O Botafogo me redime

Botafogo me redime
Esperando o Uber na porta do Carrefour, tentando poupar minha preguiça de uma caminhada até em casa, sentei num banco qualquer. Duas pessoas conversavam ao lado e, sem pedir licença, me incluíram num papo que eu nem estava ouvindo:
– O senhor não acha que a leitura é um caminho para abrir a mente?
Por um instante, cogitei responder que nem sempre. Às vezes, uma boa “machadinha” pode ser mais eficaz. Mas achei melhor não arriscar ser mal interpretado e apenas concordei, torcendo para não ser puxado para dentro da conversa. Mas…
– Estava dizendo aqui ao amigo que leio três livros por semana…
Ufa! Meu Uber buzinou. A longa distância de duas quadras me pareceu uma maratona, e me senti menor que um comentário bolsonarista sobre a tese da Terra Plana. Na caminhada, percebi o quão limitado sou em repertório, intelectual e talvez até de vida.
Veja só: nunca fiz grandes coisas – exceto os filhos, que certamente são a melhor parte de mim. Minhas manias e ranzinzices nem têm charme suficiente para intrigar a vizinha mais curiosa da rua. Sou tão previsível quanto o sol nascendo no leste e se pondo no oeste, todos os dias que dá.
Leio, em média, uns 15 livros por ano. Quando me sinto saturado pela fartura de títulos, busco meu porto seguro: O Lobo da Estepe, do Hermann Hesse, ou algumas páginas da Bíblia. O mesmo vale para música, quando os “zuvidos” cansam, recorro ao Pink Floyd. Com filmes, depois de fugir de tantos heróis s bombados salvando o mundo, aceno para ser salvo por Giuliano Gemma, Anthony Steffen e Clint Eastwood.
Antes mesmo do motorista anunciar que havíamos chegado, olhei para trás e vi o “leitor voraz” com uma camiseta amarela estampada com as bandeiras do Brasil e dos EUA. Contava entusiasmado que já tinha lido quase tudo de um tal Samuel Rowbotham, sim aquele, tido como o pai da Terra Plana.
Meu cérebro – se é que ainda me resta um – me presenteou com um leve sorriso de alívio. Afinal, apesar de mim, talvez eu não seja tão ruim assim, sem falar que o Botafogo me redime.
Brito e Silva – Cartunista


