela expulsão do paraíso, tatuou na figura feminina uma culpa modelar e persistente. Paradoxalmente, ao conceder a ela curiosidade, lucidez e capacidade de decisão ao comer o fruto proibido, lhe conferia, à primeira vista, uma suposta superioridade ao homem; mas, quando ampliamos os pixels, percebemos tratar-se de um artifício destinado para afastar Adão de qualquer culpabilidade. Defini-la como “auxiliadora e companheira”, cimenta-se a simbologia de uma desigualdade que cruza séculos e se cristaliza até os dias atuais.
Minha infância e juventude, por sua vez, foram moldadas pela força e pela presença das mulheres. Perdi minha mãe aos nove anos e, junto aos meus dois irmãos, fui acolhido por minha tia Geralda -mulher desquitada em uma época em que essa condição impunha um estigma severo. Helena – em memória – auxiliava nos afazeres domésticos e levava suas três filhas, Suely, Suelene e Silvana com quem criamos laços de profunda irmandade. A ausência paterna cotidiana – meu pai refez sua vida, mas essa é outra história – muito cedo aprendi a reconhecer e respeitar a mulher em toda a sua plenitude.
No meu primeiro emprego, em 1979, no jornal Gazeta do Oeste, minha chefia era uma mulher: Maria Emília. Anos depois, em Rio Branco, como diretor de Arte e Cenografia do Jornal e da TV Rio Branco, minha superior foi Nádia Faria, no O Mossoroense, por um breve tempo trabalhei sob a direção da ex-deputada Larissa Rosado. Sempre mantive com ambas uma relação pautada pelo mérito, pela liderança e pelo mais absoluto respeito.
Hoje, aos 66 anos, pai de três filhas e avô de cinco netas, mantenho convicção de nenhuma forma de violência à mulher é admissível. É repugnante o que se faz com Janja e Michele, enquanto isso, mulheres comuns são mortas a facadas, tiros, atropeladas, arrastadas por carros…
Brito e Silva – Cartunista


