Limonada

limonada

         Eu sou mesmo um sujeito sem graça. Tenho poucos vícios e manias, todos irrelevantes, sem o mínimo de importância, tanto, se os guardá-los no fundo do abismo do bisaco poucos perceberiam, inclusive eu. Uma psicóloga amiga minha, diz que eu seria um desastre esticado em um divã, segundo ela sou bastante equilibrado, tenho uma visão de mundo bastante realista um pouco utópica quando se refere as relações sociais humanas entre pobre e rico, capital e trabalho, mas, quando se trata de mim, comigo mesmo, sou bem resolvido, e, portanto, ainda segundo ela, sou sem graça e fora dos parâmetros atuais do ponto de vista psicossocial, porque um grande contingente de pessoas têm problemas que exigem passagens pelos consultórios dos discípulos de Freud mundo afora.

         “Você, eu não levaria ao meu divã”, disse-me ela outro dia, preferindo longas horas de miolo-de-quartinha no meu escritório, regadas a generosas xícaras de café. De fato, não consigo fazer uma tempestade em copo d’água – Talvez por falta de imaginação -. Certa vez, quis colocar na minha pochete um traumazinho para chamar de meu. Debulhei um rosário de motivos, que certamente se eu soubesse potencializá-los da forma correta, poderiam se transformar em algo bem neurótico que provavelmente carregaria pendurado no pescoço em um trancelim como um pingente. Dentre a montanha de razões elegi três: a pobreza, feiura e altura física.

         A pobreza: essa logo descartei. Você não estar pobre, você é pobre, não importa quanto dinheiro tenha, vintém, por se só, não o fará rico, não lhe confere mais conexões neurais.

         A feiura: apostei no conto  La Belle et la Bête, de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, que resumidamente se torna no nosso “Quem ama o feio bonito lhe parece”. Risquei do caderno.

        A altura: Restou-me meus 1.60cm, quando me preparava, enfim, para ter meu próprio trauma, conheci Thurbay Rodrigues, no jornal Gazeta do Oeste, isto lá nos anos 80, que pôs uma pá de cal nas minhas pretensões traumáticas. Todas às vezes que me via aborrecido querendo bancar o “galo cego”, dizia: “Se esse baixinho tivesse meu biótipo”, isto poderia catapultar minhas intenções, mas que nada, deu um revertério, não vingou, tive que abrir mão da empreitada. Nunca mais, traumas me atraíram, nem o do Bebeto Braga, como diz o Caby da Costa Lima.

       Por isso, como diz meu amigo Delegado (porteiro e filósofo): se a vida está azeda, faça uma limonada.

Brito – Cartunista

 

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