Tâmaras

Hoje, cedinho, na fila do pão do Carrefour — fonte que mina minhas histórias desinteressantes como cacimba de rio de leito seco — alguém falava sobre tolerância zero, com sei lá o quê. O assunto claramente não me fisgou, porque não ouvi absolutamente nada. Talvez algum deus caviloso tenha me dispersado, desviando minha atenção para a música que começava a tocar: “É preciso saber viver…”, o que, de certo modo, me colocou numa conversa sem saber do que se tratava.

No entanto, era só eu e meus pensamentos. “Tolerância zero”, traduzido ao pé da letra, carrega uma radicalidade total e inequívoca. E parece mesmo ser o espírito do tempo: todos respondem, ninguém pergunta; todos têm certezas, ninguém tem dúvidas. Às vezes fico acabrunhado com tanta gente vivendo sob a ilusão de uma felicidade cultivada como promessa, aguada uma certa esperança de florir no próximo sol, sempre d’um horizonte distante.

É como quem planta tâmaras. O prazer não está em comê-las, mas no ato de plantar, cultivar, regar, acompanhar o crescimento viçoso. Há uma sabedoria silenciosa em quem entende que a felicidade não mora no “mercado futuro”, mas no agora, no instante que se vive.

Portanto, plante tâmaras. Cuide delas com paciência. Adube, regue, capine a intolerância que cresce como erva daninha. Vivencie o prazer do presente, mesmo que miúdo seja. E se em algum momento bater a vontade de chutar o balde e “Que tudo mais vá pro inferno”, “E quando estiver mais triste, mas triste que não tem jeito, quando de noite der vontade de se matar”, vá Embora pra Pasárgada ou cante “É precisa saber viver”.

Brito Silva – Cartunista

Um adendo: “Como é bom poder tocar um instrumento”. Diz Caetano.

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